quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Vejam para que servem os "cabrões" da Polícia e da GNR em Portugal

 Dois militares da GNR acusados de ameaçar imigrantes com expulsão para os extorquir

Para coagir as vítimas a pagarem de imediato, eram feitas ameaças como o aumento substancial da multa e a detenção.
Guardas da GNR de Tavira estão acusados de um total de 27 crimes. Obrigariam vítimas a pagar multas por infracções inventadas Mariana Oliveira As vítimas seriam escolhidas a dedo: trabalhadores imigrantes, a maior parte proveniente do Bangladesh, mas também do Nepal e do Paquistão, que não falavam português. E o método de extorsão seria sensivelmente o mesmo. Abordá-los numa operação de fiscalização rodoviária, detectar infracções ou mesmo inventá-las e depois obrigá-los a pagarem as supostas multas no local, em dinheiro vivo. Quando as infracções eram reais, os montantes exigidos eram muito superiores aos previstos na lei e, muitas vezes, nem sequer era levantado qualquer auto. Para coagir as vítimas a pagarem de imediato, seriam usados vários expedientes e feitas diversas ameaças, como o aumento substancial da multa, a detenção da pessoa, a apreensão da viatura ou de documentos de identificação e até a expulsão de Portugal. É isso que relata o Departamento de Investigação e Acção Penal de Faro numa acusação contra dois militares da GNR de Tavira, um de 28 anos e outro com 26, que estão acusados ao todo de 27 crimes, num rol que inclui, entre outros, abuso de poder, falsificação de documento e burla qualificada. Aos dois, na qualidade de coautores, são imputados 20 crimes, respondendo ainda o mais novo por outros cinco ilícitos, um deles de ofensa à integridade física qualificada. O mais velho está acusado por outros dois crimes. A acusação é do final do ano passado, mas só foi agora conhecida. Os guardas mantêm-se em prisão domiciliária, a aguardar o desenrolar do processo. Um dos episódios terá ocorrido na tarde de 6 Junho de 2024, quando Amirul Khan, do Bangladesh, que conduzia o carro de um amigo, foi mandado parar pelos dois militares. Após lhe pedirem os documentos, os polícias terão percebido que lhe faltava o comprovativo do seguro. Segundo a acusação, Amirul Khan disse que pediria ao dono da viatura que lhe levasse o documento, mas os GNR recusaram. Insistiram que o veículo apresentava várias infracções cujas multas podiam chegar aos 400 euros, mas admitiram a possibilidade de o imigrante pagar apenas 120, se o fizesse de imediato e em dinheiro “Se não pagares 120 euros, não te damos os documentos, vamos comunicar à AIMA [Agência para a Integração, Migrações e Asilo] para não te dar residência e te cancelar a carta de condução e para te mandar para o Bangladesh”, ter-lhe-á dito um dos militares, segundo a acusação. Amirul terá ficado apavorado e pedido perdão. Explicou que não tinha dinheiro e pediu para pagar no dia seguinte. Mas os militares terão insistido que tinha de ser na hora. Acabou por telefonar ao dono da viatura que veio com um amigo, noutro carro, que acabou também fiscalizado e alvo de um esquema semelhante. Neste caso, o problema era a falta de limpeza do veículo, ter pneus carecas e luzes foscas, defeitos que, segundo o Ministério público, a viatura não tinha. Para resolver as duas situações, as vítimas terão aceitado pagar 220 euros. No fim, um dos imigrantes terá pedido o comprovativo do pagamento e a resposta foi que para tal teria de pagar 450 euros. No fim, nova ameaça: “Vou tirar-vos o cartão de residência e mandar-vos para o Bangladesh.” No mesmo dia, terão abordado outro imigrante que seguia de bicicleta. Pediram-lhe a identificação e a vítima terá mostrado uma fotografia do passaporte que tinha no telemóvel, o que não satisfez os militares, que lhe exigiram 60 euros na hora. E nem o facto de a vítima ter explicado que, se entregasse aquele montante, ficava sem dinheiro para comer demoveu os guardas. No mês seguinte, o visado foi um nepalês que conduzia um carro velho, que não teria condições para circular, ter-lhe-ão dito os militares. Deixá-lo-iam seguir se desembolsasse 350 euros, ao que este acedeu. Os guardas fizeram um auto por a viatura circular sem o banco do condutor e o do passageiro estofados, infracções que não corresponderiam à verdade, mas que custaram 14,96 euros. Foi esse montante que os guardas entregaram na GNR de Tavira, tendo ficado com o restante. Num outro episódio, foi mandada parar uma carrinha de nove lugares e pedido aos ocupantes que saíssem e se colocassem em linha para mostrarem a identificação. Além de os militares terem reivindicado 300 euros ao condutor e 120 euros aos restantes, “num tom de voz elevado e uma postura corporal agressiva”, exigiram “que os imigrantes olhassem para o chão, humilhando e intimidando todos os passageiros”, diz. Já a um bengalês fiscalizado em Março de 2025, terão sido retirados 50 euros da carteira por um dos militares enquanto o outro o revistava. O procurador António Ventinhas, que assina a acusação, calcula a vantagem ilícita total em perto de 1800 euros e, para cada vítima, pede uma indemnização no valor dos prejuízos sofridos. Solicita ainda que os dois GNR fiquem proibidos de exercer funções, “uma vez que cometeram flagrante e grave abuso da função, bem como manifesta e grave violação dos deveres que lhe são inerentes”. Na GNR, que investigou o caso, corre um processo disciplinar.

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