Regime nascido do golpe de 24 de março de 1976 gerou a reação mais forte da sociedade civil na região
A ditadura militar que governou a Argentina entre 24 de
março de 1976 e 10 de dezembro de 1983 aplicou um plano
sistemático para sequestrar,
torturar, roubar bebés, furtar
bens, matar pessoas e fazer
desaparecer corpos até hoje
procurados, vítimas de terrorismo de Estado. O golpe
foi justificado pela luta contra o comunismo no contexto
da Guerra Fria, apoiado por
sectores conservadores e pela
doutrina da Segurança Nacional dos Estados Unidos da
América (EUA).
O plano incluiu 814 centros
clandestinos de prisão, tortura e morte, equivalentes a
campos de extermínio, sendo o maior de todos a Escola de Mecânica da Armada
(ESMA), hoje museu da memória, onde entraram cerca
de cinco mil pessoas e saíram
em torno de 250. Ricardo Coquet, de 73 anos, é um dos sobreviventes. Foi sequestrado a
10 de março de 1977, quando
saía da famosa confeitaria Las
Violetas de Buenos Aires.
“Fui encontrar-me com um
primo que me daria roupa
e algum dinheiro. Todos os
nossos camaradas estavam a
ser capturados. Ao sairmos,
quando caminhávamos ao
carro dele, passou um camião
com homens armados para
me sequestrar”, relata. “Eu
tinha uma pastilha de cianeto como muitos. Tomei-a e
avisei-os de que não me ganhariam. Além de vários golpes, deram-me injeções para
travar o efeito”, recorda ao
Expresso o então militante
da Juventude Trabalhadora
Peronista. Ficou preso até
1978, foi torturado e sofreu
um acidente que lhe amputou
quatro dedos, na carpintaria
do centro clandestino, onde
realizava trabalho escravo.
“O caso argentino baseou-se
no desaparecimento forçado
como método mais comum,
mas teve modalidades únicas,
como os voos da morte e o
roubo sistemático de bebés”,
aponta ao Expresso o historiador e escritor uruguaio Aldo
Marchesi. A Junta Militar sabia que não poderia manter
milhares de pessoas presas,
não poderia fuzilar e enterrar
tanta gente sem gerar críticas
internacionais, sobretudo do
Vaticano. Era preciso fazer
desaparecer os corpos e, para
isso, surgiram no primeiro
ano de ditadura os “voos da
morte”.
Recuperada a democracia,
descobriu-se que de aviões das
Forças Armadas eram lançadas pessoas vivas, drogadas,
ao rio da Prata e ao mar. Cada
voo transportava 25 a 30. Vários corpos mutilados apareceram nas costas próximas,
tendo sido enterrados como
desconhecidos em cemitérios
locais. As primeiras autópsias foram feitas pelo médico
legista Roberto León Dios,
em 1977. Quando ia trabalhar sobre o terceiro cadáver, recebeu ordem militar para interromper o estudo. Misteriosamente, morreu 40 dias depois.
Violação como arma
As presas eram sexualmente
violentadas. “Ficávamos todos nus. Recebia choques elétricos nos órgãos genitais e na
boca. Levei tantos golpes que
perdi uma gravidez de dois
meses”, descreve ao Expresso Betina Ehrenhaus, de 68
anos, presa na ESMA quando
tinha 21. “Se soubessem que
eu estava grávida, ter-me-iam
mantido viva e teriam roubado o bebé, como fizeram com
todas. Não no roubaram, mas
mataram-no.”
A ditadura aplicou um plano
sistemático de roubo dos filhos dos torturados e mortos.
Eram destinados a famílias de
militares e polícias. As Avós
da Praça de Maio ainda procuram 392 netos, tendo recuperado 140, incluindo quatro no
ventre das mães assassinadas.
Durante os anos de 90, após
duas leis que garantiram a
impunidade dos envolvidos,
o roubo de bebés foi o único
crime que levou uma dezena
de repressores à prisão, incluindo os ex-ditadores Reynaldo
Bignone e Jorge Videla.
Tendo sido a ditadura mais
sangrenta da América do Sul,
o regime argentino gerou
reação social como nenhum
outro. Quase um ano após o
golpe, em abril de 1977, mães
de desaparecidos começaram a reunir-se na Praça de Maio,
em frente à sede do Governo.
Ainda hoje, as poucas que ainda estão vivas circulam pela
praça às quintas-feiras.
Miguel Santucho foi levado
para Roma com 1 ano de idade, em 1976. O pai já estava em
Itália. Quando Miguel tinha
oito meses, a sua mãe, Cristina Navajas, foi sequestrada
quando se encontrava grávida
de dois meses. Foi vista pela
última vez em 1977, sem sinais
de gestação. Teria perdido o
bebé ou parido? Miguel voltou
a Buenos Aires aos 17 anos “Supúnhamos que pudesse ter
dado à luz, mas também existia a possibilidade de nunca ter
parido”, explica Miguel ao Expresso. A família acredita que
Cristina tenha sido lançada
num voo da morte. A sua mãe,
Nélida Gómez de Navajas, era
uma Avó da Praça de Maio que
procurava o neto, irmão de
Miguel.
Em julho de 2023, Miguel
atendeu uma chamada. Era
Daniel, o neto número 137 dos
140 recuperados. “Muito obrigado por teres continuado a
procurar-me e por nunca teres
desistido”, disse-lhe o irmão,
nascido no cativeiro de tortura da mãe. Hoje, tem os apelidos
da verdadeira família.
O apropriador foi indiciado
e ficou em prisão domiciliária
à espera do julgamento, mas
faleceu antes de ser julgado.
“Morreu dois dias depois de
eu ter o meu novo documento
com a minha verdadeira identidade”, realça o bebé roubado.
Guerra de números
Os organismos de defesa dos
direitos humanos afirmam que
o número de desaparecidos
chega a 30 mil. Em dezembro
de 1983, Raúl Alfonsín, primeiro Presidente da democracia,
criou a Comissão Nacional
sobre o Desaparecimento de
Pessoas (CONADEP). Esta
preparou uma lista com 8961
nomes comprovados, que críticos usam para desacreditar o
cálculo de 30 mil. No entanto,
a própria CONADEP esclareceu que aquela era “uma lista
inevitavelmente aberta”, dado
o calor dos acontecimentos, a
falta de acesso a todos os casos
e o medo que ainda silenciava
muitos.
O atual Presidente, Javier
Milei, negacionista da ditadura, defende um número ainda
inferior: “Foram 8753”. O seu
Governo bloqueou o acesso a
arquivos, desmantelou equipas
especializadas e retirou o Estado como parte acusadora nos
processos ligados à ditadura.
Em março de 1977, um ano
após o golpe, a Amnistia Internacional já mencionava 15 mil
vítimas. Segundo os serviços secretos dos EUA, os próprios
militares argentinos calculavam, em 1978, que fossem 22
mil.
A Argentina é o país que
mais julgou e condenou os seus
militares. Pouco antes de deixarem o poder, estes tentaram
uma lei de autoamnistia, que
Alfonsín anulou. A CONADEP
serviu de base, em 1985, para
o julgamento dos responsáveis pelos crimes da ditadura.
Foram condenados cinco: Jorge Videla (perpétua), Emilio
Massera (perpétua), Roberto Viola (17 anos), Armando
Lambruschini (oito anos) e
Orlando Agosti (quatro anos
e seis meses). O filme “Argentina, 1985”, de Santiago Mitre
(2022), recria o processo. Os
militares reagiram com levantamentos que ameaçavam a jovem democracia, tendo o Congresso argentino aprovado leis
que garantiram a impunidade
a torturadores e criminosos
da ditadura. Seriam revogadas nos anos 90 e declaradas
inconstitucionais.
“A Argentina tornou-se referência mundial em matéria de
verdade e justiça. Há estudos
que mostram como esse modelo foi replicado por outros países”, afirma Marchesi. Desde
2006, foram condenadas 1202
pessoas por crimes contra a
Humanidade. Há ainda 539
presos, dos quais 454 em domiciliária, e estão por concluir
73 processos, havendo outros
280 estão na fase de investigação. (Expresso)

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