Quanto mais leio, releio, comparo, escavo, e volto a descer àquela matéria compacta de medo, silêncio, humilhação e mando bruto que era o País e que a Madeira, por um instante, ousou desmentir, mais me convenço de que não estamos perante uma efeméride local para discursos de circunstância, retratos oficiais e solenidades mecânicas, dessas que se cumprem com a alma ausente e a gravata no sítio, mas perante um dos raríssimos momentos em que uma parcela mínima do território teve mais nervo moral, mais estatura histórica, mais sentido trágico da liberdade e, diga-se sem cerimónia, mais vergonha na cara do que o país inteiro. Já o escrevi várias vezes: não nos podemos esquecer, e continuo a pensar o mesmo, talvez com maior dureza e menos ilusões, porque da Madeira se ouviu então um grito de revolta contra a ditadura, pela democracia e pela liberdade. O 4 de Abril de 1931 será sempre, para quem não confunde ordem com decência nem paz com resignação, uma data maior da história de Portugal, porque durante cerca de um mês uma nesga da pátria foi maior do que a pátria toda, mais consciente do que o continente, mais livre do que Lisboa, mais digna do que a vasta massa dos obedientes. Contra tudo e contra todos tentou-se dizer basta, e, pela última vez, em quarenta e muitos anos, respirou-se liberdade no espaço nacional, liberdade breve, precária, quase ofegante, mas, precisamente por isso, mais verdadeira, mais cortante, mais memorável, porque há instantes que duram pouco e, no entanto, deixam um sulco tão fundo que expõem a miséria de tudo o que veio antes e depois. Talvez por isso as palavras do Capitão Carlos Vilhena me regressem com esta insistência de consciência má que a História costuma impor aos vivos, quando escreveu que se a Revolta da Madeira tivesse triunfado não teria havido Segunda Guerra Mundial, frase que os prudentes, os contabilistas do plausível, os funcionários da moderação e outros especialistas em pequenez acharão excessiva, mas que talvez seja excessiva apenas como são excessivas certas verdades quando entram numa sala ocupada por gente habituada a pensar em formato reduzido. Porque há derrotas que vêem mais longe do que vitórias de gabinete, e há fracassos esmagados pela força que conservam uma lucidez que o triunfo, tantas vezes, dissolve em vaidade, e a Revolta da Madeira, embora abatida pelas forças leais ao regime que nesse tempo começava a apertar sobre o País o seu mecanismo de asfixia, disciplina e medo administrado, foi exactamente isso, um clarão de lucidez no meio da submissão, uma irrupção de decência num país em processo acelerado de domesticação, um acto de coragem política, moral e até espiritual protagonizado por civis, militares e homens influentes da sociedade madeirense que, com meios escassos, em condições adversas, sem retaguarda segura, sem promessas de glória e sem a cómoda ilusão retrospectiva de que a História acabaria por lhes dar razão, arriscaram tudo por uma ideia elementar e por isso mesmo intolerável para qualquer ditadura, a de que a autonomia, a justiça, a dignidade cívica e a expressão democrática não eram ornamentos dispensáveis da vida colectiva, mas a própria medida da sua legitimidade. Muitos pagaram caro, com prisão, exílio, perseguição, repressão, marginalização e silêncio, e no entanto o seu legado não morreu, porque certas acções, quando nascem de um núcleo duro de coragem, recusam-se a desaparecer, persistem como acusação, como espelho, como desconforto, como exigência moral lançada às gerações seguintes, obrigando-nos a reconhecer, com algum embaraço e talvez alguma vergonha, a pobreza ética dos tempos que vieram depois. E é por isso que continua a ser incompreensível, ou talvez não seja incompreensível coisa nenhuma, talvez seja apenas a habitual mistura de ingratidão, amnésia selectiva, preguiça mental e gosto pelo aparato vazio, que a Autonomia ainda não tenha rendido a devida homenagem a nomes como César Nunes de Oliveira, Flávio Aires de Albuquerque, Ernesto Machado, Correia de Gouveia, Cristóvão Ascensão, Zeferino Conceição, Ernesto Aciaioly, Jaime Albuquerque Gonçalves, Gabriel Pereira, Gregório Pestana Júnior, Elmano Vieira e Feliciano Rodrigues, alguns dos heróis madeirenses dessa revolta, homens concretos, com corpo, risco, medo, convicção e consequência, não abstrações decorativas para brochuras oficiais, homens que lutaram pela liberdade e que por isso mesmo deviam merecer toda a nossa atenção e todo o nosso reconhecimento, porque um povo que não honra os que se levantaram por ele, que não sabe agradecer a quem arriscou a vida para lhe restituir a dignidade, é um povo que acaba sempre por se habituar a viver de joelhos, a envernizar a cobardia com prudência, a baptizar a resignação de realismo e a chamar estabilidade ao sossego dos domesticados. Tenho convicção antiga, persistente, quase teimosa, de que o Dia da Autonomia devia ser comemorado hoje, neste dia e não noutro, porque foi aqui, neste sobressalto de coragem, nesta ferida aberta contra a passividade, neste gesto insular de recusa perante a asfixia política e moral do continente, que a Madeira mostrou ao País e a si mesma o que significava querer mandar em si, querer responder por si, querer deixar de ser periferia obediente do medo alheio, e portanto não estava apenas a cumprir um ritual de calendário, estava a prestar contas com a História, com a sua densidade, com a sua tragédia e com a sua exigência, estava a reconhecer que a Madeira de hoje, com a sua memória curta, os seus reflexos de aparato, os seus tiques de encenação pública e a sua extraordinária facilidade em converter tudo o que é vivo em cerimónia inofensiva, deve ainda muito àqueles homens de 1931. Porque houve ali heroísmo verdadeiro, não o heroísmo de vitrina, não o heroísmo decorativo das efemérides, não o heroísmo confortável de quem posa para a fotografia depois que o risco já passou, mas o heroísmo áspero, humano, imperfeito, vulnerável e, por isso mesmo, maior, de quem enfrenta a força bruta em nome de uma ideia superior de comunidade, de liberdade, de dignidade e de futuro. E enquanto não lhes dermos o lugar que merecem na memória colectiva, na pedagogia pública e na homenagem institucional, continuará a haver qualquer coisa de amputado, de ingrato e até de obscenamente indigno na maneira como celebramos a nossa Autonomia, porque quem luta pela liberdade não pode ser remetido para a nota de rodapé, para a flor protocolar, para a frase de ocasião ou para a cerimónia distraída, tem de estar no centro da nossa lembrança, no centro da nossa gratidão, e no centro daquilo que ainda quisermos ser, se quisermos ser mais do que uma terra que fala muito de si, se comove com a sua própria imagem, mas continua a fazer demasiado pouco para merecer os seus mortos e para estar à altura, sequer de raspão, do momento em que alguns dos seus filhos ousaram ser livres antes do tempo e contra o tempo.