sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Partiu um gaulês de gema: José Lourenço de Gouveia e Freitas

 

Partiu um gaulês de gema: José Lourenço de Gouveia e FreitasNo passado dia 26, faleceu José Lourenço de Gouveia e Freitas.  O Senhor Lourenço, como sempre o tratei.

Esta nota constitui despretensiosa homenagem a um ‘homem bom’ de Gaula, que muito contribuiu para o conhecimento do passado da sua freguesia natal, convicto da sua utilidade para as gerações vindouras.

Como, uma vez, escreveu: «Os conhecimentos do passado, registados num qualquer volume, pequeno ou grande, são sempre uma vaga gigante que empurra o presente para o futuro, demonstrando, assim, que estes dois últimos fenómenos precisam do primeiro para serem o que poderão ser, ou o que poderão vir a ser.» (2000)

Nos anos setenta do século passado, conheci o Senhor Lourenço nas velhas instalações do Arquivo Regional da Madeira (ARM), no rés-do-chão do Palácio de São Pedro, na Rua da Mouraria. Sempre a pesquisar nos fundos dos registos paroquiais, testamentos e capelas. Interessava-lhe a história da sua freguesia, ou melhor, das gentes de Gaula.

O seu tempo era escasso para conversas laterais na sala de leitura do ARM. Pesquisava nas horas vagas, por ócio, no verdadeiro sentido desta palavra. Mas, de vez em quando, falava da sua freguesia e do seu concelho, do que já conhecia e do que lhe faltava saber.

Em 1992, desafiei-o a escrever para a revista ‘Islenha’. Algum tempo depois, apresentou-me um artigo sobre «A primitiva Matriz de Santa Cruz. A Capela de Jesus instituída por Gil Eannes» (n.º 11). Veio até 2000, a publicar por mais três vezes na revista que então dirigia: «A Batalha das Voltas do Porto Novo» (n.º 13), «A antiga Matriz de Gaula» (n.º 22) e o «O morgado das Caiadas» (n.º 26).

FOTOS: ARQUIVO DA FAMÍLIA DE JOSÉ LOURENÇO DE GOUVEIA E FREITAS

 Estes e outros artigos publicados na saudosa e, em má hora suspensa, revista ‘Origens’, editada pela Casa da Cultura de Santa Cruz, entre 1999 e 2010, resultavam de apurada investigação documental e recolhas no terreno, contribuindo para o conhecimento do concelho de Santa Cruz, em geral, e da freguesia de Gaula, em particular. No último número desta revista, o Senhor Lourenço publicou um artigo intitulado «A Lombada de Boaventura de Santa Cruz» (n.º 21).

 Fruto de mais de 25 anos de pesquisas arquivísticas e orais, editou um volumoso estudo dedicado às ‘Famílias de Gaula’ (1999). Esta obra, com as contingências inerentes a todas as genealogias, revela-se indispensável para a compreensão do tecido social daquela freguesia e, pela sua natureza, extravasa o âmbito geográfico que o título sugere. Mais do que genealogias, o estudo divulga informações preciosas sobre muitas das personalidades mencionadas, que nos permitem conhecer o seu papel na localidade e também na sociedade madeirense. O livro mereceu uma segunda edição em 2005.

 Nascido em 17 de Julho de 1938 e falecido no passado dia 26, José Lourenço de Gouveia e Freitas publicou ainda, no domínio da História e do Património Cultural: ‘Gaula: a Terra e a Gente’ (2000) e ‘Levadas e levadinhas de Hireus da freguesia de Gaula’ (2003). Em 1995, foi co-autor de ‘Moinhos e águas do concelho de Santa Cruz’, com o capítulo «Serras, levadas e moinhos».

 No campo da Literatura, publicou: ‘Caminhando: poemas de Orfeu a Zeus (2001), sob o pseudónimo Juzé da Rima Ateia, ‘Memórias das pedras do sino: lendas, contos e histórias’ (2002) e ‘Imaginário: histórias em versos contados a Filomela’ (2010). Organizou ainda uma ‘Antologia de poetas gauleses’ (2011).

 Colaborou também no Diário de Notícias, da Madeira.

 No aspecto da cidadania, salientamos que José Lourenço de Gouveia e Freitas foi membro da primeira Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Santa Cruz, depois da Revolução do 25 de Abril. Posteriormente, exerceu as funções de deputado municipal e vereador no seu município, eleito pelo Partido Socialista.

 Gaulês de gema, o Senhor Lourenço deixou-nos, depois de um longo e doloroso período afastado da investigação e das lides editoriais. Não tenho conhecimento (nem tenho que saber) das suas crenças sobre a vida depois da morte. Mais de uma vez me disse, que deplorava ver Cristo preso na cruz. Interpretei que o seu humanismo reprovava a condenação de um justo, exposto a tamanha humilhação, exibida universalmente.

 Partiu o homem que falava das gentes de Gaula, de tempos remotos e de um presente desconhecido, como se as conhecesse bem e com elas convivesse. De facto, conheci-as, dos testemunhos da documentação e dos registos orais. Talvez agora, tenha a possibilidade de as encontrar e continuar a conversar sobre séculos e séculos de vivências na freguesia, que o ilustre autodidacta tanto prestigiou. Mas isto não passa de mera suposição. Já a sua obra deverá ser reconhecida e permanecerá viva, a ensinar às novas gerações histórias de um quotidiano, que o Senhor Lourenço estudou e registou com amor pelo lugar onde nasceu e se criou. (Nelson Veríssimo)

7 comentários:

  1. O cuelho Vai roubar as flores ao cemitério. Olho nele.

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    1. As do Lourenço já as papou

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    2. Vendeu aos acompanhantes do funeral e depois foi lá buscá-las para vender de novo

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    3. O cemitério de Gaula tem guarda nocturno?

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  2. Muito gosta o Coelho de «roubar» as notícias do FN

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    1. Que tal o Emanuel Bento fazer um poema fúnebre ao amigo gauleiro do Coelho?

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  3. Primeiro gauleiro a dizerem que era boa pessoa 3 dias depois de morrer.

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