Há tradições que passam de geração em geração. Umas são bonitas, outras nem por isso. No PSD, olhando para alguns episódios da sua história governativa, parece existir uma tradição particularmente resistente: quando o povo protesta, há sempre um bastão por perto.
É quase património político. Não consta dos estatutos do partido, não aparece nos programas eleitorais e, tanto quanto se sabe, ainda não foi candidato a Património Imaterial da Humanidade. Mas tem antecedentes que já mereciam um estudo histórico.
Recuemos a 1989, ao governo de Aníbal Cavaco Silva. Em Veiga do Lila, Valpaços, centenas de agricultores e populares revoltaram-se contra a plantação intensiva de eucaliptos. Defendiam as suas terras, a agricultura tradicional e os recursos naturais. A resposta incluiu a mobilização da GNR e confrontos violentos. O povo queria preservar oliveiras. O Estado apareceu com bastões. Uma interpretação bastante peculiar do desenvolvimento rural.
Em 1994, ainda com Cavaco Silva, foi a vez da Ponte 25 de Abril. Os protestos contra o aumento das portagens terminaram em confrontos com a GNR. O episódio tornou-se um dos símbolos do desgaste político do cavaquismo. Afinal, o cidadão podia atravessar a ponte, desde que pagasse e não levantasse demasiado a voz.
Décadas depois, chegamos a Luís Montenegro e aos acontecimentos no Porto, em outubro de 2026. A contestação pela habitação terminou com uma intervenção policial controversa e denúncias de dezenas de feridos. Perante o protesto, o primeiro-ministro encontrou uma palavra para caracterizar as reivindicações: egoísticas.


Aprendizes em comparação con a KGB
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