sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A Revolução não pode continuar a ser revolução se repetir os mesmos mecanismos de exploração do capitalismo

 

O Discurso do Argelaço que Separou Che Guevara de Fidel Castro e Enfureceu a União Soviética...

Argel amanheceu com um sol branco, daqueles que não aquecem o corpo, mas a memória. A cidade ainda carregava cicatrizes de guerra: paredes remendadas, olhares que aprenderam a desconfiar, ruas onde a independência era um orgulho novo, frágil, quase sagrado. Ainda assim, naquela manhã de 24 de fevereiro de 1965, o auditório do seminário afro-asiático estava cheio como se todos procurasem a mesma coisa: uma palavra que os unisse, um sinal de que não estavam sozinhos contra o mundo.
Delegados da África, Ásia e América Latina estavam se empurrando. Havia fatos gastos, uniformes acabados de passar, caras de guerrilha e caras de escritório. Nos corredores cruzavam-se emissários soviéticos com sorrisos certos, representantes chineses com gestos de aço, jovens líderes que ainda cheiravam a montanha. A Argélia, recém-nascida, tinha-se tornado o espelho onde todos queriam se ver: um povo que venceu o colonialismo e agora tentava vencer algo mais invisível, mais profundo, mais difícil de atirar... dependência.
Quando Ernesto “Che” Guevara subiu ao banco de testemunhas, o murmúrio desceu de repente. Não era um ministro qualquer. Era o guerrilheiro que se tornou estadista, o homem que tinha sobrevivido à Sierra Maestra e aos salões oficiais sem perder completamente o olhar de combate. Muitos esperavam uma mensagem de unidade, um discurso com aplausos fáceis, palavras polidas que confirmassem a irmandade do campo socialista. Ninguém imaginava que estavam prestes a ouvir uma heresia.
O Che ajustou o microfone com calma. Seu tom não era teatral. Não queria gostar. Havia uma serenidade perigosa no seu jeito de falar, como se já tivesse tomado uma decisão e nada pudesse movê-lo. Seus olhos percorreram o auditório sem pressa, parando por um instante nos representantes do bloco socialista. Depois disse o que ninguém esperava: que a revolução não poderia ser chamada revolução se repetisse, com outro nome, os mesmos mecanismos de exploração do imperialismo.
Nas primeiras filas alguém engoliu saliva. Um tradutor hesitou, como se as palavras fossem grandes demais para passar de uma língua para outra sem quebrarem. Mas aconteceram. E quando eles passaram, sentiu o golpe.
O Che falou da troca desigual. Dos países pobres vendendo matérias-primas baratas e comprando tecnologia cara. Dívida que não foi anunciada em discursos, mas cobrada na fome. Da solidariedade convertida em contrato, em factura, em juros. E então lançou a frase que partiu o ar: que alguns países socialistas, por actuarem sob as regras do mercado mundial, acabavam por ser cúmplices da exploração imperialista.
Ele não pronunciou “União Soviética”, mas todo mundo entendeu. Um murmúrio, primeiro baixo, depois espalhado como um incêndio lento, atravessou a sala. Alguns delegados se olharam com incredulidade...


Sem comentários:

Enviar um comentário