Quem é Gil Canha, o homem
que fez tremer o PSD na Madeira?
DENÚNCIA Foi fundador do jornal O Garajau, vereador, deputado pelo PND, e protagonista
de ações políticas insólitas. É o denunciante que espoletou a investigação na Madeira
Em 31 anos, foi alvo
de 43 processos,
foi agredido, viu
incendiarem-lhe
carros, perdeu uma
"fortuna" num jornal
da oposição. Mas
nunca se calou e não
tem dúvidas de que
há uma "banalização
da corrupção
na Madeira".
Já fez campanhas em carros funerários, distribuiu dinheiro
de financiamento partidário
por idosos, apareceu com um
blindado na Quinta da Vigia (a sede
do Governo Regional da Madeira),
mas nunca nenhuma ação sua teve
tanto impacto como a denúncia que
fez em 2018 e que está na origem do
processo que levou à constituição de
Miguel Albuquerque como arguido
e à detenção do câmara do Funchal, Pedro Calado Gil Canha anda desde o final dos Anos 80 a
lutar contraoque diz ser"a banalização da corrupção" na Madeira e não
teme as consequências das denúncias que faz, apesar de ter sido alvo de
43 processos em 31 anos.
O denunciante da operação que
está a investigar a corrupção no Governo Regional da Madeira e na câmara
do Funchal nasceu em 1961, no Funchal. O pai tinha feito fortuna na Venezuela a mãe vinha de uma família de
industriais de laticínios, e Gil Canha e
os oito irmãos nunca tiveram problemas financeiros, mas foram habituados a trabalhar desde cedo. "Para o
meu pai nos dar dinheiro, tínhamos de trabalhar nas propriedades da família",
conta ao DN. Fazia a poda da vinha,
tratava das bananeiras, plantava "Ainda hoje gosto de agricultura."
Acabou por estudar História e
Ciências Sociais, nos Açores, trabalhando ao mesmo tempo como tenente-miliciano. Quando acabou o
curso ainda fez uma pós-graduação
nos Estados Unidos, mas em 1988 já
estava de volta à Madeira, onde fez
um curso de jornalismo no Cenjor e
começou por escrever crónicas para
o Jornal da Madeira.
O dinheiro vinha de administrar as
propriedades da família, mas a atração pelo jornalismo com a vontade de se
opor ao jardinismo eram cada vez
maiores. Tanto que fundou uma associação de defesa do ambiente, a
Cosmos." Havia grandes atentados
ambientais em termos de paisagem
e de ocupação da orla costeira."
A sua prosa era ácida e acabou por
ser "convidado a sair" do jornal da
Madeira. Passou-se para o Diário de
Noticias da Madeira, enquanto ia
abrindo negócios, como o Bar Amazónia (numa quinta que era do pai)
ou um ginásio.
Em 2002, juntou-se a Eduardo
Welsh para criar o jornal O Garajau.
"O Vicente Jorge Silva foi o nosso
mentor." O estrago para o Governo
de Alberto Joào foi grande. "Pusemos
o regime em alvoroço." Tão grande,
que começaram a chover processos
judiciais, com pedidos de indemnização que chegavam ao meio milhão
de euros. "Houve anos em que pagámos 15 mil euros só de custas, sem
contar com os advogados", recorda
Canha que admite ter gastado "fortunas" com o projeto.
O peso dos processos judiciais, uns
ganhos outros perdidos, determinou
o fim do jornal.
"Alguns procuradores viam que aquilo era uma perseguição abjeta, mas tivemos o azar de
cair em juízas ligadas ao regime.
Quem fechou O Garajau foi a justiça. Era impossível mantê-la"
O fiim do Garajau não ditou, contudo. o fim da oposição feroz ao PSD
na Madeira "Um grande amigo nosso o Baltazar Aguiar, teve a ideia de
usar o PND Partido da Nova Democracia, criado pelo ex-líder do CDS
Manuel Monteiro, para fazer uma
guerra mais eficaz".
As ações de campanha do PND na
Madeira passaram a ser de autêntica guerrilha. "Fizemos o ataque à
Quinta da Vigia com um blindado,
pusemos um zepelim a sobrevoar a
festa do PSD no Chão da Lagoa", recorda Canha. O estilo ousado compensou e o partido elegeu um deputado. "O Alberto João mexeu os cordelinhos e a oposição passou a ter
menos tempo para falar. Com um
deputado único, o PND só tinha três
minutos para falar."
Baltazar Aguiar acabaria por sair e
Gil Canha chamou José Manuel Coelho para o PND. "Ele tinha um caráter exuberante e um bocado radical.
Fizemos o diabo na Assembleia Regional." Coelho já tinha estado como
diretor d' O Garajau, "porque não tinha bens em seu nome", durante a
fase final do jornal e, mal entrou para o Pariamento Regional, deu que falar. Apresentou-se com um relógio ao
pescoço, que representava uma critica à falta de tempo dada à oposição
para intervir.
"Isto agora vai mudar"
"Começámos a ser perseguidos", assegura Gil Canha que diz que "Alberto loão reuniu uma espécie de tropa
de choque" para receber o PND,
sempre que o partido organizava um
protesto numa das suas inaugurações ou atos públicos. "Começou a
haver muita violência física", queixa-
-se, explicando que ainda hoje não
consegue mover totalmente o indicador da mão esquerda que, num
desses ataques, ficou com um tendão cortado por uma garrafa partida
'Também começaram a atacar o património. Tivemos carros queimados", diz o madeirense, que viu parte
da sua coleção de carros clássicos
destruída nessa altura. Um dos
agressores, um guarda prisional, acabou detido, "mas nunca disse quem
era o mandante".
Com este currículo na política, Gil Canha foi contactado pelo PS, que preparava uma candidatura à Câmara
do Funchal e queria unir aoposição.
Organizou-se uma coligação com o
PS, PND, BE e PTP e Canha chegou a
vereador do Urbanismo de Paulo
Cafôfo.
Acabaria contudo, por se demitir
(com outros dois vereadores), acusando o PS de usar a Câmara do Funchal para empregar boys. Antes, garante que teve uma pega com Cafôfo
por não querer revalidar a licença do Hotel Savoy (hoje alvo da investigação). "Senti a pressão", diz. recordando que Cafôfo também é alvo de um
inquérito (no qual nunca foi sequer
ouvido), mas nega ser o autor dessa
denúncia.
Depois disso ainda foi eleito deputado na Assembleia Regional por um
mandato. Entretanto, o PND foi extinto por não apresentar contas ao
Tribunal Constitucional por três anos
seguidos. E Gil Canha perdeu protagonismo... até à semana passada se
perceber que era o autor das denúncias que abalaram o PSD-Madeira.
"Isto agora vai mudar porque houve
detenção de pessoas", acredita.
