domingo, 26 de julho de 2026

O jornalista Élvio Passos fala sobre a censura à imprensa do tempo do Salazar

 Esqueceu-se de dizer que a censura atual passou a ser feita dentro das redações dos jornais e chama-se autocensura que é feita pelo próprio jornalista que escreve afim de não ser despedido. Se Élvio Passos escrever por exemplo acerca dos portos da Madeira e do monopólio do grupo SOUSA, é logo despedido sem apelo nem agravo. Tem de passar a ser funcionário do PCP/madeira afim de poder sobreviver. Ele sabe bem disso.

Durante vários anos, os leitores do DIÁRIO encontravam, discretamente impressa, uma pequena tra-se que hoje quase passa desperce-bida: "Este número foi visado pela Comissão de Censura" (ou equiva-lente). Eram apenas sete palavras, colocadas normalmente numa zona pouco destacada da página, mas que resumiam uma realidade comum à imprensa portuguesa durante grande parte do século XX.
Antes de chegar às bancas, cada edição do jornal já tinha sido lida por outra entidade.
A existência da censura não começou com o Estado Novo. Em Junho de 1918, o próprio DIARIO noticiava a criação, na Madeira, de uma comissão civil de censura à imprensa, instalada no Comando Militar, identificando mesmo os seus primeiros membros. Meses depois, voltava ao assunto para informar alterações na composição dessa comissão. O controlo sobre o que era publicado fazia parte da da vida política portuguesa num período marcado pela Primeira Guerra Mundial, pela instabilidade governativa e pelas preocupações com a ordem pública.
Depois do movimento militar de 28 de Maio de 1926, a censura consolidou-se como um dos instrumentos permanentes do novo regi-me. Foi nessa época que a inscrição
"Este número foi visado pela Coexame de uma autoridade encarre-gada de verificar se o seu conteúdo podia ser publicado.
Naturalmente, o leitor nunca sabia exactamente o que esse exame significava em cada edição. A inscrição não revelava se algum artigo fora alterado, se uma notícia tinha sido suprimida, se uma fotografia fora retirada ou se determinado assunto nunca chegara sequer a ser composto na tipografia. O que ela confirmava era apenas um facto: antes dos leitores abrirem o DIARIO, alguém já o tinha lido.
E precisamente esse silêncio que hoje torna a frase tão reveladora. O que não aparece impresso é, muitas vezes, impossível de reconstruir. Os cortes efectuados pela censura nem sempre deixaram vestígios nas páginas publicadas.
Em muitos casos, os leitores nunca chegaram a saber que determinada notícia fora modificada ou impedida de chegar à impressão. O jornal conservava apenas o resultado final,  enquanto todo o permite afirmar, com segurança, por que motivo o jornal deixou de publicar a referência ao "visto" da Comissão de Censura, nem se essa alteração resultou de uma mudança de procedimentos administrativos ou de outro factor.
Ainda assim, o desaparecimento da frase torna-a hoje ainda mais si-gnificativa. Ao contrário de muitos outros vestígios da censura, que ficaram dispersos por arquivos ad-ninistrativos ou processos oficiais, esta permaneceu impressa nas próprias páginas do jornal. E um testemunho directo de uma época em que a liberdade de informar estava sujeita ao escrutínio prévio do Estado e em que a relação entre jornalistas, tipografias e autoridades fazia parte do quotidiano da produção de um jornal.
O levantamento efectuado sobre o arquivo do DIÁRIO permitiu localizar numerosas edições onde esta inscrição continua visível. " ...


4 comentários:

  1. Nem mais! E por isso o Élvio convidou o padre das esmolinhas a apresentar o seu livro passando-lhe a mão pelo pelo!

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  2. Pelo Fim do Sistema “Volta” e pela Criação de um Modelo Justo de Gestão de Embalagens
    https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT131014

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