quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A grande camarada Renata aqui ao lado do camarada Garcia Pereira

 Internacionalista, Trotsky queria a continuação do processo revolucionário, no interior da Rússia e em toda parte do Mundo, até se aproximar do comunismo imaginado por Marx: um Mundo sem classes sociais e sem fronteiras nacionais. Ao contrário de Stalin que defendia o socialismo apenas num só país.


«A Renata Cambra, defende o modelo trotskista de organização de uma sociedade Socialista, que consiste na Democracia directa ou seja a defesa da democracia operária: Os trotskistas defendem a auto-organização da classe trabalhadora por meio de conselhos (sovietes) e a oposição à ditadura de uma burocracia estatal. Tal modelo foi experimentado na antiga União Soviética e na China de Mao Tsé Tung.
Apesar deste ideário ser bom, e bem teorizado não funcionou na prática levando estes países à estagnação económica e infelizmente teve de ser suspenso ou abandonado uma vez que o Homem ainda não atingiu a tal perfeição socialista e a consciência de classe e a evolução política necessárias para que isso funcione!»

O assassino amigo do Cavaco Silva vai se safar. A canalha do PPDê já preparou tudo para o ilibar

 O advogado que assassinou a sua cliente e nem sequer foi expulso pela Ordem dos Advogados


Este artigo de opinião de Alexandra Lucas Coelho no "Público" era impossivel ser publicado na imprensa dos "mamadeiras"

 Acampadas: a coisa mais bonita desde o 25 de Abril

  1. Segunda-feira à noite, sentada nas ondas do mar do Rossio, a olhar aquelas centenas de jovens também sentados, e as centenas de pé atrás deles, uns e outros a votarem de braço no ar, pensei há quanto tempo não reparava nas ondas do mar do Rossio. Porque há muito tempo que não me sentava nelas, e porque entre a Assembleia Popular e o microfone várias ondas brilhavam, descobertas. Eram a parte da calçada onde se podia passar, falar, cantar, dançar. Tudo isso aconteceu. Íamos a caminho das 23h de um dia de semana em que grande parte daquelas pessoas já tinha trabalhado ou tido aulas. E por um segundo, ali aos pés de D. Pedro IV de Portugal/I do Brasil, vi as ondas do calçadão carioca, que são cem Rossios no oceano. Mas agora o futuro estava ali também. O Rossio tinha voltado a nós. Como a praça de D. João I voltou ao Porto, o pioneiro destas acampadas. Há quanto tempo não me sentava na cidade onde nasci sem querer fugir? Sem sentir que não a reconheço, que nos foi tirada, expropriada dela mesma? Sem a toda a volta ouvir inglês, não o da língua franca, mas o de quem está em Lisboa ou no Porto como se os nativos fossem invisíveis. E serão até não serem. Mas a causa não são os turistas nem os expatriados. Tal como a causa das três cargas policiais que fizeram mais de cem feridos não são os polícias. À frente da alienação das nossas cidades estão presidentes de câmara, neste momento Carlos Moedas em Lisboa, Pedro Duarte no Porto. E por trás dos bastões, dos cães, dos infiltrados com armas de fogo, com petardos, está um governo cobarde chefiado por Luís Montenegro, a fazer-se fascista julgando que assim não é engolido pelos fascistas. Mais um Presidente da República, António José Seguro, que primeiro não abriu a boca, traindo milhões de votos úteis antifascistas, e depois quando falou foi tão remendado, remediado como um Portugal que a ditadura gerou. E onde estiveram nas últimas semanas 226 eleitos com os nossos votos? Porque dos 230 deputados que compõem a Assembleia da República só vi notícia de quatro a tentarem travar a última carga policial, Isabel Mendes Lopes, Jorge Pinto, Paulo Muacho e Fabien Figueiredo (que na carga anterior tentara mediar sozinho e desta vez foi acompanhado pela ex-deputada Joana Mortágua). Descontando os deputados que insultam a democracia, sobram muitas dezenas ainda. Já estiveram nas acampadas? Observaram estas centenas, por vezes milhares de pessoas em assembleias populares a interpelarem, contraporem, votarem  propostas, dia a dia articuladas por núcleos tão ágeis na palavra como no vídeo, tanto nas redes como ao vivo? Eles organizam grupos de trabalho, rodam lugares de representação, asseguram que homens brancos cis não prevalecem, aliam-se a gente ameaçada de despejo nas periferias, fazem a sopa de graça para quem vier, animam as crianças que podem ser bastantes, cantam e dançam a decisão do tribunal anunciada na segunda-feira, têm graça, pinta, carisma. E todos os dias — todos os dias — enchem a praça de música, começando pela Primavera dos Coros. Segunda-feira, antes das 19h, éramos um círculo em coro, e no meio a maestrina Inês Proença (27 anos, do Coro Regador), tamanho de menina com não sei quantos braços, para a esquerda para a direita, a toda a roda, montando um cânone de gente que nunca se tinha visto, telemóvel com as letras manuscritas, canções populares, canções de luta, do Rossio ao Barroso. Um coro: que força. Mais pena tenho de não ter estado na véspera, apenas partilhado o vídeo de quando Tomás Frazer (31 anos) dirigiu uma orquestra de 300 intérpretes organizados por WhatsApp em canções como Traz outro amigo também, de Zeca Afonso, com arranjos feitos agora por Francisco Máximo (23 anos). Na mesma calçada onde de madrugada a polícia voltara a espancar pessoas pacíÆcas, já com capacetes para se protegerem, já com mães/pais a tentarem proteger os filhos (como já acontecia nas periferias, tem lembrado Brito Guterres). Nestas três semanas, toda a violência foi do Estado português. E o tribunal veio dizer que a ilegalidade também. Violência e ilegalidade de um governo que até hoje não conseguiu arrancar violência aos acampados. 2. A destruição da Palestina estará no historial de Moedas e Montenegro. Em 2024, no pico do genocídio (e contra a vontade de trabalhadores da câmara), Moedas cedeu o Cinema São Jorge para Israel celebrar o seu 76.º aniversário. Os diplomatas do extermínio & seus convidados vieram de copo na mão à varanda zombar dos lisboetas que protestavam lá em baixo. Um cinema da cidade ocupado por Israel, pregado na lapela do embaixador, em recompensa. No Porto, entretanto, os novos israelo-portugueses compravam bairros inteiros. E Montenegro acabava de se tornar primeiro-ministro de um novo governo facilitador do genocídio. Neste país onde, em Outubro de 2026, pivôs de TV mencionam símbolos da Palestina como potencial argumento para a carga da polícia, até uma Helena Roseta se insurgir. Mas o Rossio agora é também essa praça que em qualquer direcção tem lenços da Palestina misturados com cravos vermelhos. Nunca esteve tão perto do 25 de Abril. O ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Ed Milliband, disse há semanas: vocês tinham razão. Dirigia-se a quem há muito se opõe ao genocídio na Palestina. Em parte por convicção, em parte para conquistar votos muçulmanos (remeto para a leitura do veterano Tariq Ali). Mas mesmo esta fasquia, nem por isso alta, é difícil de imaginar entre responsáveis portugueses. Para começo de conversa, faltam essas palavras: vocês tinham razão. Os palestinianos tinham razão. Os aliados deles tinham razão. Tal como a acampada tinha razão antes da decisão do tribunal. Uma das decisões de segunda-feira no Rossio foi não sair do Rossio para o mercado de Natal de Moedas. Que Moedas o monte noutro lugar. Qualquer cristão a sério saberá que mercado e Natal são duas palavras incompatíveis. A praça do Rossio não é um mercado, será “do povo como o céu é do condor”, algo escrito há 150 anos pelo poeta brasileiro Castro Alves. Hoje, no tempo do extermínio em directo, acabamos de ter a vitória de Lula, conquistada por milhões que foram à luta, voto a voto. Coincide com a acampada, que se define também por isto: uma das suas vozes ser a imigrante brasileira Priscila Valadão. Ouvir o sotaque dela no Rossio, aos pés daquela estátua, atava a história. E o momento em que as centenas de pessoas sentadas se levantaram para aplaudir foi quando falou uma jovem afrodescendente. Eu tinha 6 anos no 25 de Abril. Ter 58 agora serve para saber que desde então nada foi tão bonito em Portugal como estas acampadas, organizadas por quem podia ser meu filho. São eles que estão a dormir lá, a apanhar da polícia, não eu, que só de vez em quando vou a Lisboa. E calha que tenho levado na sacola, porque estou a lê-lo, Caminhos da Insubmissão, de Jorge Valadas, um português com idade para ser meu pai, desertor da guerra colonial, depois exilado em Paris. Esta segunda-feira, sentada na cidade de onde saí há nove anos, capital do país de onde sempre quis sair, a acampada era uma espécie de fim de exílio. Como disse uma das “acampadas”, já nem nos lembrávamos dos turistas.

Isto está a ficar perigoso

 


 «É bom que não esqueçamos que a liberdade demorou 48 anos a conquistar e que, por vezes, ela é posta em causa de uma forma subtil por parte de quem governa. A polícia age de uma forma absolutamente desnecessária e desproporcionada, sendo somente apoiada por quem, como alguns apoiantes do PSD, do CDS e a quase totalidade do Chega, tem saudades imensas da ditadura de Salazar ou de Marcello Caetano. Mais do que nunca é necessário honrar homens como Salgueiro Maia, que tudo fizeram para que Portugal se transformasse num país totalmente livre e democrático. Como cantava Adriano Correia de Oliveira, “... Coração que nasceu livre / Não se pode acorrentar"»

Manuel M. Gomes, 

Os pobres de direita atacam o trabalho da grande Renata Cambra

 

E a ironia torna-se ainda maior quando vemos quem participa nestes ataques.
O trabalhador que ganha mil euros, conduz um Fiat Punto com vinte anos, vive de salário em salário e está a um aumento de renda de ficar sem casa aparece, orgulhosamente, a defender os interesses de quem tem dez Lamborghinis.
E ainda se considera um rebelde contra as elites!
É o explorado a fazer de guarda-costas do privilegiado, enquanto ataca quem questiona os privilégios.
Não significa que todas as pessoas com dificuldades económicas pensem assim.
Felizmente, a maioria das pessoas não precisa de ser rica para ter dignidade, nem de ser pobre para ter consciência social.
E é precisamente aqui que quero chegar.
Eu posso não concordar com tudo o que Renata Cambra defende.
Posso até discordar profundamente do destino final que imagina para a sociedade.
Mas uma coisa é a direção.
Outra, muito diferente, é o destino.
Se passarmos a vida a discutir qual deve ser o destino final, talvez nunca saiamos do mesmo lugar.
Mas se concordarmos que devemos caminhar para uma sociedade com menos desigualdade, melhores salários, habitação acessível, mais oportunidades e maior dignidade para quem trabalha, então já temos uma direção comum.
E não tenho qualquer problema em acompanhar alguém nesse caminho, mesmo sabendo que, mais à frente, poderemos discordar sobre onde parar ou que estrada seguir.
Porque a política também deveria ser a capacidade de reconhecer aquilo que nos une, sem exigir que todos pensemos exatamente da mesma maneira.
Não precisamos de concordar sobre o destino para caminharmos juntos na direção certa.
E muito menos precisamos de nos ajoelhar perante quem nos quer impedir de caminhar.
O problema não é alguém nascer com privilégios e querer uma sociedade mais justa.
O problema é haver quem esteja no fundo da escada e passe a vida a dar pontapés em quem lhe tenta estender a mão, enquanto segura a escada para quem está no topo.
E talvez seja essa a maior vitória de qualquer máquina de propaganda... convencer pessoas de que estão a lutar pela própria liberdade quando, na realidade, estão apenas a defender os interesses de outros.
Não é preciso concordar com Renata Cambra para perceber a diferença entre discutir ideias e participar numa matilha.

É preciso apenas ter a independência de pensamento necessária para não confundir uma coisa com a outra.
(Eduardo Silva)

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Toma lá e embrulha!

 




Quem é Tomás Frazer, o "maestro" que dirigiu a música da Acampada: “Não estava ali para liderar as massas”

 


Tomás Frazer juntou-se a uma orquestra sem ensaios ou maestro formal e encontrou na Acampada do Rossio uma resposta ao fatalismo da sua geração: “A música deu-me esperança.”

“Vejam bem / que não há só gaivotas em terra”, ecoa o coro no Rossio. À frente de dezenas de músicos, Tomás Frazer levanta os braços e procura impedir que as vozes, as cordas e os sopros se desencontrem. A canção de José Afonso serve a banda sonora do protesto pela habitação, mas aquilo que se forma no centro da praça conta também outra história: a de uma orquestra que apareceu sem audições, hierarquia, sala de ensaios e estrutura rígida, criada pela violinista Maria João Matos, José Conde, Leonor Palha, Carlota Ferreira e Catarina Valadas, todos músicos.

No domingo, 1 de novembro, poucas horas depois de uma intervenção policial no Rossio, milhares de pessoas regressaram à praça. Terminada a assembleia popular, parte da multidão permaneceu para ouvir a Orquestra da Acampada, acompanhada pela Primavera de Coros. O concerto começou por volta das 19h30 e terminou com Grândola, Vila Morena. Depois, as palavras de ordem regressaram e Bella Ciao continuou a ouvir-se entre os manifestantes.

Frazer, de 32 anos, músico, maestro e compositor luso-britânico que dirige informalmente a Orquestra Académica Portuguesa (OAP), não esteve no começo da orquestra. “Genuinamente, a organização não passou tanto por mim. Juntei-me a meio e acabei por dirigir”, explica. Alguns músicos começaram por contactar a Acampada de Lisboa; seguiram-se chamadas nas redes sociais e as pessoas foram aparecendo. Umas escreveram arranjos, outras escolheram as peças ou carregaram cadeiras. “Foi uma coisa profundamente orgânica. Eu vim, quis ajudar e juntei-me ao grupo.”

Não houve um primeiro ensaio porque não houve ensaio algum. Acertaram-se o dia e a hora com a organização da acampada; o repertório foi ganhando forma através do consenso possível. Depois, “foi chegar e tocar”. A instabilidade fazia parte do dispositivo; músicos que não se conheciam, níveis de experiência diferentes e uma praça aberta, na qual o público também podia transformar-se em coro.


Por isso, Frazer resiste quando lhe atribuem a propriedade musical do projeto. “Eu não sou o maestro da orquestra”, corrige. Voluntariou-se porque tinha experiência, confiança para dirigir e uma ligação à  – movimento que utiliza o canto coletivo e a música de intervenção no espaço público como forma pacífica de protesto, celebração e resistência comunitária.

A sua função não era impor uma leitura, mas manter o conjunto unido. “Um bom maestro tem de refletir, acima de tudo, a vontade e as necessidades do grupo. Não estava ali a liderar as massas. Agitei os braços para que não nos perdêssemos e pudéssemos cantar mais alto e com mais confiança.”

Formado como barítono clássico, Frazer fundou este ano a , uma formação profissional de música de câmara. Trabalha tanto com profissionais como com amadores e procura frequentemente associar os concertos a causas concretas — meses antes, organizara uma atuação de apoio aos bombeiros voluntários de Samora Correia. “Vivo a música a acreditar que que ela tem sempre um propósito.”

 A orquestra reuniu pessoas que nem sempre tinham participado nas noites da acampada, mas também músicos atingidos diretamente pelo que acontecera na praça. Frazer recorda Catarina, uma flautista que, segundo conta, foi atingida na nuca durante uma das intervenções policiais. "Apareceu para tocar com uma almofada de pescoço, daquelas usadas em viagens de avião, para conseguir segurar a flauta de pé", partilha. “Havia pessoas no meio que levaram pancada. Eu não. Só estive nos protestos diurnos.” (Sábado)