Sair pela Porta Pequena?! «Com a recente polémica sobre Cristiano Ronaldo e a despedida festiva de Messi, a expressão “Sair pela porta pequena ou porta grande” surgiu como uma espécie de sentença sem recurso que leva os visados indelevelmente ao inferno ou ao céu.
Para ser sincero, nunca liguei a futebol, não percebo de futebol, e costumo dizer que se o Criador me quiser castigar pelos meus pecados (que são muitos) e me enviar para o Paraíso dos doentes do futebol, será o mesmo que me enviar para o inferno.
Mas como não consigo ver um telejornal ou um programa de televisão que não surja a questão futebolística de Cristiano Ronaldo, não tenho outra saída que não assistir ao espetáculo. Contudo, uma das coisas que me irrita profundamente, é a banalização da famigerada frase - sair pela Porta pequena, como se a expressão fosse uma espécie de “injeção letal” fulminante que mata por completo uma qualquer personalidade notável.
Efetivamente, para um cidadão normal, uma falha na sua carreira profissional pode ter implicações gravíssimas, irremediáveis e duradouras para si, para a sua família, e para a comunidade onde está inserido: “Olha ali o João, o tipo tinha um bom emprego mas exaltou-se com o patrão e agora a família passa dificuldades” ou “o mestre Rui era rico e respeitado, mas um deslize com uma amante virou-lhe o juízo e perdeu tudo!”; “Coitado, o Federico dormiu no seu turno e a fábrica pegou fogo, foi despedido”, isto é, uma pequena falha custou-lhes uma carreira de uma vida inteira, e isto sim, podemos dizer que é verdadeiramente sair pela - Porta pequena.
Agora, entre as grandes personalidades mundiais não existe essa coisa de sair pela Porta pequena ou Porta Grande, quando muito, podemos dizer que teve alguns percalços, algumas falhas graves, alguns erros condenáveis que lhes podem beliscar as carreiras e a sua reputação, mas a grandiosidade dos seus feitos é de tal ordem que abafam completamente todos os erros ou faltas, tornando essa tal “Porta pequena” numa espécie de nota de rodapé ou cancela de curral de ovelhas.
O nosso grande poeta Luis Vaz de Camões era um doidivanas boémio, sempre metido em rixas e desacatos, e acabou os seus dias na pior das misérias, hoje é o português mais ilustre; o todo-poderoso Marquês de Pombal, que aplicou os maiores tormentos aos Távoras, foi escorraçado da corte como um cão após a morte de D. José, tem a maior estátua na cidade de Lisboa; Napoleão Bonaparte que se auto intitulou de imperador, morreu gordo e doente numa ilha perdida do Atlântico Sul, é considerado o maior dos franceses; Winston Churchill, responsável pela morte de milhares de soldados ingleses em Galípoli, na I Guerra Mundial, e mais tarde, perdeu as eleições no seu país após ser um dos vencedores da II Guerra Mundial, é considerado um dos maiores estadistas de sempre; Ernest Hemingway tinha mau feitio, era rezingão e bebedolas, até cortou relações com o seu grande amigo John Dos Passos por ninharias, ganhou o prémio Nobel da Literatura; Gabriel García Márquez que se irritou com a violência política na Colômbia, chamando “País de mierda!”, e foi viver para o México, é um dos escritores mais acarinhados na Colômbia e no Mundo; José Saramago autoexilou-se nas Canárias em protesto contra a censura do governo português ao seu livro, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, presentemente é um dos escritores mais respeitados no nosso país; Diego Maradona teve uma vida dissoluta e conturbada com a dependência de drogas duras, é hoje uma espécie de Deus na Argentina; Zinédine Zidane, que disputava o último jogo da sua carreira profissional e deu uma valente cabeçada no peito dum jogador italiano, segundo a IA, tem uma carreira desportiva genial e ninguém se lembra da tal saída pela porta pequena - tal pormenor evaporou-se!
Concluindo, tantas portas pequenas à mão de semear e se perguntarem a um comum dos mortais se sabe que a maioria destas personalidades em fases das suas vidas andaram a sair e a entrar em “portas pequenas” penso que 99% dos mortais se esqueceram, não sabem, nem fazem a mais pequena ideia destas desgraças pessoais.
Por isso, D. Dolores Aveiro, o seu filho é de tal maneira famoso a nível planetário que para ele essa coisa vulgar e popularucha de sair pela Porta Pequena, é como uma pulga no pelo de um grande gato.»