“Duelo de gourmets”: da sardinha ao “meia.dúzia” no centro do Funchal
Rui Marote
Hoje em dia os negócios “gourmet” expandiram-se e encontraram um público-alvo entre os turistas que nos visitam. Mas antigamente as coisas eram diferentes. No coração da cidade só existia uma mercearia: a Central “Manuel Passos Freitas” junto à Sé (ver foto). Este comércio de venda alimentar estava sobretudo centrado na Rua da Carreira, Largo da Igrejinha, Rua Câmara Pestana e Rua das Pretas.
Recordamos os “Camachos”, que eram popularmente conhecidos pela “mercearia do Nêspera”; além da doçaria vendiam-se ali produtos da alimentação diária como arroz, massa, azeite etc… E havia ainda, dentro, um pequeno barzinho muito famoso que se vendia o vinho “Canteiro”; o “dentinho” era uma azeitona. No Largo da Igrejinha, existia a mercearia Arcada e no início da Rua das Pretas um estabelecimento conhecido como o “Burrinho do Azeite”, uma lojazinha especializada em azeite e outros produtos do género.
O nosso gourmet da altura era a Salsicharia Bach, que desde 1939 era sita na Rua da Carreira, na esquina com a Avenida Zarco. Era então um estabelecimento denominado “Charcutaria e Cervejaria Bach”.
Em 1963, transformou-se no supermercado Bach, o primeiro supermercado do Funchal. Existiu até 1989.
No tempo da Segunda Guerra Mundial havia também um outro comércio de salsichas, feitas por Claudius Johannsen, alemão refugiado na Madeira, que as fabricava para o “Minas Gerais”, estabelecimento localizado no inicio da Avenida do Infante. A Salsicharia Bach pertencia a uma família de judeus, que se tinha deslocado para o Funchal em 1936.
No romance de Helena Marques, ‘O Bazar Alemão’, há referências à salsicharia Bach e ao protesto dos alemães nazis residentes no Funchal relativamente à aquisição de produtos na Bach, um estabelecimento de judeus.
Na Rua da Carreira havia duas mercearias, a “Americana” e a “Londres”, esta última hoje um restaurante com o mesmo nome; ambas as mercearias eram propriedade de Carlos Sabino de Freitas, bem como a “Arcada”, que também lhe pertencia. Estamos a falar de finais dos anos 50, no centro do Funchal.
O restante comércio não se situava na área da alimentação nem muito menos gourmet, mas era sobretudo de pronto a vestir, tecidos e calçados, não esquecendo o Bazar do Povo.
A ideia “Gourmet” nasceu em França no século XIX. Mas só ocorreu a explosão comercial da “gourmetização” em Portugal a partir do ano 2000.
Na Madeira em 19 de Novembro de 2018 chegou ao Largo do Chafariz uma famosa loja especializada em pastéis de de bacalhau e vinho Madeira (“A Casa Portuguesa do Pastel do Bacalhau”) mas acabou por encerrar poucos meses depois, dando lugar à loja Comur (Conserveira de Portugal), fundada em 1942 na Murtosa. Esta é uma das mais prestigiadas marcas de conservas artesanais do país. Conhecida pelo seu processo 100% humano e artesanal, produz mais de 30 variedades, destacando-se pelas suas embalagens coloridas e pelas famosas enguias e sardinhas.
Nesse espaço esteve anteriormente instalada a famosa Benetton que, entretanto encerrou portas. E num curto espaço de tempo, a prestigiada loja de conservas Comur, mudou-se do Largo do Chafariz para a Avenida Arriaga, ocupando as ex-instalações da Marconi. E o espaço do Largo do Chafariz voltou ao comércio de vestuário. Uma autêntica dança de cadeiras.
Entretanto, a Portugália, na Rua do Aljube, encerrou. Nesse espaço irá nascer uma loja “Meia.Dúzia- Sabores de Portugal” que convida a descobrir uma nova forma de provar Portugal através de sabores artesanais inspirados nas regiões portuguesas.
Num espaço onde a tradição, a criatividade e a gastronomia se encontram, poderá explorar doces, chocolates, mel, azeites, licores e outras experiências de sabor apresentadas em emblemáticas bisnagas meia.dúzia®, promete a publicidade.
Para quem visita a Madeira, esta poderá ser uma paragem obrigatória para encontrar presentes autênticos, lembranças portuguesas e packs personalizados com 3 ou 6 sabores à escolha. Este “é um espaço que celebra a riqueza dos ingredientes portugueses e a identidade única da Madeira, entre aromas, texturas e experiências memoráveis”. Abrirá nos primeiros dias de Junho.





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