sexta-feira, 6 de março de 2026

A grande entrevista de Edmundo Pedro

 

Edmundo Pedro: entrevista




Edmundo Pedro é um homem de acção, daqueles que andam aos tiros. Com 15 anos de idade viu-se dentro de uma prisão, acusado de actividades conspirativas no 18 de Janeiro de 1934. Passado um ano, já em liberdade, foi eleito para a direcção das juventudes comunistas e organizou movimentos de agitação e propaganda nas Escolas Industriais.
Subversivo reincidente. Perigoso! Em 1936, Edmundo Pedro foi preso pela segunda vez, mas agora para inaugurar o Tarrafal, juntamente com o pai e outros dirigentes do PCP. Tinha 17 anos quando desembarcou em Cabo Verde. Tentou fugir várias vezes. Numa delas, quase conseguia, foi por pouco. Ainda conseguiu roubar um barco de pescadores, mas apanharam-no. Por causa disso, esteve 70 dias seguidos na terrível “frigideira”. Como se não bastasse, o PCP castigou-o com dois anos de suspensão: a fuga não tinha sido autorizada, ninguém podia fugir sem antes informar ao Partido. Bateu com a porta. Não estava para isso. Nunca mais quis voltar. “Fui educado lá dentro, sei como é”.
Na família eram quase todos revolucionários, a mãe, o pai, os irmãos. Edmundo Pedro nasceu a 8 de Novembro de 1918, no Samouco (Alcochete), fruto do amor entre um varino e uma jovem camponesa. Mas Margarida e Gabriel Pedro moviam-se nos meios altamente perigosos do anarco-sindicalismo, andavam de agitação em agitação. O melhor a fazer era deixar o pequeno Edmundo aos cuidados da tia paterna, a única que era conservadora na família. A tia queria que ele fosse engenheiro naval, mas Edmundo escolheu ser como os pais, um revolucionário. Fugiu de casa da tia aos 13 anos, idade com que aderiu ao PCP e iniciou a sua actividade anti-fascista.
Edmundo Pedro só saiu do Tarrafal com o fim da II Grande Guerra, na amnistia de 1945. Regressou com 27 anos, alguns cabelos brancos e uma tuberculose. Tornou-se correspondente comercial, tinha estudado línguas na prisão, inglês, francês, alemão… Mas a luta anti-fascista estava-lhe no sangue. Em 1959 alinhou no 12 de Março e na noite de passagem de ano de 31 de Dezembro de 1961 andou aos tiros no quartel de Beja. O golpe não resultou e fugiu para o Algarve. Foi apanhado em Tavira e condenado a três anos e oito meses de prisão. Antes do 25 de Abril ainda voltou à prisão, acusado de contrabando. Nada ficou provado.
Aderiu ao PS em 1974 e durante o chamado “Verão Quente” envolveu-se, com Manuel Alegre, nos contactos com os operacionais do 25 de Novembro. Foi a ele, em nome do PS, que o general Ramalho Eanes mandou entregar um lote de armas para defender as sedes do partido que estavam a ser alvo dos ataques da esquerda radical. A história não terminaria aí. Em Janeiro de 1978, então presidente da RTP, Edmundo Pedro voltou a ser preso. Durante semanas, a sua fotografia fez manchete nos jornais. Porquê? Um ano antes, o Exército tinha pedido ao PS para devolver as armas distribuídas no Verão de 75. Edmundo Pedro tentou reunir as armas, dispersas por algumas sedes nacionais do partido. Guardou-as no armazém de uma antiga firma onde trabalhara. Alguém contou à polícia. “Fui apanhado numa ratoeira”. Tinha muito que explicar à Judiciária. Mas não disse nada. Não falou em nomes. Ficou seis meses preso, até ser absolvido. Desse episódio guarda muitas mágoas, “o mal que me fizeram não tem remédio”.
Com 86 anos, Edmundo Pedro vai publicar as suas memórias. “Estou a sentir o meu horizonte temporal a encurtar-se”.

 
JPG – A primeira vez que entrou numa prisão tinha 15 anos. O que é que se passou?
Edmundo Pedro – Fui preso por estar envolvido na tentativa de greve geral revolucionária de 18 de Janeiro de 1934. É um acontecimento conhecido na crónica da luta anti-fascista, nomeadamente no movimento operário e anarco-sindicalista. Pretendia ser uma greve contra a fascização dos sindicatos, levada a cabo pela antiga CGT de influência anarquista, pela intersindical de influência comunista e pelos sindicatos autónomos que representavam alguns sindicatos de influência ainda socialista. Eles juntaram-se todos e tentaram desencadear uma greve geral.

JPG – Qual é que era o seu papel no movimento?
EP – A direcção do PCP encarregou-me de ser o elemento de ligação com o quartel instalado dentro do Castelo de S. Jorge, Caçadores 7. Tinha que fazer uma série de contactos e na tarde de 17 de Janeiro fui a Caçadores 7 com a intenção de dizer que o movimento revolucionário começaria naquela noite. Eu devia actuar na zona do Poço do Bispo, estava encarregado de cortar as linhas férreas e derrubar os cabos de alta tensão. Mas alguém denunciou o militar a quem era suposto passar a palavra, o Sargento Alfredo. Quando pedi para falar com ele fiquei logo preso. Mantive a versão que tinha combinado com os militares caso fôssemos descobertos, era o chamado “minuto conspirativo”. Libertaram-me, mas passados alguns dias. Torturados, alguns militares envolvidos revelaram tudo. Foram-me buscar outra vez.

JPG – Ficou preso quanto tempo?
EP – Fui condenado num tribunal militar especial a um ano de prisão e perda dos direitos políticos. Tinha 15 anos, o que face à Constituição que o Salazar elaborou em 1933 era ilegal. Isto chega para medir como é que aqueles coronéis de merda julgavam os presos políticos. Eu nunca podia ser julgado antes dos 16 anos no mínimo. Fui julgado aos 15 anos e mesmo que fosse julgado aos 16 não me podiam condenar à perda de direitos políticos. Face à Constituição do Salazar, só aos 21 anos é que se tinha direitos políticos, ainda que fosse apenas em termos formais. Agora é aos 18. Eles tiraram-me aquilo que ainda não me tinham dado. Um absurdo.

JPG – Quando saiu continuou as actividades conspirativas?
EP – Sim, fui eleito para a direcção da Juventude Comunista com o Álvaro Cunhal. Repare que eu pertencia a uma família de comunistas. O meu pai, Gabriel Pedro, e a minha mãe, eram comunistas, eram funcionários do PCP. A praça principal de Almada, a praça do tribunal, tem o nome dele. Morreu comunista, emigrado em Paris. Foi um dos fundadores da ARA, Acção Revolucionária Armada, o braço militar do PCP. Durou muito pouco tempo. Antes de morrer ainda veio por uma bomba no Cunene, o primeiro barco que foi sabotado contra a guerra colonial… Veio sozinho de Paris até Lisboa e voltou a Paris atravessando os Pirinéus… E tinha mais de setenta anos nessa altura! A minha mãe também pertencia ao partido… Chegámos a encontrar-nos, eu, o meu pai e a minha mãe no Governo Civil, os três presos. A minha mãe foi presa na fronteira. Tinha ido a Espanha ao serviço do PCP. No regresso foi detida por posse de documentação subversiva. Quando foi do 18 de Janeiro, ela já estava presa, nas Mónicas, há uns meses. Mas foi chamada à polícia, ao edifício ao lado do S. Carlos (era aí a Polícia de Informações, anterior à PIDE), para uma acareação qualquer. Como andavam cheios de trabalho, meteram-na no Governo Civil. Ora eu sou preso no dia 17 de Janeiro… apanhei uma cacetadas e puseram-me ali porque as esquadras estavam cheias. Fui lá encontrar a minha mãe. Ao fim de 17 dias libertaram-me. Estive apenas 8 dias em liberdade. Quando voltei ela ainda lá estava. Os tipos disseram-me: “qualquer dia está cá o teu pai”. Passado um mês e tal estava lá o meu pai. Foi lá parar também. Mas estávamos detidos por processos diferentes.

À esquerda, Margarida, a mãe de Edmundo Pedro

 

Na fila de cima, no meio, Gabriel Pedro.

JPG – E os seus irmãos?
EP – Era tudo comunista. A minha irmã morreu em Paris na emigração. Participou no Maio de 68. O meu irmão, João Tavares Pedro, era jovem comunista e foi assassinado numa manifestação organizada por mim, num daqueles comícios relâmpago que a JC fazia nos anos de 1930. Foi durante uma semana de agitação e propaganda, a tal agit-prop, organizada pelo partido e, nesse quadro, deram-nos instruções para fazer também uma série de manifestações. Eu organizei várias nas escolas industriais e comerciais. O meu irmão era aluno da Escola Fonseca Benevides, onde fizemos um comício. Como ele era aluno, disse-lhe para não se misturar, para não dar vivas, manter-se à parte. Aquilo metia sempre tiros… eu tinha um guarda-costas que puxou da pistola quando o contínuo que estava de serviço ao átrio da escola tentou tocar a sineta para não se ouvir o que eu dizia. Havia um certo aventureirismo… O meu irmão manteve-se à parte. Aquilo era feito muito rapidamente: desfraldava-se a bandeira vermelha e distribuíam-se uns panfletos. O esquema era sempre o mesmo, para dizer que existíamos, que estávamos vivos, que tínhamos uma missão a cumprir. Acabámos aquilo, saímos a correr. O meu irmão ficou à porta. Logo depois veio a Polícia de Informações, os tipos do 28 de Maio, que começaram a agredir alguns rapazes. O meu irmão quis ajudar um amigo e disse qualquer coisa desagradável para os tipos. Rebentáram-no aos pontapés. Foi dali para o hospital S. José e morreu 15 dias depois.

 


Aos 13 anos, com os aprendizes do Arsenal de Marinha. Na fila de cima, o segundo a contar da direita.

JPG – Conheceu então o PCP no início da sua implantação na sociedade portuguesa…
EP – Eu fui educado dentro da JC, fui criado dentro do PCP, convivi com os principais dirigentes, eram todos meus amigos. O Bento Gonçalves, o primeiro Secretário-Geral, foi meu companheiro de trabalho no Arsenal da Marinha, quando ainda era em Lisboa, naquele espaço que vai do Terreiro do Paço ao Cais-do-Sodré. Eu era aprendiz no Arsenal e estava a estudar na Escola Industrial Machado de Castro. Estava no 5º ano, o último, quando fui preso. Não terminei o curso. A oficina de máquinas, a que eu pertenci, ocupava todo aquele espaço que é hoje um parque de estacionamento, ao longo da Rua do Arsenal. Sou capaz de localizar o sítio onde estava o torno do Bento Gonçalves… era perto da actual empena que está no topo do parque, que é do Ministério da Marinha. Até sugeri ao António Abreu do PCP a ideia de porem lá um memorial, um pequeno memorial a dizer “aqui trabalhou Bento Gonçalves”. Era um tipo extraordinário, não tem nada que ver com os comunistas actuais. Continua a ser uma grande referência da minha vida.

 


Francisco Paula de Oliveira (Pável)

JPG – Também conheceu o Francisco Paula de Oliveira, mais conhecido por Pável?
EP – Foi operário comigo nas oficinas do Arsenal de Marinha, que era uma oficina de elite. Todos os operários eram obrigados a frequentar a Escola Industrial. Em nenhum outro estabelecimento fabril era assim. Havia todo um conjunto de pessoas de grande craveira intelectual. Lembro-me do Alfredo “Pasteleiro”, conheci-o quando era aprendiz numa oficina metalúrgica situada na rua do Salitre. Foi ele quem me deu a ler os primeiros manifestos comunistas. O Francisco Paula de Oliveira, que foi Secretário-Geral do PCP e Secretário-Geral da Juventude Comunista, tomou o pseudónimo de Pável, o nome de uma personagem de um romance do Máximo Gorki, A Mãe. Era conhecido pelos amigos como o “Viagens à Lua”. Era a alcunha que lhe davam no Arsenal, porque era um tipo que se interessava por ficção científica, viagens à lua, etc. Esteve preso no Aljube mas fugiu. Foi para Paris e fugiu depois para o México, onde se radicou com o passaporte de um combatente da Guerra Civil que tinha morrido, António Rodriguez. Tornou-se escritor e um grande crítico de arte. Foi uma grande figura da cultura mexicana. O México fez-lhe uma homenagem nacional pela contribuição que ele deu à cultura mexicana. Não é qualquer um. É um caso que dava um romance fabuloso. Depois do 25 de Abril, o Mário Soares convidou-o a vir cá. Tenho fotografias dessa visita.

 


Edmundo Pedro com 16 anos, à esquerda, com Carlos de Sevela, jovem comunista de Silves (1934).

JPG – Passados dois anos sobre o 18 de Janeiro foi novamente preso, foi inaugurar o Tarrafal…
EP – Quando saí da prisão, tinha 16 anos, fui eleito para a direcção da JC juntamente com o Cunhal, que tinha na altura 21. Fui o dirigente mais novo desde sempre. Voltei a ser preso por essa razão. Era um reincidente.

 


Na Fortaleza de Peniche, antes de ir para o Tarrafal

JPG – E o Tarrafal?
EP – Fui enviado para o Tarrafal sem qualquer julgamento. Entrei para lá com 17 anos, em Outubro de 1936, e saí com 27 anos, em 1945, com a amnistia do fim da guerra. Era o preso mais novo do Tarrafal. Deixei a minha juventude toda no Tarrafal. Fui com o meu pai no mesmo barco. Ele estava em Angra do Heroísmo, eu em Peniche. Foi uma leva daqui juntamente com aqueles marinheiros da Revolta da Armada de 8 de Setembro de 1936. Passámos nos Açores e depois seguimos para Cabo Verde.

 


JPG – Como passava o tempo na prisão?
EP – Para além de partir pedra, como em qualquer regime prisional, continuei a estudar. Estudei cálculo integral, electrónica, radiotécnia. Aprendi sozinho e ajudado principalmente pelo Bento Gonçalves. Costumava sentar-me junto à cama do Bento Gonçalves, a aprender marxismo e álgebra. O Bento Gonçalves morreu no Tarrafal, com uma biliosa anúrica. Também estava lá o Alberto Araújo, filólogo, deu-me aulas de português. Saiu de lá tuberculoso. E depois aprendi também línguas, francês, inglês, alemão… aprendi toda a gramática alemã na prisão. Mas não era fácil. Custou-me muito sacrifício, porque era tudo feito fora das horas de trabalho.

JPG – Tentou fugir?
EP – Tomei parte em duas fugas, uma colectiva, organizada pelo PCP, outra à margem do Partido. O PCP reservava-se o direito de escolher quem é que devia fugir. Como membro do partido, submetia-a à sua disciplina. Eu estava de acordo com esse princípio, porque achava que quem devia tentar fugir eram aqueles que faziam mais falta cá fora, os quadros mais importantes, mais experientes. A certa altura convenci-me que eles não fugiam nem deixavam fugir. Que a disciplina do partido era mais impeditiva da fuga que os guardas, o arame farpado, a vala, o talude, os sentinelas. Porque é que haveria de aceitar uma disciplina que era totalmente inoperante? Então pensei que a única maneira era calar-me, organizar uma fuga sem dizer nada. Juntámo-nos cinco, eu, o meu pai e mais três companheiros. Foi em 1943.

JPG – E dessa vez conseguiu finalmente escapar?
EP – Não. Não conseguímos fugir por um azar do caneco. Em pleno dia, sem ninguém dar por isso, 5 pessoas saíram do Tarrafal. Lá dentro, eu trabalhava numa oficina de electricidade e nesse dia estava encarregue de levar uma bateria à central de electricidade. O meu pai não tinha pretexto para sair, mas escondeu-se atrás de uns bidons grandes de água que estavam a ser descarregados. Os outros três estavam destacados para ir buscar lenha. Tínhamos à nossa frente 4 horas para chegar a um barco de cabotagem que passava de 15 em 15 dias. Tomávamos conta do barco e fugíamos. E só não aconteceu porque dois dos nossos fizeram tudo ao contrário. Passaram junto dos “rachados”, dos bufos do campo, porque havia lá a situação dos presos que se mantinham com dignidade, que não abdicavam de nada, e os chamados rachados, que tinham liberdade de sair, iam para as hortas, encontravam-se com as cabo-verdianas… E um desses gajos viu-os passar e denunciou-os. Nós já estávamos longe, eu, o meu pai e outro, estávamos numa serra à espera deles. Se eles tivessem feito como nós, que era dar a volta ao campo e tirar a farda, não eram vistos. Quiseram facilitar, passar junto das hortas, onde estavam os bufos. Estragaram tudo.

JPG – E vocês os três?
EP – Fomos apanhados nesse dia à tarde. Percebemos que havia um problema com os outros e fugimos. Apanhámos um barco pequeno para ver se chegávamos ao outro barco de cabotagem. Os pescadores a quem nós roubámos o barco correram a denunciar-nos e deram com os guardas que iam a correr atrás dos outros. Pensaram: “aqueles que vão no barco são mais perigosos”. Correram a direito até à praia, deixaram os outros. Isso permitiu que eles se internassem na ilha. Quando os guardas chegaram à praia, nós já íamos com uma certa distância. Apanharam outro barco, foram atrás de nós, viram onde é que tínhamos saído e, ao fim da tarde, quando já estávamos convencidos que nos tínhamos conseguido safar, foram descobrir-nos numa gruta.


Edmundo Pedro de visita ao Tarrafal, onde encontrou alguns angolanos que também lá tinham estado presos mas em alturas diferentes. Aqui, à porta da Frigideira.
JPG – O que é que vos fizeram?
EP – Fomos levados ao director do campo, um tipo terrível. Era conhecido como o “Abóbora”. Um dos que foi visto pelos bufos, o Nascimento Gomes, do Porto, morreu em consequência dos espancamentos. Rebentaram-lhe com os rins… Foi a coisa mais brutal que se fez no Tarrafal. Eu, o meu pai e os outros dois fomos parar à tal frigideira, a cela punitiva. Fecharam-nos ali durante 70 dias seguidos. Batemos o recorde. O castigo era de 60 dias, mas só nos começaram a contar o tempo a partir do momento da prisão do último fugitivo, que era o Rato. Como só foi apanhado ao fim de dez dias, nós cumprimos 70 dias de frigideira.

JPG – Como era a frigideira?
EP – Era uma cela em cimento armado, um cubo com uma porta em ferro, uma frestazinha em cima, o tecto em cimento e não tinha telhado. Era um forno autêntico, num clima tropical… era sufocante… havia dias em que a temperatura se devia aproximar dos 45 graus… passávamos os dias a suar, tínhamos de andar todos nús. À noite aquilo condensava e caía em cima de nós, parecia um chuveiro… Estivemos 3 dias sem beber água. Foi por intervenção do Cândido de Oliveira que nos levaram água. O Cândido também lá estava, mas tinha uma situação especial. Tinha sido preso no processo dos ingleses, ele e vários oficiais… Primeiro estiveram connosco, mas veio um telegrama do Salazar, ou da polícia, não queriam arranjar problemas com os ingleses, e puseram-nos numas barracas fora do campo. Mas arranjávamos maneira de nos correspondermos. O Cândido acompanhou esta tragédia toda… No livro dele sobre o Tarrafal dedicou um capítulo à nossa fuga, mas como ele morreu antes do 25 de Abril, o sobrinho, que era do PCP, cortou esse capítulo… Esse capítulo foi-nos lido, a mim e ao meu pai… até chegámos a fazer rectificações. O Cândido de Oliveira era muito meu amigo, gostava muito dele, foi meu sócio num viveiro em Corroios, eu, ele e o meu pai. O meu pai saiu do Tarrafal com a saúde arruinada, foi um dos mais perseguidos, no total esteve perto de 150 dias no forno. Tentou matar-se lá, abriu as veias…

 

Visita ao Tarrafal com os antigos Primeiro-Ministros de Portugal (António Guterres) e de Cabo Verde (Carlos Veiga). À direita de Guterres, Sérgio de Matos Vilarigues

JPG – Já voltou a Cabo Verde, ao Tarrafal?
EP – Umas 4 ou 5 vezes. Gosto de visitar aquilo, lembrar-me.

 


Depois de sair do Tarrafal.

JPG – E o PCP, como é que reagiu à vossa fuga não autorizada?
EP – Quando saí do Tarrafal não voltei ao PCP. Fui castigado a 2 anos de suspensão e não quis voltar. Fui elogiado pela coragem demonstrada frente ao inimigo e castigado por desobedecer às directrizes partidárias. O meu pai saiu do PCP quando ainda estava no Tarrafal, por causa do Pacto Germano-Soviético. Por isso não foi castigado. Mas quando saiu do Tarrafal, o Cunhal meteu-o logo no partido. Foi um trauma do caneco sair do PCP, porque a minha vida estava ligada ao partido. Um tipo que é educado dentro do partido e sai é como perder uma perna ou um braço. Fiquei com um grande desgosto por me terem tratado como trataram. Eu tinha-me dado completamente, desde miúdo, desde os 13 anos, tinha 24 quando isto aconteceu, estava no partido há 11 anos. Depois passou-me. A minha saída permitiu-me ver coisas que se calhar não tinha visto se não saísse. O PCP distorce sempre as histórias, todas as situações, sistematicamente, como é sabido… Passaram na RTP um documentário sobre o Tarrafal feito por dois militantes do PCP. Dizem uma série de mentiras, uma abordagem meramente política, do herói, que eles é que faziam e aconteciam, que eram os mais eficazes… Tenho muito a dizer sobre o PCP, até em relação ao Cunhal, à sua ascensão ao cargo de Secretário-Geral. Como é que um intelectual ascendeu tão rapidamente num partido operário. Porque naquele tempo havia um grande preconceito em relação aos intelectuais. O Bento Gonçalves era operário, o Pável era operário. Havia aquela ideia de que o comunismo era essencialmente um movimento operário, da classe operária. Até havia uma directriz, que ainda hoje se mantém, mas que não é cumprida, segundo a qual a maioria da direcção do partido tem de ser operária… Hoje é tudo uma aldrabice. Os que se dizem operários, como por exemplo o Sérgio de Matos Vilarigues, que foi o nº 2 do PCP durante muitos anos. Eu conheci-o como marçano de uma mercearia, depois foi empregado num talho. Agora aparece como operário da indústria de carnes verdes… Dá vontade de rir… Eles fabricam operários de qualquer maneira.

JPG – E como é que se dá a ascensão fulgurante do Cunhal?
EP – Não conto. Não contei ao Pacheco Pereira, para a biografia do Cunhal… ele conta a ascensão do Cunhal à maneira dele, mas há coisas que só eu sei…

JPG – Não contou porquê?
EP – Não quis entrar em certos pormenores, não quis fazer chicana. Nas minhas memórias, em que estou finalmente a trabalhar, vão aparecer coisas que nunca foram contadas. Porque eu acompanhei, a partir do Tarrafal, todo esse processo. Ele não esteve lá, mas tudo começou no Tarrafal…

JPG – Qual é a sua opinião sobre este processo dos renovadores no PCP?
EP – Era inevitável. Há um desfasamento muito grande entre a realidade e os actuais dirigentes… Foram expulsos mas isso não vai adiantar nada. Isto é a história do Leste Europeu. Eles também colaboraram na expulsão de outros, como o Barros Moura ou o Vital Moreira, estiveram todos de acordo… é muito complicado… No Leste Europeu também foi assim: mataram-se uns aos outros sucessivamente, acusados de crimes imaginários. Aqui não se mataram porque não se podiam matar. Se assim não fosse tinham-se assassinado mutuamente. A lógica é a mesma. Eu fui educado lá dentro, sei como é. Tenho 16 anos de cadeia, não tenho complexos, a mim não me podem acusar de nada, larguei sempre tudo, os meus interesses mais elementares, dei tudo à luta contra o antigo regime. Alinhei em quase tudo, o Delgado, o Golpe de Beja, estive presente em quase todas. E não precisei de estar no PCP.

JPG – Quando saiu do Tarrafal, ao fim de cerca de 10 anos, como foi?
EP – Ainda fiquei dois dias na Cidade da Praia, à espera do barco. Numa das noites, era sábado, fui a um baile na Achada de Santo António. Conheci uma cabo-verdiana, dancei com ela, contei-lhe a minha situação… foi muito simpática… saímos dali para a praia… Quando cheguei a Portugal meteram-me no Aljube. Cheguei um homem totalmente diferente. Vinha com cabelos brancos. Os meus melhores anos ficaram no Tarrafal. Só no regresso é que me levaram a julgamento. Fui condenado a 22 meses de prisão. O tribunal não encontrou matéria no processo para me dar mais de 22 meses. Tinha estado 10 anos preso à espera de julgamento. É incrível, não é? Depois de lida a sentença ainda me fizeram ficar 2 ou 3 dias na prisão antes de me libertarem. E vinha de lá tuberculoso. O Ludgero Pinto Basto, que é médico, era da direcção do PCP na altura, ele é que me salvou. Ainda está vivo, é um grande amigo meu.

 


Com a equipa nacional de futebol, em 1948. Edmundo Pedro é o segundo a contar da esquerda, em pé, com uma mala na mão. No grupo estão, entre outros, Travassos, Jesus Correia, Peyroteu, guarda-redes Azevedo e Francisco Ferreira

JPG – E o recomeço da vida em Portugal?
EP – Comecei a ganhar a vida como tradutor correspondente. Quando saí do Tarrafal já sabia bem o inglês, o francês e algum alemão. Foi a minha profissão. A minha verdadeira profissão é tradutor correspondente. Fui correspondente de grandes casas comerciais. Comecei na Federação de Futebol… o facto de o Cândido de Oliveira também ter estado no Tarrafal ajudou… A primeira vez que fui a Paris foi para acompanhar a selecção, tenho fotografias com o Jesus Correia, um dos avançados daquele grupo dos violinos do Sporting. Fui a Paris como tradutor correspondente. E à noite trabalhava como revisor de provas no jornal A Bola. Depois saí da Federação quando entendi que podia ganhar mais numa empresa comercial. Estive na Sociedade Oceânica do Sul e nos laboratórios Lusofarmaco, que nessa altura ainda eram uma farmácia.

JPG – E os seus amigos, quem eram nessa altura?
EP – As minhas companhias eram todas da oposição. Frequentava um círculo de amigos na Costa de Caparica, em casa do Manuel Rodrigues de Oliveira, o fundador das edições Cosmos, e mulher, a Ana Isabel, a Bé. Costumavam estar lá o Tito de Moraes, a mulher dele, a Maria Emília, o Bento de Jesus Caraça, que lançou a Cosmos com o Oliveira. Éramos marxistas. Eu ainda me dizia comunista, apesar de não estar no PCP. Tinha deixado de ser leninista mas continuava marxista. A literatura que se discutia era a literatura francesa, o l’Humanité, o André Gide, o Malraux, o Roger Vailland, toda essa gente, o Henri Barbusse, o Romain Rolland, que eram compagnons de route. Rompi definitivamente com o comunismo quando se deu a invasão da Checoslováquia, em Agosto de 1968.

 


Quando foi preso devido à participação no Golpe do Quartel de Beja.


JPG – Mas as suas actividades conspirativas não se ficavam por aí?
EP – Antes já tinha tomado parte da campanha do Norton de Matos. Alinhei no 12 de Março de 1959 e participei no assalto ao Quartel de Beja na noite de 31 de Dezembro de 1961. Eu entrei fardado de capitão, deram-me a farda, estava combinado que eu entrava como oficial. Ainda há dias fui ao funeral de um amigo meu, o Jaime Carvalho da Silva, um dos oficiais do Golpe, foi condenado a 4 anos de prisão. Foi o que acompanhou o Varela Gomes quando iam prender o Calapez. O Varela foi ferido e o Carvalho da Silva, coitado, quis socorrer o Varela, achou mais importante salvar a vida do Varela que prender o Calapez. A coisa deu para o torto, mas alguns de nós conseguimos fugir para o Algarve. Fomos apanhados em Tavira, eu, o Manuel Serra, o então capitão Eugénio de Oliveira e mais três. O Manuel Serra era um dos homens que o Humberto Delgado mandou do Brasil para contactar com alguns oficiais superiores. Ele era o chefe civil, digamos assim. O chefe militar era o próprio Delgado. Chegou nessa noite e levaram-no para Beja. Eu nem sabia que ele lá estava. Em vez de o meterem no quartel pensaram que era melhor aguardar que tudo corresse bem. Depois o Delgado aparecia à frente daquilo. Se ele tivesse entrado no quartel connosco, talvez as coisas tivessem corrido bem.

JPG – Esteve preso quanto tempo?
EP – Fui condenado a 3 anos e 8 meses. Saí com 47 anos. Tinha 43. Foram os melhores anos da idade madura.

JPG – Também fez contrabando com o seu pai, não foi?
EP – Sim. Fiz contrabando mas não era contrabandista. Contrabandista é aquele que vive do contrabando. Eu nunca vivi, tive sempre o meu emprego. Fui desafiado para essas coisas pelo meu pai, porque o meu pai fazia contrabando para o PC. Foi influenciado por aquela história da Sierra Maestra do Che Guevara e do Fidel Castro. Todos nos apaixonámos. É nessa altura que o meu pai vem com a ideia da guerrilha urbana e de arranjar dinheiro para ela. Organizámos então um sistema de contrabando. Durante anos, o PCP viveu, em parte, do contrabando do meu pai. O Avante dirigiu-me algumas piadas a esse respeito. Ora eles deviam era estar calados com essa história do contrabando, porque os maiores beneficiados foram eles…

JPG – Contrabando de quê?
EP – Aquelas coisas que são normais… as que pagam mais direitos... Quando fui à televisão por causa do processo das armas, o Joaquim Letria levou dois mariolas com ele para me enterrarem. Um deles disse que os processos que eu tinha em tribunal militar eram de contrabando de droga. Eu devia ter dado um murro no gajo, devia ter-me levantado…

JPG – Mas já vamos a esse caso do processo das armas e à sua passagem pela RTP. Teve um processo de contrabando e foi preso?
EP – Não. Eu deixei essa história quando vi que o projecto do meu pai não tinha pés para andar. Mas por causa disso ainda levei com um processo alfandegário. Uns tempos depois, chamaram-me à polícia. Porque eu tinha um barco de recreio que julgavam que tinha sido utilizado numa operação de contrabando. Era mentira, por acaso não foi. Eu tinha estado em Paris com a minha mulher, o meu passaporte tinha o carimbo. Foi fácil de provar. De maneira que estive preso uns dias e mandaram-me embora. Foi nessa ocasião que conheci o escritor Luiz Pacheco no Limoeiro.

JPG – Já o conhecia, sabia quem era?
EP – Conhecia de nome. Como escritor. Quando o conheci pessoalmente já tinha lido algumas coisas dele. Eu achava-lhe piada. Tem uma maneira de ser muito própria. É um tipo giríssimo. Quando soube que eu era da oposição tornámo-nos amigos.

JPG – Como é que passavam o tempo no Limoeiro?
EP – Lembro-me que jogávamos muito ao xadrez. O Pacheco ganhava quase sempre, nunca fui grande jogador de xadrez. E conversávamos. Eu contei-lhe a minha história, ele contava-me a vida dele. Não fazia segredo de nada. As histórias dele na cama com a mulher e os filhos nas gavetas dos armários. O Pacheco faz gala da miséria dele, é um bocado assim. É um tipo completamente descontraído, é um tipo que não guarda nada nem se resguarda de nada. Ele ostenta a sua miséria, no fundo especializou-se em ostentar o que há de pior na vida dele. Porque ele tem lados muito bons, muito bonitos. E é um companheiro. Eu pessoalmente gosto muito dele. De maneira que ficámos amigos. De vez em quando escrevia-me uns postais dos CTT a dizer que ia mandar um livro, que custa tanto, para lhe mandar umas massas. Mandava-lhe sempre mais, e foi assim, tem sido assim ao longo do tempo. Agora quero ir visitá-lo ao Príncipe Real…

 


Com Manuel Alegre, no aeroporto de Lisboa, em 1976.

JPG – Entretanto entrou para o PS…
EP – Aderi a seguir ao 25 de Abril, em Outubro de 1974. Em termos informais aderi em Setembro de 1973, numa conversa que tive com o Mário Soares no aeroporto de Madrid. Em termos formais foi depois. Entrei com o Manuel Alegre, no mesmo dia. Fomos os dois ter com o Mário Soares ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Assumi o controlo da parte operacional do PS, particularmente ao nível da região de Lisboa.

 
JPG – Qual é que foi a sua participação no chamado PREC?
EP – Tive uma participação activa no 25 de Novembro. Essa é uma história que me trouxe muitos dissabores. Eu fui responsável, no PS, pela recepção e subsequente distribuição de um lote de 150 armas. As armas foram entregues por representantes do exército. Muito antes do 25 de Novembro estava prevista, caso a crise no país se agravasse, a entrega dessas armas ao sector de segurança do PS. O país vivia ameaçado pelos ataques da esquerda radical, do MFA. Foi o 11 de Março, o caso do jornal República, as sucessivas manipulações das assembleias do MFA, o V Governo Provisório, o documento definindo o “poder popular” escrito pelo Otelo Saraiva de Carvalho, o cerco da Assembleia Constituinte… Foi nesse contexto que me encontrei com alguns oficiais, entre eles o então tenente-coronel Ramalho Eanes. O Eanes identificava-se com o PS. Recebi em minha casa, na companhia do Manuel Alegre, o Eanes e outro oficial que não se identificou. Contámos ao Eanes as dificuldades que tínhamos em defender as sedes do partido. Todos os partidos e grupos de extrema-esquerda estavam armados. E alguns grupos de civis ligados à “vanguarda revolucionária” recebiam treino militar. Ora o PS estava à mercê desses ataques. Pedimos ao Eanes que nos fornecesse algumas armas para garantir uma protecção mínima.

JPG – O que é que o general Eanes fez?
EP – Elaborou o plano destinado à resistência caso houvesse um golpe, aquelas coisas, sabotar emissores, cortar as comunicações… e, na noite do 25 de Novembro, mandou distribuir as armas. Fomos buscá-las perto de Bicesse, numa carrinha. Deixámos umas quantas em Cascais, outras na sede nacional do partido, na rua da Emenda. No meu livro conto tudo (O Processo das Armas, Editorial Inquérito, 1987), reproduzo nomeadamente o esquema operacional escrito pela mão do general Eanes, onde descreve as acções que teríamos de desenvolver em colaboração com alguns militares no caso da extrema-esquerda tentar assumir o poder, como tentou, no 25 de Novembro.


Edmundo Pedro, em casa, sentado na mesa em que ficou combinada, com o General Ramalho Eanes e com Manuel Alegre, a entrega das armas. Fotografia tirada recentemente.

JPG – Por causa disso voltou a ser preso mais tarde, em 1978?
EP – Esse é um assunto melindroso. Porque se especulou muito comigo. Sabe o que é a política… As armas foram mandadas distribuir para defender a democracia. Não a mim, mas ao PS. Mais de um ano depois do 25 de Novembro o Exército pediu ao PS para devolver as armas. As armas seriam devolvidas ao exército pela “porta do cavalo”, de acordo com o seu pedido. Eu achava muito bem. As armas não deviam estar nas mãos de civis. Tinham sido distribuídas numa conjuntura muito especial, mas deviam ser devolvidas. Envolvi-me naquela tarefa com grande empenho. Devolvi a maior parte, mas aquilo não era fácil, as armas estavam espalhadas, algumas, por exemplo, foram parar aos Açores, a pedido do Jaime Gama. Isto é um facto histórico. Quem as veio buscar, em mãos, foi o líder do PS nesse tempo nos Açores, o Goulard. Aquilo nos Açores esteve muito assanhado a seguir ao 25 de Novembro, com a extrema-direita a assaltar e queimar sedes do PS. As armas que o Jaime Gama me pediu não as podia recolher. Ora eu estava no desempenho da operação de as devolver quando fui apanhado.

JPG – E por que é que foi preso?
EP – Repare que eu era Presidente da RTP quando o processo das armas se dá. Fui presidente da RTP durante um ano. Entre o início de 1977 e o início de 1978. O escândalo à minha volta seria necessariamente um facto político de enorme repercussão. Eu era membro do Secretariado Nacional do PS com o Zenha, o Manuel Alegre, o Soares, o Guterres e outros. Era deputado com mandato suspenso. Não era brincadeira nenhuma. Tinha muitas responsabilidades institucionais. Foi um escândalo enorme. Durante dias a fio fui a primeira páginas dos jornais. Foi uma conspiração para atingir o PS. Toda a especulação em torno do pretenso contrabando teve origem no conhecimento do antigo processo alfandegário. As insinuações a esse respeito partiram, como refiro no meu livro, de uma fonte da Polícia Judiciária. Tudo começou com um artigo no Expresso, que foi buscar esse processo antigo. Repare que a apreensão das armas coincidiu com a crise do I Governo Constitucional, quando estava iminente a queda do governo PS. As armas saíram da sede do PS quinze dias antes de ser preso. Fui detido no dia 11 de Janeiro de 1978 sob a acusação de armazenamento e transporte de material de guerra. Eram 36 espigandas G3, do lote das 150. Toda a gente no PS estava aterrorizada. Então resolvi levar as armas para um armazém que era da firma de electrónica a que pertencera, mas da qual já me tinha desvinculado há muito tempo. Não tinha nada que ver com aquilo. Quando fui eleito para a direcção do PS cortei com tudo. Entendi que um dirigente socialista não deveria estar ligado a negócio nenhum. Fui eleito pela Comissão Nacional do PS, no seu 1º Congresso. Mas resolvi guardar nesse armazém, situado na Via Rápida, as armas que tinha conseguido reunir para depois as devolver. A devolução deveria ser efectuada dias depois da minha apreensão. Pensaram que eu queria as armas para uso pessoal, assaltar bancos, etc. Senti-me maltratado. Humilhado. Porque foram buscar a tal história do contrabando, os processos. Eu fiquei maluco. Estava desesperado.

JPG – Ficou preso quanto tempo?
EP – Ainda foram seis meses. Pouco depois da minha detenção, o Estado-Maior do Exército veio confirmar que me tinha entregue as armas. Mas lá veio mais uma aldrabice. Disseram que eu já devia ter devolvido as armas há muito tempo, quando eu, assim que me pediram comecei logo a trabalhar para as devolver. O único homem que se portou bem como militar foi o General Galvão de Figueiredo. Foi minha testemunha através de uma carta percatória. Não quis ir ao tribunal, mas o testemunho dele foi fundamental. O juiz do meu processo era do MDP/CDE, um indivíduo sem personalidade nenhuma. Deixou-se condicionar pela campanha da imprensa e não teve coragem de tomar decisões. O parecer da Relação era que eu não podia ficar preso, visto que não havia nenhuma sintoma de dolo. Devia ter sido logo posto em liberdade, mas o juiz não quis saber disso para nada. Quando o processo mudou de mãos, o novo juiz mandou-me logo libertar. Os meus advogados eram o Francisco Sousa Tavares e o Proença de Carvalho, indicados pelo PS.

JPG – E o PS no meio de tudo isso?
EP – Toda a gente ficou calada. Eu assumi a responsabilidade toda. Calei-me. Em vez de dizer que aquilo era um assunto do PS, disse que era meu. Bastava eu ter falado no papel do Eanes naquela operação para ser imediatamente libertado. Ou dizer que aquilo tinha sido feito dentro do PS. Mas não quis falar em ninguém. O escândalo foi também provocado em parte por mim, porque me calei, por uma questão de dignidade. Nunca tinha falado na polícia. Mas também lhe digo, fiz isso convencido que cada um ia falar. Fui apanhado numa ratoeira.

JPG – Se soubesse que ninguém ia falar, contava tudo?
EP – Ah, se calhar tinha falado, mas eu não quis ser denunciante, pensei que cada um devia assumir as suas responsabilidades no caso. Mas ninguém se assumiu. Quem devia assumir as responsabilidades era o General Eanes e o PS. O PS ficou com uma certa má consciência. Teve sempre dificuldade em abordar o assunto de frente. Se o Mário Soares soubesse de tudo o que se tinha passado naquele contexto, eu não ficava preso, mas o mal que me fizeram não tem remédio.

JPG – E o general Eanes?
EP – Nunca falei no nome do general Eanes nem em quaisquer outros nomes. Só oito anos depois é que resolvi falar, no meu livro. E explico porquê: esperei que o Eanes saísse da Presidência para se poder defender, porque eu no livro faço uma grande crítica à sua conduta naquele processo. Já concordámos marcar um encontro para esclarecer alguns aspectos.

JPG – Para quê?
EP – Não quero discutir com ele. Isso agora já passou. Quero conversar numa atmosfera de amizade e descontracção. Mas gostava, por exemplo, que o general Eanes me dissesse por que é que não me concedeu a Ordem da Liberdade. Fui posto à cabeça numa lista elaborada pelo PS e ele recusou. Ora ele sabe que o protegi com o meu silêncio. Se eu não merecia a Ordem da Liberdade quem é que a merecia? Fui preso aos 15 anos, estive no Tarrafal dos 17 aos 27, passei a minha juventude toda na cadeia, participei no Golpe do Quartel de Beja, fui dos 4 ou 5 que andaram aos tiros lá dentro, não morri por uma sorte do caneco, podia ter ficado logo ali, combati a minha vida inteira, estive disposto a morrer depois do 25 de Abril em defesa da liberdade. Então quem é que merecia a Ordem da Liberdade? Só recebi a Ordem da Liberdade quando o Mário Soares foi Presidente da República.

JPG – Pode falar da RTP, quando foi presidente?
EP – Creio que não houve, nem haverá, nenhum tipo sem licenciatura que tenha sido presidente da RTP. Quando entrei fiz reunir toda a redacção no Lumiar. Disse-lhes que não queria saber o que é que cada um era, o que é que cada um pensava. Não queria saber se eram comunistas, socialistas ou social-democratas. Queria apenas que me ajudassem a fazer uma televisão isenta, ao serviço do povo português. Tenho muito orgulho desse tempo que passei na RTP. Quando aquela coisa das armas aconteceu fiquei com um desgosto enorme.

JPG – E a oposição, como é que avaliou a sua gestão?
EP – No meu tempo não havia nenhum órgão independente capaz de tutelar a televisão e de assegurar o pluralismo. Nós, para assegurarmos o pluralismo, quisemos que todos os partidos, menos o PCP (tínhamos acabado de sair daquele período do PREC), participassem no Conselho de Gestão, para se controlarem mutuamente. Ora não havendo um organismo separado capaz de controlar o conteúdo da informação, só o pluralismo interno, a presença de todos os partidos, é que podia garantir esse pluralismo. Eu partidarizei, pois, no melhor sentido. Democratizei. Na administração entraram pessoas do CDS, um representante do Presidente da República, o capitão Águas. O PSD não quis entrar, mas o Adriano Cerqueira, que foi director de informação, era assumidamente do PSD. Dos cinco da administração, éramos apenas dois do PS: eu e o Raul Junqueiro. Ficámos em minoria de propósito. Penso que isto é uma prova de democracia, ou não é? Quando me despedi do Parlamento, caí na asneira de evocar a minha passagem pela RTP.

JPG – Porquê?
EP – Porque o José Eduardo Moniz, no comentário do noticiário da noite, disse: “Afinal de contas, o Edmundo Pedro confessou que tinha partidarizado a televisão”. Ora eu partidarizei-a no melhor sentido, para garantir a democracia. O Moniz quis meter veneno. Fui eu quem o levou para a RTP. Apareceu-me com um livrinho sobre comunicação social debaixo do braço. O Guterres bem me tinha dito, “não fales na televisão”. Achava que eu, no discurso de despedida da Assembleia, não deveria referir a RTP. Mas eu tinha a minha consciência tranquila, não fui nenhum comissário do PS. Actuei lá com independência. Tenho a confirmação disso, de muita gente. O meu período foi um período pluralista. O edifício da 5 de Outubro foi comprado no meu tempo. Fui eu quem assinou o cheque de compra daquele edifício…

 


Entrega da Ordem da Liberdade a Edmundo Pedro. Mário Soares, Aníbal Cavaco Silva e, de costas, o escritor António Alçada Baptista.

JPG – Tem uma história de vida invulgar.
EP – A minha vida está ligada ao Conde de Monte Cristo. Para começar, o meu nome vem daí. A minha tia-madrinha, irmã do meu pai, apaixonou-se pela figura do Edmund Dantes e queria à força que eu fosse Edmundo. Foi como se a minha tia, ao atribuir-me aquele nome, estivesse a atribuir-me o destino daquela personagem. Ele esteve preso 10 anos numa ilha, eu também estive. Ele tentou fugir para o mar, eu também (embora ele se tenha safado e eu não). Ele foi denunciado por um tipo que gostava da namorada dele, a Mercedes, com quem veio a casar, eu fui denunciado por um tipo que veio a casar com uma namorada minha. Há coisas do caneco, não é?

JPG – Quando é que saem as suas memórias?
EP – Já tenho centenas de páginas escritas… Vão ser dois volumes. O primeiro vai até à minha saída do Tarrafal, o segundo será desde a minha saída do Tarrafal até ao presente. Espero entregar o primeiro manuscrito até ao final do ano. Estou na fase de revisão. Vou por no livro toda a minha sinceridade, toda a minha emoção… Há coisas que eu tenho que contar com emoção… Quando às vezes me lembro delas vêm-me as lágrimas aos olhos. Sou um bocado sentimental. Às vezes estou a escrever e estou a chorar ao mesmo tempo. Vou por no livro muito da minha maneira de ser e de sentir…

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