sexta-feira, 6 de março de 2026

Carlos Rates foi o primeiro Secretário geral do PCP (O PCP hoje completa 105 anos)

 


[Da esquerda para a direita] Raul Lavado, Alberto Monteiro, António Rodrigues Graça; Carlos Rates; Francisco Rodrigues Loureiro e José Grácio Ramos.
José Carlos Rates (1880–1961) foi um marinheiro, jornalista e sindicalista português, reconhecido como o primeiro secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), assumindo a liderança entre 1923 e 1925/1926. Figura controversa, evoluiu de sindicalista revolucionário a apoiante do regime de Salazar (União Nacional) em 1931, sendo posteriormente apagado da história oficial do partido.

  •  Papel no PCP: Eleito no I Congresso (1923), liderou o partido no início da sua consolidação, participando no V Congresso da Internacional Comunista em Moscovo (1924).
  • Expulsão e Mudança: Foi expulso do PCP em 1926 (no 2.º Congresso) por "desviacionismo" e divergências nas diretivas.
  •  Trajetória Política: Após deixar o comunismo, Rates, um defensor do antiparlamentarismo e corporativismo, aproximou-se do Estado Novo, apoiando Salazar.
  •  Percurso: Teve um papel ativo no movimento operário e sindicalista no início do século XX, colaborando em jornais como O Comunista e A Batalha.
 O seu percurso, de líder comunista a apoiante da ditadura, levou a que a sua história fosse longamente silenciada, sendo hoje considerado um líder "maldito" ou esquecido pelo partido que ajudou a organizar.José Carlos Rates

 Jornalista de profissão e considerado um intelectual do movimento operário, Carlos Rates foi o primeiro secretário-geral do PCP, assumindo a liderança comunista logo em 1921 e sendo eleito secretário-geral no primeiro congresso, em novembro de 1923, em Lisboa.

 Foi expulso em 1925 porque "jornalistas burgueses" não podiam pertencer aos "organismos" da Internacional Socialista. Tendo assumido, anos mais tarde, uma aproximação à ditadura, tal ação valeu-lhe ser muitas vezes minimizado na história oficial do PCP.

 Já na qualidade de secretário-geral visitou Moscovo, tendo escrito um livro de impressões dessa viagem e publicado outro intitulado "Ditadura do proletariado".

 Foi correspondente do Pravda em Portugal e diretor de "O Comunista" entre 1924 e 1925, ano em que foi afastado do PCP, no âmbito da primeira reorganização do partido.

Bento Gonçalves

Bento Gonçalves nasceu em 1902, em Montalegre, tendo começado a trabalhar aos 13 anos como torneiro mecânico no Arsenal da Marinha, desenvolvendo uma intensa atividade sindical, tendo-se deslocado à URSS em 1927, um ano antes de se filiar no PCP, em 1928, chegando a secretário-geral em 1929.

Nesse ano dirigiu o processo de reorganização do partido. Foi preso entre 1930 e 1933, ano em que sai da prisão e "mergulha" na clandestinidade. Bento Gonçalves voltou a Moscovo em 1935, desta vez com Júlio Fogaça e José de Sousa, mas no regresso foi preso, sendo enviado para o famoso campo de concentração do Tarrafal que "ajudou" a inaugurar. Foi aí que morreu em 1942, vítima de doença.

Com a sua morte, o PCP ficou sem secretário-geral até 1960, contando sim com uma direção coletiva, num período de forte repressão e clandestinidade durante a ditadura do Estado Novo.

Júlio Melo de Fogaça

Cunhal vs Fogaça

Apesar dos anos 60 terem marcado o início da grande influência de Álvaro Cunhal sobre o partido, na década anterior houve uma outra figura a disputar consigo a liderança do PCP: Júlio Fogaça, que “chegou ao Secretariado em 1934/35 e foi logo preso nessa altura, indo para o Tarrafal. É um dos primeiros que é transferido depois para Angra do Heroísmo e que vem proceder à reorganização, vindo a ser preso em 42 e apenas libertado após a amnistia no final da 2ª Guerra Mundial”, explica João Madeira.

“Até início dos anos 60, há uma grande disputa entre a visão de combate à ditadura que passa pela ideia de derrube visando transição pacífica e fica associada à figura de Júlio Fogaça e, por outro lado, a defesa de um levantamento nacional com cariz revolucionário, uma revolução democrática nacional, essa assim assumida a partir dos anos 60 na figura de Álvaro Cunhal”, resume José Neves.

Detalhando um pouco mais as estratégias, Fogaça tinha “uma orientação de que era possível derrubar o regime por desagregação da sua própria base”, ou seja, em que “a estratégia do PCP contribuiria para agravar as clivagens internas do regime, havendo uma espécie de fascistas descontentes que poderiam convergir com o derrube do regime num programa mínimo que derrubaria o regime e logo se via o que se fazia a seguir do ponto de vista da organização do novo regime democrático”, conta João Madeira.

Já Cunhal “defendia uma via ‘mais à esquerda’, de que o regime apenas podia ser derrubado por via insurrecional, por um levantamento nacional. Esse era o resultado do fluxo do movimento social, a radicalização das lutas dos trabalhadores que, unificando-se a nível regional e articulando-se a nível nacional, provocaria uma tal instabilidade no país que provocaria uma fratura nas Forças Armadas, havendo os soldados e uma parte da oficialagem que se passaria para o campo "democrático" e que assim derrubaria o regime e instituiria um regime democrático, baseado em alianças”, continua o historiador.

No final de contas, a visão de Cunhal seria a maioritária no partido, empurrando Fogaça e os seus apoiantes para a margem naquilo que caracterizaram como sendo “um desvio de direita”. Fogaça foi apanhado pela PIDE em 1960, sendo apenas libertado em 1970, e acabou por ser expulso do PCP em 1961.



Júlio de Melo Fogaça liderou o PCP por duas vezes: na Reorganização de 1940-41 e nos anos 50




Júlio de Melo Fogaça numa das suas últimas fotografias

 O Francisco Paula de Oliveira, que foi Secretário-Geral do PCP e Secretário-Geral da Juventude Comunista, tomou o pseudónimo de Pável, o nome de uma personagem de um romance do Máximo Gorki, A Mãe.

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