Mário Castrim (1920—2002), pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, pertence ao restrito grupo de figuras da cultura portuguesa que conseguiram marcar profundamente áreas muito distintas da vida nacional. Professor, jornalista, crítico de televisão, escritor, militante político e autor de literatura para crianças, construiu uma obra singular que atravessou décadas de ditadura, censura e mudança social, deixando uma marca duradoura em sucessivas gerações de leitores.
Nasceu em Ílhavo, a 31 de julho de 1920, numa família ligada à região da ria e ao universo marítimo. O pai, José Nunes da Fonseca, foi comandante de navios de pesca do bacalhau, profissão pouco habitual numa família de proprietários rurais. A infância decorreu entre a realidade ilhavense e a proximidade do mar, embora viesse a ser interrompida por um acontecimento decisivo. Ainda criança, foi-lhe diagnosticada tuberculose óssea, doença que o obrigou a permanecer cerca de dez anos no Sanatório Marítimo do Outão. Aqueles anos de internamento, que poderiam ter significado apenas sofrimento e isolamento, transformaram-se, porém, num período de formação intelectual excecional.
Foi no Outão que nasceu o leitor apaixonado que o acompanharia para sempre. Cercado por livros, descobriu autores, correntes de pensamento e mundos inteiros que a doença não lhe podia retirar. Mais tarde recordaria a importância da leitura na sua formação. Foi também nesse período que começaram a consolidar-se duas das características que marcariam toda a sua vida: uma enorme curiosidade intelectual e uma profunda sensibilidade perante as injustiças humanas.
Concluídos os estudos, iniciou atividade profissional como professor do ensino técnico, lecionando disciplinas como Caligrafia e Dactilografia. Contudo, apesar de ter deixado as salas de aula alguns anos depois, nunca abandonaria a vocação pedagógica. Mudaram os meios, mudaram os públicos, mas não mudou o propósito. Quer escrevesse para crianças, para leitores de jornais ou para espectadores de televisão, manteve sempre a preocupação de ensinar, esclarecer e estimular o pensamento crítico.
Essa dimensão pedagógica tornou-se particularmente evidente quando, em 1957, passou a colaborar no «Diário de Lisboa Juvenil», suplemento que rapidamente se transformou numa verdadeira escola de escrita para milhares de jovens portugueses. Depois de assumir a sua coordenação, fez daquele espaço um raro território de liberdade intelectual numa época dominada pela censura. Ali surgiram muitos dos nomes que mais tarde marcariam a cultura portuguesa, entre escritores, jornalistas, cineastas, atores, investigadores e outras figuras públicas. Para muitos deles, Mário Castrim foi o primeiro leitor atento, o primeiro crítico exigente e o primeiro incentivador.
Entre os jovens que por ali passaram encontrava-se uma adolescente chamada Alice Vieira. Os primeiros textos que ela enviou ao jornal receberam respostas críticas mas encorajadoras. Anos mais tarde, seria a própria Alice Vieira a recordar que, ao subir as escadas do Diário de Lisboa para o encontrar pela primeira vez, pensou que aquele era o homem com quem queria partilhar a vida. A relação provocou escândalo numa sociedade ainda profundamente conservadora. Castrim era vinte e três anos mais velho e ainda se encontrava legalmente casado. A oposição de familiares e conhecidos foi intensa. Ainda assim, ambos construíram uma vida em comum que duraria décadas. Tiveram dois filhos e partilharam não apenas uma relação afetiva profunda, mas também uma cumplicidade intelectual rara.
O mar continuou a desempenhar um papel importante na vida de Castrim. Apesar de se ter afastado da sua terra natal e de manter uma relação distante com parte da família de origem, permaneceu ligado à Costa Nova, local onde o casal passava longos períodos e onde se encontravam muitos dos seus amigos. Mais tarde, a Ericeira ocuparia igualmente um lugar especial na vida familiar. Para Alice Vieira, aqueles anos junto ao mar ficaram associados ao «Verão da sua vida».
Em 1965, o Diário de Lisboa lançou-lhe um desafio que acabaria por transformá-lo numa figura única do jornalismo português. Passou a escrever diariamente sobre televisão. Nascia o célebre «Canal da Crítica» e, com ele, o primeiro crítico televisivo português.
Contudo, reduzir Castrim a simples crítico de televisão seria profundamente injusto.
O que realmente o distinguiu foi a forma como transformou a crítica televisiva numa observação permanente da sociedade portuguesa. A televisão era apenas o ponto de partida. Sob o pretexto de comentar concursos, séries, festivais da canção, programas infantis ou documentários, falava de pobreza, desigualdade social, censura, educação, cultura, guerra colonial e liberdade. Comentava a televisão, mas estava sempre a falar do país.
Essa opção tornava inevitável o conflito com a censura.
Durante os últimos anos do Estado Novo, praticamente todas as crónicas eram examinadas pelos censores. Os cortes eram permanentes e, por vezes, devastadores. Muitas frases desapareciam. Muitos textos surgiam truncados. No entanto, Castrim desenvolveu uma escrita capaz de contornar essas limitações. A ironia, o humor, a sátira e os jogos de linguagem transformaram-se em armas de resistência. As suas crónicas tornaram-se famosas pela capacidade de dizer sem dizer, de insinuar, sugerir e desafiar. Era uma escrita inteligente, corrosiva e frequentemente incómoda para o regime.
Essa atitude correspondia às suas convicções políticas. Militante comunista desde a juventude, participou na oposição ao Estado Novo e seria mais tarde reconhecido como um dos intelectuais ligados ao Partido Comunista Português. Foi vigiado pela PIDE durante anos e o seu nome aparece repetidamente na documentação da polícia política. Contudo, a militância nunca esgotou a sua personalidade.
Uma das características mais singulares de Mário Castrim era precisamente a coexistência entre o comunista convicto e o católico convicto.
Participou na Juventude Operária Católica, colaborou em publicações religiosas e manteve laços estreitos com os Missionários Combonianos. Para ele, não existia contradição. Via nos valores cristãos e na luta pela justiça social caminhos convergentes. Gostava de repetir que o comunista era alguém que tinha deixado de acreditar na eternidade para acreditar no futuro. Ao mesmo tempo, conservava uma relação profunda com a fé, a Bíblia e a espiritualidade cristã.
Paralelamente ao jornalismo, desenvolveu uma extensa obra literária. Embora tenha escrito poesia, teatro, ensaio e crónica, foi sobretudo na literatura para crianças e jovens que alcançou um lugar especial.
Obras como «Histórias com Juízo» (1969), «O Cavalo do Lenço Amarelo é Perigoso» (1971), «Estas São as Letras» (1977), «Colóquio» (1977), «Váril, o Herói» (1993), «O Caso da Rua Jau» (1994) e «A Moeda do Sol» (2006) revelam um autor de extraordinária imaginação, mestre no uso do humor, do absurdo e do nonsense. Escrevia para divertir, mas também para ajudar os leitores mais novos a pensar. A liberdade, a amizade, a solidariedade, a justiça e a resistência à opressão atravessam discretamente a sua produção literária.
Quem apenas conhecia as suas crónicas podia imaginá-lo como uma personalidade austera e implacável. Os testemunhos dos amigos revelam outra realidade. Repetidamente descrito como generoso, afável e solidário, cultivava amizades profundas nos mais variados quadrantes culturais e políticos. Muitos referem sobretudo a sua capacidade de ouvir, aconselhar e encorajar os outros.
Nos últimos anos continuou a escrever regularmente, colaborando em jornais e revistas, entre as quais o «Avante!» e a «Audácia». Mesmo quando a saúde se tornou mais frágil, manteve uma intensa atividade intelectual.
Poucos dias antes de morrer escreveu um poema que parece sintetizar toda a sua visão da vida. Não queria lágrimas nem solenidades. Pedia apenas que aqueles que o tinham conhecido o recordassem como quem guarda a memória de «um sonho bom».
Quando faleceu, em Lisboa, a 15 de outubro de 2002, desapareceu uma das vozes mais originais do jornalismo português do século XX. Contudo, a obra permaneceu. Permaneceram os livros, as crónicas, os poemas, os jovens escritores que ajudou a formar e os leitores que aprendeu a ensinar.
Professor sem nunca deixar de o ser, jornalista sem medo da censura, escritor para crianças, comunista, católico, homem do mar, da amizade e da palavra, Mário Castrim deixou uma herança rara: a convicção de que pensar, escrever e ensinar podem continuar a ser formas de liberdade.