“Vejam bem / que não há só gaivotas em terra”, ecoa o coro no Rossio. À frente de dezenas de músicos, Tomás Frazer levanta os braços e procura impedir que as vozes, as cordas e os sopros se desencontrem. A canção de José Afonso serve a banda sonora do protesto pela habitação, mas aquilo que se forma no centro da praça conta também outra história: a de uma orquestra que apareceu sem audições, hierarquia, sala de ensaios e estrutura rígida, criada pela violinista Maria João Matos, José Conde, Leonor Palha, Carlota Ferreira e Catarina Valadas, todos músicos.
No domingo, 1 de novembro, poucas horas depois de uma intervenção policial no Rossio, milhares de pessoas regressaram à praça. Terminada a assembleia popular, parte da multidão permaneceu para ouvir a Orquestra da Acampada, acompanhada pela Primavera de Coros. O concerto começou por volta das 19h30 e terminou com Grândola, Vila Morena. Depois, as palavras de ordem regressaram e Bella Ciao continuou a ouvir-se entre os manifestantes.
Frazer, de 32 anos, músico, maestro e compositor luso-britânico que dirige informalmente a Orquestra Académica Portuguesa (OAP), não esteve no começo da orquestra. “Genuinamente, a organização não passou tanto por mim. Juntei-me a meio e acabei por dirigir”, explica. Alguns músicos começaram por contactar a Acampada de Lisboa; seguiram-se chamadas nas redes sociais e as pessoas foram aparecendo. Umas escreveram arranjos, outras escolheram as peças ou carregaram cadeiras. “Foi uma coisa profundamente orgânica. Eu vim, quis ajudar e juntei-me ao grupo.”
Não houve um primeiro ensaio porque não houve ensaio algum. Acertaram-se o dia e a hora com a organização da acampada; o repertório foi ganhando forma através do consenso possível. Depois, “foi chegar e tocar”. A instabilidade fazia parte do dispositivo; músicos que não se conheciam, níveis de experiência diferentes e uma praça aberta, na qual o público também podia transformar-se em coro.
Por isso, Frazer resiste quando lhe atribuem a propriedade musical do projeto. “Eu não sou o maestro da orquestra”, corrige. Voluntariou-se porque tinha experiência, confiança para dirigir e uma ligação à Primavera de Coros – movimento que utiliza o canto coletivo e a música de intervenção no espaço público como forma pacífica de protesto, celebração e resistência comunitária.
A sua função não era impor uma leitura, mas manter o conjunto unido. “Um bom maestro tem de refletir, acima de tudo, a vontade e as necessidades do grupo. Não estava ali a liderar as massas. Agitei os braços para que não nos perdêssemos e pudéssemos cantar mais alto e com mais confiança.”
Formado como barítono clássico, Frazer fundou este ano a Camerata Sete Colinas, uma formação profissional de música de câmara. Trabalha tanto com profissionais como com amadores e procura frequentemente associar os concertos a causas concretas — meses antes, organizara uma atuação de apoio aos bombeiros voluntários de Samora Correia. “Vivo a música a acreditar que que ela tem sempre um propósito.”
A orquestra reuniu pessoas que nem sempre tinham participado nas noites da acampada, mas também músicos atingidos diretamente pelo que acontecera na praça. Frazer recorda Catarina, uma flautista que, segundo conta, foi atingida na nuca durante uma das intervenções policiais. "Apareceu para tocar com uma almofada de pescoço, daquelas usadas em viagens de avião, para conseguir segurar a flauta de pé", partilha. “Havia pessoas no meio que levaram pancada. Eu não. Só estive nos protestos diurnos.” (Sábado)


Se na Madeira uma orquestra aburguesada alinhasse nestas coisas, no dia a seguir o Governo e o Pestana expulsava-os da Sala de Congressos do Casino. Pior é ter uma mira fascista que chama de cómónistas a qualquer músico da ex-Uniao Soviética ou da Hungria que questione as suas ordens esganiçadas. Tonta do caralhe.
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