Em 1967 rebentou um escândalo sexual que afetou profundamente a ditadura salazarista. Uma rede de prostituição infantil incluía marqueses, condes, empresários, um ministro e até um alto membro da Igreja. Filhas de prostitutas com 9, 10, 11…anos eram entregues pelas mães em troca de dinheiro. Apesar de a rede ter começado a atuar há anos, só em 1967 o escândalo foi conhecido, graças a jornais estrangeiros, já que a comunicação social portuguesa estava sujeita à censura.
Um jornal italiano publicou a notícia com o título: «Caça à lolita no jardim do ministro.». «A caçada» é descrita com alguns pormenores. Dez crianças nuas, calçando apenas sapatos e usando uma fita colorida na cabeleira postiça, eram «largadas» no jardim do ministro. Os predadores, nus e também com uma fita colorida, perseguiam as presas até apanharem a que tinha a fita da mesma cor da usada pelo «caçador». De seguida consumava-se o ato sexual. Outro divertimento dos predadores sexuais consistia numa dança executada pelas meninas à luz cor de rosa vinda de holofotes. Daí o nome de Ballet Rose atribuído ao escândalo. Como os abusadores de crianças pagavam muito bem o desfloramento das meninas, pelo menos uma mãe vendeu várias vezes o da sua filha, usando sangue de galinha ou de coelho para simular a virgindade.
Embora o caso fosse falado pelos corredores do poder, apenas foi devidamente investigado quando a policia judiciária prendeu a modista Genoveva, tida como «desencaminhadora de menores», já que encontrou na sua casa a lista dos clientes das meninas feitas prostitutas pelas próprias mães. Salazar, ao tomar conhecimento do caso, acabou com as práticas pedófilas dos seus correligionários e mandou a PIDE seguir a investigação, embora com precaução.
A divulgação do escândalo na comunicação social estrangeira irritou profundamente o Presidente do Conselho de Ministros. O seu ministro da Justiça ao exigir a investigação total do caso, escreveu a sua própria demissão, pois o chefe do Governo, homem católico, pretendia a todo o custo defender «a moral e os bons costumes» do regime. Mário Soares, Francisco Sousa Tavares e Urbano Tavares Rodrigues, acusados de passarem a informação a jornalistas estrangeiros, foram presos, tendo permanecido atrás das grades cerca de três meses. Mário Soares, por ser «demasiado irritante» para o regime, viveu pouco tempo em liberdade, pois foi exilado para S. Tomé e Príncipe, de onde só voltou nos tempos da «primavera marcelista».
Quando o caso foi a julgamento, duas prostitutas foram condenadas, a um dos homens foi aplicada uma multa, os restantes foram absolvidos.
Mais de vinte anos após o 25 de abril, Moita Flores, autor da série televisiva Ballet Rose e de um livro sobre o mesmo tema, afirmou que houve muita pressão para que a série não fosse exibida. Só após a morte de um alto membro da Igreja portuguesa, a mesma foi autorizada, embora em horário a partir da meia noite. Interrogado se essa alta personalidade era o Cardeal Patriarca, Moita Flores não confirmou nem desmentiu, apenas esclareceu que esse indivíduo foi ator participativo e não apenas encobridor. Acrescentou que, aquando da visita do Papa Paulo VI a Portugal, sua Santidade teve uma dura conversa com o prelado português, o qual, posteriormente, foi sujeito a uma certa «clausura».-(Francisco Cantanhede)
O caso Ballet Rose envolveu a prostituição de crianças de baixa idade (8 a 12 anos[5]), crimes encobertos por um regime político com uma moralidade católica muito forte. Havia pagamentos para "desflorar" crianças (tirar a sua virgindade) a professoras e responsáveis pelas crianças oriundas de meios pobres.
O caso começou no início dos anos 1960. Uma das raparigas de 16 anos, abusada desde os 9, decide denunciar o caso à Polícia Judiciária, acompanhada por um advogado
No dia 10 de dezembro de 1967 Portugal é abalado por notícias na imprensa britânica sobre um hediondo esquema de pedofilia, prostituição e abuso de menores envolvendo altas figuras do Estado Novo: o caso “Ballet Rose”.A Polícia Judiciária, vigiada de perto pela PIDE, investiga uma rede de prostituição que operava desde o início dos anos 60 e sobre a qual vinham circulando rumores, envolvendo menores, nomeadamente crianças de nove e dez anos, por norma, provenientes das zonas mais pobres do país. O regime, desde o próprio Salazar ao diretor da PIDE, Silva Pais, tudo farão para abafar o caso ao mais alto nível de modo a evitar um escândalo envolvendo altas individualidades da sociedade e do regime. O ministro da Justiça Antunes Varela demitir-se-á em protesto contra o encobrimento do escândalo de corrupção de menores que Salazar silenciou, expulsando e proibindo de entrar no país advogados e jornalistas estrangeiros.
Já os portugueses Mário Soares, Francisco Sousa Tavares e Urbano Tavares Rodrigues são presos durante três meses pelo seu envolvimento na denúncia deste escândalo, saindo em liberdade em março de 1968. Mário Soares, acusado de espalhar notícias falsas sobre Portugal no estrangeiro e de ser a fonte da notícia dos periódicos internacionais, é preso em dezembro de 1967, passando o Natal em isolamento na cadeia de Caxias, seguindo-se a deportação para São Tomé.
Entre os envolvidos no escândalo sexual estão ministros do governo de Salazar, militares, grandes empresários ligados à indústria, banca e alta finança, membros da aristocracia ou da Igreja. A investigação em poucos resultados práticos se traduz e o caso acaba sem a condenação dos principais e mais notórios perpetradores, deixando incólumes as altas figuras do Estado Novo.


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