Jornalista da burguesia ataca o PCP por causa do falecimento do Carlos Brito
«Há várias coisas doentias no comunicado de imprensa do PCP sobre a morte do combatente antifascista e antigo braço-direito de Álvaro Cunhal, Carlos Brito. A primeira é o antetítulo: “A pedido de vários órgãos de comunicação social.” Para que ninguém tenha dúvidas, fica a declaração solene de que, se nenhum “órgão de comunicação social” tivesse batido à porta, o PCP iria ignorar a morte de Carlos Brito. Aliás, o site do PCP ignora. O comunicado de imprensa foi feito para satisfazer os “órgãos de comunicação social” pedintes de declarações. Como se isto já fosse pouco, o texto do PCP inicia a reacção “com as divergências entre o partido e Carlos Brito.” Aliás, a brevidade do comunicado de imprensa impõe a sua pesar. Na altura, o PCP assinalava “a contribuição de João Amaral ao longo de muitos anos para a vida e a luta do PCP e para as grandes causas democráticas e humanitárias”. É verdade que João Amaral se manteve até ao reprodução total: “Sem prejuízo das diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar.” O escritor Rui Zink, na sua página de Facebook, admite que o texto possa ter sido escrito pelo “jovem” que estava de serviço: “A pessoa que escreveu aquele comunicado azedo do PCP provavelmente nem sequer tinha idade para lutar contra a ditadura quanto mais coragem para enfrentar sem arrependimentos a prisão.” Mas o PCP nunca funcionou assim — manda o colectivo. O arquitecto Tiago Mota Saraiva, militante do PCP que se demarcou do texto, assume, também nas redes sociais, que o texto foi “certamente escrito a várias mãos e revisto por várias cabeças, produto de um consenso alargado entre o colectivo de dirigentes do PCP”. Saraiva admite que o partido não se reveja na nota e que “isso deve ser matéria de re exão interna”. Quando em Janeiro de 2003, o deputado João Amaral, crítico interno, morreu, o PCP fez uma muito decente e longa nota de m como militante do PCP, embora dois anos antes da sua morte tenha pairado sobre si a ameaça de expulsão, por ter defendido a realização de um congresso extraordinário para debater a orientação estratégica do partido — vista num editorial do Avante! como uma “declaração de guerra” ao PCP. Não houve expulsão, o PCP saneou João Amaral das listas de deputados, mas Carlos Carvalhas e outros dirigentes apareceram no funeral. Na hora da sua morte, nada dividia em termos políticos João Amaral de Carlos Brito ou de Edgar Correia ou de Carlos Luís Figueira. A única diferença é que João Amaral ainda era militante do PCP e presidente da Assembleia Municipal de Lisboa. Carlos Brito tinha sido suspenso por 10 meses e depois tinha-se auto-suspendido. Edgar Correia e Carlos Luís Figueira foram expulsos. Quando morreu Edgar Correia, em 2005, o PCP também nada disse (pelo menos não encontrei nada ao revisitar as crónicas da época). É verdade que as purgas de antigos camaradas transformados em inimigos fazem parte da história do comunismo. Neste apagamento que o PCP levou a cabo da história de Carlos Brito, podia até não haver nada de novo debaixo do sol. A questão é que o PCP sempre fez questão de se a rmar publicamente como um partido “essencialmente português”, uma característica que sempre coabitou com o internacionalismo. O PCP está na história de Portugal pelo combate sem tréguas contra a ditadura. Mas se é justo dizer que o PCP foi a única força organizada que durante mais anos, e sistematicamente, combateu o fascismo e que os seus militantes foram os mais corajosos combatentes contra a ditadura, a partir de agora será preciso pôr uma adenda. Uma nota de rodapé deste género: “Muitos desses combatentes contra a ditadura, que foram presos e torturados antes do 25 de Abril e viveram em condições sub-humanas durante o fascismo, afastaram-se mais tarde do partido e o partido deles.” Se é o PCP que começa a renegar a sua história, não se percebe como é que os “outros” não o hão-de fazer. E se há coisa que, na sua decadência visível, ainda constitui um grande activo do PCP é precisamente a sua história. Aquele comunicado sobre Carlos Brito é, na verdade, uma segunda morte do antigo braço-direito de Álvaro Cunhal. Simbolicamente, na negação da sua história, também é um sinal de morte do PCP.» (Ana Sá Lopes)

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