“Anunciámos
que estes
espetáculos
eram únicos,
portanto não
vamos trair as
pessoas e, passado
uma semana,
estar a tocar
em Carnaxide
ou noutro sítio
qualquer”
MANUEL FARIA
TROVANTE
O mote inicial era, e continua
a ser, “Viver Tudo Numa
Noite”. Contudo, o regresso
dos Trovante aos palcos reverberou
tanto junto do público que aquela
prometida noite acabou por
desdobrar-se: de um concerto em
Lisboa e outro no Porto passaram
a duas datas em cada uma das
cidades. É já esta sexta e sábado
que a banda de João Gil, Luís
Represas e Manuel Faria sobe ao
palco da grande sala da Meo Arena,
na capital, com os concertos da
Invicta a realizarem-se na Super
Bock Arena — Pavilhão Rosa Mota,
nos dias 27 e 28. Consigo levam as
canções históricas de um percurso
musical que arrancou, em Sagres,
há precisamente 50 anos e que
rendeu à memória musical do país
clássicos tão incontornáveis quanto
‘125 Azul’, ‘Perdidamente’, ‘Xácara
das Bruxas Dançando’ ou ‘Timor’.
E, claro, ‘Memórias de Um Beijo’,
canção a cuja letra foram buscar a
ideia para este regresso: “Queria
viver tudo numa noite/ sem perder
a procurar/ o tempo ou espaço/ que
é indiferente para poder sonhar.”
Quando subirem ao palco evocarão
não só memórias de muitos beijos
vividos por um público que sempre
os acarinhou como também
inesquecíveis experiências de
estrada vividas ao longo de 16 anos
de atividade contínua, entre 1986
e 1992.
“Ao fim de todos estes anos temos
a sensação de que ainda há pessoas
que não nos viram e podem agora
ter uma oportunidade de ver”,
confessava-nos Luís Represas
quando a banda anunciou este
regresso aos palcos. “O que
nós queremos é entregar às
pessoas a música como sempre
a tocámos, para que alguém
que for pela primeira vez possa
dizer: ‘Finalmente, consegui
ver Trovante.’” Quando falámos,
inicialmente, com Represas, Gil
e Faria, a quem, em palco, se
juntarão Artur Costa, Fernando
Júdice, António José Martins, José Salgueiro e João Nuno Represas,
os três músicos confessaram-nos
que não estava em cima da mesa
expandir estas datas para uma
digressão pelo país. “Depois, cada
um segue a sua vida”, assegurou
Faria.
Agora, nas vésperas do regresso,
o músico reitera a ideia. “Houve
muitos convites e muitas propostas
vindas de várias direções, mas há
duas razões [para não aceitarmos]:
primeiro, anunciámos que
estes espetáculos eram únicos e
queremos ser fiéis a essa postura,
portanto não vamos trair as pessoas
e, passado uma semana, estar a
tocar em Carnaxide ou noutro
sítio qualquer; a segunda razão,
que também é muito importante,
é o facto de todos os elementos do
grupo terem carreiras individuais,
que têm de continuar”, defende.
“Se nós ficássemos, de repente,
disponíveis no mercado, estaríamos
a canibalizar as carreiras uns dos
outros. Pessoalmente, faria isto
o ano inteiro, mas as coisas têm
de ter peso e medida e acho que
estamos com a medida certa.”
A banda tem consciência de que
estas quatro noites terão de ir ao
encontro das expectativas de um
público que cresceu com a música
dos Trovante, não podendo fugir
às canções ‘obrigatórias’. Contudo,
assumem que poderá haver espaço
para temas que não tenham tocado
das últimas vezes que se reuniram.
Num momento em que já estão
em ensaios finais, Manuel Faria
assegura que o alinhamento que
tinham definido no início não
se alterou. “Temos a ordem feita
desde agosto do ano passado e
há muita gente a trabalhar sobre
ela, portanto tinha de haver um
motivo muito forte para alterar
alguma coisa”, começa por dizer.
“Mas estamos muito satisfeitos e
a tocar as músicas no ritmo que
tocávamos há 30 anos, digamos
assim. Estamos surpreendidos
por estarmos a fazer as coisas
exatamente com a mesma energia.” Assumindo que algumas canções
“deram bastante mais trabalho do
que outras”, Faria explica: “Temos
músicas com poucos acordes e que
funcionam de uma forma regular e
depois temos outras cheias de picos
e arestas e de coisinhas pequeninas,
que, na minha opinião, são as que
dão mais gozo.” Apesar de a tarefa
de pegar em canções antigas ser
desafiante e de os Trovante nunca
terem sido banda de facilitismos,
garante que a ‘memória muscular’
funciona. “Nós vamos tocar as
músicas sem nenhum arranjo novo,
mas nunca tocávamos da mesma
maneira”, recorda o músico.
“Agora, em dois dias seguidos, não
tocamos igual. Isso é que dá gozo,
pelo menos a nós.”
A adesão massiva do público a
estes concertos — os bilhetes
estão praticamente esgotados —
trouxe ao coletivo uma sensação
diferente da dos espetáculos
esporádicos que foram fazendo
desde que declararam o fim dos
Trovante. “Temos tido o cuidado
de fazer uma trajetória ascendente.
Começámos por fazer a Aula Magna, depois fizemos o Coliseu,
o Campo Pequeno, depois dois
Coliseus, a Meo Arena… Quando
o Vasco Sacramento [da agência e
promotora de espetáculos Sons Em
Trânsito] nos propôs voltar agora,
uma das coisas que pensámos foi:
‘Eh pá, já fizemos isto’”, assume
Faria. “Mas depois houve a ousadia
de passar de um para dois dias,
coisa que nunca fizemos, de facto.
A adesão do público é fundamental.
Acho que houve aqui algum malentendido, que costuma haver
neste tipo de espetáculos, com
muita gente a pensar que estava
tudo esgotado, quando não está,
mas, tirando isso, foi uma aposta
ganha.”
Com o regresso à sala de ensaios,
a vontade de criar música nova
poderia surgir naturalmente, mas
a banda descartou essa hipótese
à partida. “Nós tínhamos uma
forma muito especial de fazer
música. O compositor apresentava
uma espécie de esqueleto, que no
fundo era uma melodia e pouco
mais, e depois estávamos todos os
dias a ensaiar e a construir aquilo
como se fosse um castelo de lego”,
recorda Faria. “Hoje, não temos
condições para fazer isso. Ou
seja, ia aparecer alguém com uma
composição, alguém fazia o arranjo
para os outros tocarem e, depois,
alguém ia produzir. O resultado
não ia ser relevante. Seria uma
coisa meio arraçada do que nós não
somos. E há outra coisa: nós não
ouvimos todos a mesma música...
na altura, ouvíamos. Estas músicas
são um ponto de encontro de todos
nós, mas uma música nova não
sei se seria. Sinceramente, nunca
pusemos isso em cima da mesa.”
%20Expresso%20+%20Ideias%20+%20Economia%20+%20E-138.jpg)
%20Expresso%20+%20Ideias%20+%20Economia%20+%20E-139.jpg)