Estávamos em Maio de 1988 e reinava uma grande euforia na Rua Actor Taborda, à Estefânia, num primeiro andar muito bem situado: justamente um piso acima do cinema pornográfico Cinebolso...
Nascia o jornal “O Independente” e esta era a primeira página do número zero. A fotografia que aqui se vê foi tirada pela Inês Gonçalves, e o “modelo” que posava junto a um táxi com jornais debaixo do braço era... Rui Henriques Coimbra, à época responsável pelo arquivo do jornal. O título da manchete, “Presstroika”, anunciava novos títulos de imprensa, mas no fundo antecipava aquilo que o jornal dirigido por Miguel Esteves Cardoso, Paulo Portas e Manuel Falcão veio a constituir no panorama dos media nacionais: uma revolução, um momento de viragem. E um sonho também: era possível voltar a fazer jornalismo livre, independente, e novo. Passados 20 anos, resta pouco dessa ideia – resta a memória, e alguns sorrisos quando nos lembramos dos dias que ali vivemos...
Miguel Esteves Cardoso
Uma história de "O Independente", o jornal que nasceu para acabar de vez com o cavaquismo.
Houve um tempo, em Portugal, em que um jornal inventava palavras que depois eram usadas para massacrar figuras públicas. Por exemplo - cadilhar (de Miguel Cadilhe), ou entaveirar (de Tomás Taveira, o tal do vídeo). Eram sobretudo políticos, e estava-se nos anos 80. As pessoas vestiam roupas com chumaços enormes, as Amoreiras reluziam de modernidade, Portugal tinha entrado havia pouco na comunidade europeia, não havia autoestrada para o Algarve. Paulo Portas ainda estava longe de ser ministro (mais longe ainda de ser vice-primeiro-ministro) e a seu lado, na direcção de "O Independente", tinha a verve fulminante de Miguel Esteves Cardoso.
Nesse jornal fizeram-se coisas que hoje em dia nos parecem impossíveis na imprensa. Capas, títulos, fotomontagens. Imaginação sem freio. Coisas que irritavam muita gente, que chocavam, que davam vontade de rir, que faziam troça aberta e sem pedir desculpa a ninguém, que deixavam os políticos nervosos todas as quintas-feiras, na véspera de cada nova edição de "O Independente".
Ainda não havia memes nem gifs animados. Se houvesse, Cavaco Silva - que ainda não era presidente, mas já era primeiro-ministro e foi, contra vontade, a musa inspiradora de inúmeras capas e páginas do jornal - estaria por aí a circular em tudo o que é rede social. Foi, afinal, o jornal em que o então jornalista Paulo Portas massacrou o então primeiro-ministro Cavaco Silva e os membros do seu governo. Basta olhar para esta selecção de capas para ver isso. O Independente - A Máquina de Triturar Políticos é uma edição da Matéria Prima, e pode saber mais aqui.



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