Vivemos numa era em que, sob o pretexto da "agilidade" e da "modernidade digital", as empresas transferiram os seus custos operacionais diretamente para as costas do consumidor. Ele faz todo trabalho, paga e ainda tem direito a uma fiscalização desconfiada dos supervisores.
Falam das asneiras das políticas de Eduardo Jesus, mas há mais formas de destruir a nossa qualidade de vida. Houve um tempo em que ser cliente significava ser servido. Hoje, ser cliente é ser um funcionário não remunerado de todas as empresas com as quais interagimos. O cansaço que a sociedade sente não é apenas fruto das horas de emprego formal, mas da escravidão invisível que nos obriga a fazer tudo neste novo mundo impessoal.
No supermercado, passamos as nossas próprias compras e pesamos a nossa fruta; no bricolage, carregamos e montamos o nosso próprio material. Na banca, somos nós que gerimos transferências, resolvemos erros de sistema e operamos máquinas que substituíram o rosto humano. As empresas venderam-nos a ideia da "autonomia", mas o que nos entregaram foi a transferência de esforço e assim elas ganham mais dinheiro com trabalho de borla.
Se a máquina falha ou se cometemos um erro no processo, a culpa é nossa. Não há ninguém a quem reclamar, apenas um ecrã frio que exige que reiniciemos o processo. O tempo que deveríamos usar para descansar é gasto a aprender a usar novas aplicações de serviços básicos ou a lutar com chatbots desumanos.
Somos "mal vistos" se não dominamos a tecnologia da empresa, como se tivéssemos a obrigação de ser peritos em cada serviço que pagamos para obter. Quando não desconfiam de que poderemos roubar algo e ainda nos ferem a dignidade, tudo porque os clientes são todos iguais e "funcionários".
Este mundo "eficiente" é, na verdade, um sistema de exaustão. Transformaram o cidadão num empregado multifunções de todas as marcas, sem salário, sem descanso e com a obrigação de sorrir enquanto faz o trabalho que, outrora, dava emprego e dignidade a outra pessoa.
Este cenário é particularmente irónico quando olhamos para os números da pobreza e da habitação, enquanto as grandes empresas lucram ao eliminar postos de trabalho e ao passar o serviço para o cliente, a base da população continua a lutar para sobreviver a este "fabuloso" crescimento económico que não se traduz em tempo nem em qualidade de vida.
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