quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O escritor José Cardoso Pires e a revolução do 25 de Abril de 1974


 O TEMPO CERTO

«Foi a irmã de Cardoso Pires, Maria de Lurdes, que então trabalhava no Hospital de santa Maria, que lhe ligou na madrugada do dia 25 de abril, por volta das cinco da manhã, para o avisar de que tinha havido uma revolta. Cardoso Pires não perdeu tempo, despediu-se de Edite e disse-lhe para fugir com as miúdas. Tudo apontava para que o golpe em curso fosse de militares da extrema-direita, possivelmente liderados pelo general Kaúlza de Arriaga, porque em dezembro do ano anterior tinha havido uma tentativa de golpe de estado da extrema-direita.
No seu Mazda azul-escuro, Cardoso Pires seguiu para os lados de Benfica. Perto do Jardim Zoológico, dois soldados mandaram-no parar. Cardoso Pires perguntou-lhes o que era aquilo e um dos soldados, de punho fechado, respondeu-lhe: “Isto, meu amigo, é a liberdade!” Afinal, a revolução estava na rua e era de esquerda. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Era quase impossível acreditar no que estava a acontecer. Ainda sem estar convencido, dirigiu-se para as instalações do Rádio Clube Português, na Sampaio e Pina. Ali perto, no Parque Eduardo VII, as ruas estavam cortadas, não se podia circular. Cardoso Pires confirmou que estava em curso uma revolução para derrubar a ditadura.
Sem perder tempo, avisou os amigos Salgado Zenha e Manuel de Brito. Ainda passou por casa para avisar Edite e tranquilizá-la. Afinal, não era preciso fugir. Como milhares de outros lisboetas, não acatou os apelos das Forças Armadas para que a população se mantivesse em casa com a máxima calma e seguiu para a Baixa. Na rua ou às janelas, a população queria acompanhar a revolução ao vivo. Cardoso Pires queria ver com os próprios olhos o que estava a acontecer. Tinha esperado demasiado tempo por este momento para agora ficar em casa sentado à espera a roer as unhas.
Por volta do meio-dia, quando terminou uma escaramuça no terreiro do paço, o povo invadiu as ruas do coração da capital. Gritos, cânticos, vivas aos militares que desfilavam pelas ruas da Baixa e a quem o povo dava cravos e cigarros em troca da liberdade tão desejada. Cardoso Pires passou o resto do dia na rua, entre o chiado e o Largo do Carmo, acompanhado de outros jornalistas, amigos e intelectuais, como Sttau Monteiro, João Carreira Bom ou José Freire Antunes, todos eles sorrisos e lágrimas em cima das chaimites. A ditadura acaba naquele dia.»

O livro é a história "de certo Reino onde nos velhos outrora vivia um imperador astuto, diabo e ladrão" de quem "não se sabe se afinal ele era homem, se era estátua ou apenas descrição". O percurso deste imperador (origens, formação na "cidade dos Doutores") reproduz a biografia de Salazar (origem modesta, formação em Coimbra). O reino do Dinossauro é o Reino do Mexilhão, onde vivem os mexilhões, que tudo aguentam, governados pelos Dê-Erres, cujo domínio da palavra lhes deu o poder. Segue-se a descrição do governo do Dinossauro, da mentira como forma de governar e finalmente do seu acidente até a morte, retrato irónico dos últimos anos de Salazar quando, após sofrer a queda que o afastaria das suas funções políticas, julgava ainda governar em sessões ficcionadas do conselho de ministros
.

“Um dos casos mais extraordinários deu-se com o Dinossauro Excelentíssimo de J. Cardoso Pires. O livro acabara de sair e o deputado da «ala liberal» Miller Guerra afirmou na Assembleia Nacional que não havia liberdade em Portugal. Para o contrariar, o deputado Casal-Ribeiro (ultraconservador) perguntou-lhe, precipitadamente:

 «V. Exa. falou no falso conceito de liberdade. E eu pergunto o seguinte: V. Exa. quer mais liberdade do que aquela que nós vivemos neste momento, quando se permite, por exemplo, a saída de um livro ignóbil chamado Dinossauro Excelentíssimo?» (Diário da Sessões, n.º 201, 29 nov. 1972, p. 3960–3961).

 Apontado estupidamente como um exemplo da liberdade, a Censura ficou sem capacidade de atuar, em relação ao livro e ao seu autor. E foi um verdadeiro sucesso, com seis edições em 1972–

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