quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Francisco Louçã desiste da luta do proletariado e dedica-se actualmente à reflexão e à escrita. Acaba de escrever A IMAGINAÇÃO

 A alienação, que é a grande força contrária à imaginação, significa atrofiar e submeter- -nos do ponto de vista mercantil e do ponto de vista discursivo. É combatida com a capacidade de imaginação do que não existe.
Para Francisco Louçã, no seu novo livro, aquilo que distingue os huma Pnos de outros animais é a capacidade de imaginar. Conseguir pensar naquilo que não existe é uma pré- -condição para poder ambicionar um mundo diferente. No seu novo livro, Imaginação, Cores, Deuses, Viagens e Amores – o primeiro de dois volumes –, começa-se pela pintura, fala-se da invenção das religiões, aborda- -se as grandes viagens, em que a nossa imaginação se confronta com a realidade do outro, e acaba-se nos amores. É um livro erudito e apaixonado que começou a ser escrito durante a pandemia. Se precisamos da imaginação para sermos humanos e mudar o mundo, vale a pena aprofundar a sua situação no tempo em que estamos. Vivemos num tempo em que se recuperam os infernos dos anos 30 do século XX. Necessitamos de velhas e novas coisas que nos façam sonhar mais alto. Segundo Mark Fisher, já temos tudo aquilo de que precisamos para escapar do realismo capitalista – essa camisa de forças que nos mantém obedientes e sem imaginação; o invasor externo que restringe as nossas mentes, os nossos corpos e a realização do nosso ser. Comecemos então a imaginar.

 Nos dias de hoje, é mais fácil imaginar uma invasão extraterrestre, uma destruição e uma catástrofe do que uma simples mudança histórica do nosso tipo de sociedade. Estamos condicionados a uma imaginação limitada?

 Este volume não trata – mas o segundo que publicarei depois o fará – das utopias e das distopias, que são, na expressão do movimento social do século XIX, mesmo antes, a partir do século XVI, uma forma de imaginação da organização da sociedade. As utopias originais, que se prolongam depois e que têm consistência, são poderosíssimas sobre a forma de organização de sociedades futuras, passadas, presentes. Algumas, invocando muito a tecnologia, como H. G. Wells e Júlio Verne, outras, na base, digamos, da completude humana, do desenvolvimento das potencialidades de comunicação humana e, portanto, de uma sociabilidade aberta, livre. Muitas delas são muito libertárias do ponto de vista erótico, outras são muito afirmativas do ponto de vista da fraternidade social.

O segundo volume será sobre Ciência, utopias e vida quotidiana. A minha questão é se a nossa sociedade atual parece viver num presente eterno e tem uma espécie de captura da imaginação? 

Neste primeiro livro, o que eu trato é a imaginação como essência humana. São palavras um pouco carregadas do ponto de vista da tradição cultural em que me insiro, mas que creio que correspondem bem à descrição de uma capacidade humana específica de imaginar, imagens ou conceitos, o que não existe e pode conceber situações, factos, emoções, acontecimentos e processos novos. Creio que essa faculdade é o poder humano mais característico. Mesmo em qualquer condição histórica e social.
Como surge a imaginação?

Temos uma capacidade – aparece, aliás, tardiamente no homo sapiens – de conjugar imagens diferentes, das quais os vestígios arqueológicos são relativamente recentes. Parece que a prova mais antiga é a estátua de um homem com a cabeça de um leão, de há cerca de 40 mil anos. Qual a razão de que a partir de duas imagens conhecidas independentes se combinam as duas e imagina-se uma que não existia? Está a contar-se uma história. Na verdade, a criação da linguagem é a criação de uma codificação da instrução da imaginação. É uma potência que se desenvolveu e que, a partir daí, ultrapassou fronteiras. Gabriel García Márquez diz, naquela primeira página extraordinária dos Cem Anos de Solidão, que quando não conhecemos o nome às coisas, apontamos para as imagens. É uma capacidade que se desenvolveu ao longo do tempo. Na verdade, eu creio que a acumulação cultural é o que distingue os seres humanos dos outros animais.  Mas a imaginação sofre tentativas sistemáticas de ser aprisionada ou condicionada. Isso vem desde o início. Vejamos o caso da religião. Imaginar o trovão, criar o deus do trovão, dar nomes a coisas que não conhecemos, está no início da religião. A sua estruturação como instituição é muito mais tardia.

Analisa o caminho para o monoteísmo. Esse processo demora séculos. Qual a razão por que tudo não ficou como estava?
Porque é um processo da instituição do poder. Isto é a história do judaísmo. Eu não conheço suficientemente as outras religiões mais antigas, como as religiões védicas, por exemplo, ou outras formas de expressão que podem ter histórias diferentes. Na herança religiosa do Mediterrâneo, os sumérios, os assírios, os mesopotâmios e todos os outros, que depois vêm a ser incorporados na Bíblia hebraica, existem processos de consolidação de conhecimento e de relações de poder. A ocupação da Samaria pelas tropas assírias em 729 AEC determinou que Jerusalém se tornasse a única capital do judaísmo e que o templo de Jerusalém se tornasse o mais importante e referencial. Isso vai reforçar a capacidade dos seus sacerdotes de serem condutores da política e da vida social. E, para isso, vão nesse contexto construir o monoteísmo. O monoteísmo é muito tardio, provavelmente depois do regresso dos judeus do exílio da Babilónia [537 AEC]. 

Pode dizer-se que o cristianismo é de facto construído por Paulo de Tarso, que faz várias coisas. Uma delas é uma espécie de princípio do universalismo, em que a religião não é só para os judeus, é também para os gentios, não é só para os senhores, é também para os escravos. Portanto, criase aí uma igualdade perante Deus e perante Cristo. Mas, simultaneamente, é a afirmação de um conjunto de princípios conservadores que, até lá, não estavam inscritos nos textos.
Paulo faz três coisas que são poderosíssimas. Primeiro, inventa a figura de Cristo. Portanto, torna Jesus o Messias. Coisa que, segundo os textos evangélicos, uns afirmam, outros duvidam e, ainda, outros recusam. Mas Paulo consagra-o como um Cristo, que é o Messias. E, portanto, torna-o a figura dominante desse universo. Em segundo lugar, viaja. Escreve em grego. E divulga através das suas cartas. Segundo Frederico Lourenço, há muitas cartas que não são conhecidas e outras que são fusão de várias. As cartas são instruções, incluindo sobre o modo de vida. Portanto, codificando o que são as comunidades paulinas do ponto de vista da sua liberdade. Elas não são as igrejas de hoje. Não existe um conceito de igreja, como o conhecemos. Existe é uma assembleia que pode ser dirigida por uma mulher, numa celebração em comum. Mas Paulo dá-lhe um conjunto de instruções que criam um padrão de comportamento. E, sobretudo, em terceiro lugar, derrota a herança judaica. Combate a ideia de que a religião é o sinal distintivo de uma tribo e de uma nação. Que era o facto da existência da circuncisão que determinava a pertença judaica. Ele recusa isso. Há uma assembleia em Jerusalém, que ainda é presidida pelo irmão de Jesus, em que chegam a um acordo com Pedro – está contada nas próprias cartas de Paulo e nos Atos dos Apóstolos – em que dividem o mundo entre Pedro e Paulo que fica com os gentios. Ele afirma o universalismo. 
Depois, esse universalismo é cindido a partir do momento em que o cristianismo é adotado pelos romanos como religião do Estado? 
Isso é muito tardio e, na verdade, corresponde a uma incorporação da Igreja Cristã como parte do Império. Com características muito diversificadas. Quer dizer, o concílio que consagra, que resolve as disputas, é dirigido pelo imperador. É o imperador que o convoca. É o imperador que escolhe quem é que está presente. O  mesmo imperador que aceita o cristianismo como religião oficial do império determina leis sobre o divórcio. Facilita a possibilidade do divórcio e, portanto, ele é alheio até à própria instituição doutrinária. Há Papas que duram dois anos. Há um Papa que é eleito e que nem sequer era batizado. Que nem era sequer cristão. Mas, sobretudo, há uma luta de poder muito intensa, que está muito articulada com o Império e as suas divisões, mais tarde, com os vários poderes europeus, ao tempo das sucessivas dinastias, dos assassinatos, das conspirações entre Papas.

É uma disputa que está sempre presente na religião cristã? Este conflito entre a Igreja e os milenaristas, para quem o discurso de Paulo abre a possibilidade da criação do reino dos céus na Terra. 

Paulo é um dos iniciadores do milenarismo. Que depois ganha uma componente popular. Sobretudo, com o Thomas Müntzer, no tempo de Lutero, no século XVI. Ao longo do tempo, há algumas dissidências que são muitíssimo poderosas. Os cátaros, no sul de França e no norte de Itália, que chegam a ser maioritários nas suas regiões. Há cruzadas para reconquistar Jerusalém e há cruzadas contra os cátaros. O que é extraordinário é que a capacidade dessa universalização de crença, digamos, de criar um discurso de autorreconhecimento de comunidade a partir de uma narrativa religiosa está associada à capacidade que a religião cristã e outras religiões têm também de responder à transcendência da morte. 
O medo da morte é a primeira questão e primeira imaginação? 
 É uma das primeiras imaginações. Na verdade, pensam tarde. Os vestígios arqueológicos que há é de que as primeiras sepulturas têm cerca de 500 mil anos. E as sepulturas em que há alguma indicação de evocação dos mortos, ou seja, a respeito dos mortos, que não sabemos se têm uma determinação divina, mas que são pelo menos uma celebração dos mortos, são muito mais recentes. Portanto, a morte, que é o facto da vida desde sempre, suscita pelo menos a sua expressão, que é o que nós podemos ver em registos arqueológicos. Não há narrativas sobre isso, não há narrações de uma forma muito diferenciada ao longo do tempo, mas é evidente que ela está presente e, portanto, imaginar o além é, porventura, uma das primeiras formas de expressão. Outras, primeiro, terão sido como imaginar a comida. Imaginar o alimento, o instinto amoroso. Mas creio que a primeira forma de poder é a religião.
Um personagem que atravessa o livro todo é Gauguin. Recentemente foi quase cancelado. Houve um movimento para o retirar dos museus, dado o seu comportamento
 Não sabia. Gauguin era um pintor genial, era um pedófilo, era um homem autocentrado.

Mas na altura aquilo era considerado mesmo pedofilia? 
Era. Eu tenho uma nota sobre isso. Embora as relações amorosas que ele conta com adolescentes possam ter sido uma fantasia. Não há nenhuma evidência, não há nenhuma comprovação exterior delas. Até no caso da Amana, que podia ter 13 ou 14 anos quando o teria conhecido. Mas é preciso dizer que nessa altura a lei de França que se aplicava, e aquilo era uma possessão francesa, era a lei pós-napoleónica: o Napoleão subiu a idade de consentimento para o casamento e para as relações sexuais, e nesse caso até a suposta relação com Amana estaria em infração legal. Ele vangloria-se desse tipo de relações, como, aliás, muitos outros. Anteriormente há até casamentos, [Santo] Agostinho esteve para se casar com uma rapariga de 10 anos, mas isso foi muito antes do século XIX em que viveu Gauguin.
 E é extraordinário que o Taiti aparece como uma espécie de lugar de fantasia sexual.
Sim, porque é descoberto muito  tarde, é descoberto só no final do século XVIII, por navios que vão para a Austrália, e o contacto dos marinheiros era de uma enorme disponibilidade social, amorosa, de permissividade e simpatia das comunidades locais, como eles contam. Quando Gauguin lá chega, que é já no final do século XIX, já não encontra o que a imagem lhe prometia. É uma ideia muito mitificada, como contava Pierre Loti, um dos grandes escritores ligados a essa época. Hoje é um autor esquecido, na altura era um autor muitíssimo popular, fez livros sobre muitas regiões, escreveu aqueles romances sobre o Taiti, precisamente sobre o encantamento amoroso, a disponibilidade. E isso tem um enorme impacto na imaginação.
Na parte das viagens, verificamos que elas são, de facto, um encontro com o outro. Mas é um encontro tão real como imaginado? 
As primeiras grandes viagens têm grande impacto na imaginação. Plínio, dito O Velho, por exemplo, faz viagens, mas inventa a maior parte delas, no século I da nossa Era Comum. Mas tem um efeito extraordinário.
 Quando Cristóvão Colombo viaja, leva o livro de Plínio. Ainda acreditavam nos monstros que ele tinha descrito. Quando surge a carta de Prestes João, que é uma falsificação, é interpretado como uma confirmação daquilo que tinha relatado Plínio. Depois há viagens reais. Houve Rubruck, Giovanni Carpini e, sobretudo, Marco Polo. Se bem que, quando eles voltam, têm grande impacto no livro de imaginação. Contudo, na época, o livro mais divulgado sobre viagens é o de John Mandeville, que era tudo mentira. A atração sobre a fronteira, sobre o desconhecido, sobre as faunas, mas sobretudo os grandes poderes, a sumptuosidade do Oriente, da China, os tártaros, a corte mongol.

Simultaneamente, há uma parte da viagem que é imaginada e, às vezes, totalmente falsa, uma espécie de crítica em relação ao que se vivia?
Isso é claro em textos como a Utopia, de Thomas More, que é a descrição de uma ilha fantasiosa, que é parecida com Londres, na verdade. Tem os 54 bairros de Londres, o tipo de justiça que havia em Londres, o mesmo tipo de estrutura, discute os males das instituições britânicas e como essa ilha seria uma alternativa.
Quando estão a discutir uma sexualidade livre, também estão a criticar a ausência de sexualidade livre. Não é apenas Thomas More que o faz? 
Embora Thomas More o faça também. Ele sendo um católico conservador, no entanto, permite-se na Utopia a alguma exaltação do deleite. Inventa aquela cena – por acaso, foi cortada na edição portuguesa durante a ditadura – em que antes do casamento era obrigatório o noivo e a noiva verem-se nus para poderem avaliar-se mutuamente. A ideia dessa cena está muito presente em muitas utopias a partir daí. Como a ideia das viagens ao Oriente para buscar uma sexualidade libertada. O que Flaubert conta da ida ao Egito, a descoberta dos bordéis masculinos, o que ele conta aos seus correspondentes é essa exaltação deslumbrada de um mundo em que se podia ser sexualmente dominante. Não é bem livre, porque era dominante, mas que fazia parte do proibido na sociedade ocidental.
Cita David Graeber, em relação à publicação do discurso de um índio, em que ele defende uma certa plasticidade das formas de organização política e das formas de organização de poder, que não seguiriam um caminho único.
 O argumento de Graeber é que a revolução agrícola, a domesticarão dos animais e o início da capacidade de criar comunidades urbanas relativamente grandes – chega a falar de comunidades de dez mil pessoas – não corresponde logo à formação do Estado. E isso contraria as visões tradicionais da antropologia, e as teses que Marx e, sobretudo, Engels retomaram de antropólogos do seu tempo. E isso é muito discutido porque, evidentemente, os vestígios dessas comunidades, que seriam pequenas microexplorações relativamente próximas umas das outras com alguma relação de vida comunitária, são escassos. De qualquer forma, o argumento deles é muito poderoso e plausível desse ponto de vista. Portanto, o facto de começar a haver uma produção de excedente agrícola não se traduz imediatamente na estruturação das classes, como vemos acontecer mais tarde. Há o conhecimento, esse bem fundamentado, de comunidades, por exemplo, de caçadores no Alasca, no norte do Canadá e na Gronelândia que viviam divididos em duas épocas. Pequenos grupos de caça com muita autoridade e com uma hierarquia muito definida que saíam para caçar na época em que era possível. E uma vida comunitária, incluindo uma vida sexual de parcerias múltiplas, quando estavam refugiados numa grande tenda comum para suportar o inverno. Portanto, há histórias muito diferenciadas que fazem parte desse processo histórico. E as sociedades evoluíram, na verdade, construindo o poder. Não numa sucessão linear como nos habituámos a pensar.
O que o levou a escrever este livro, tão aparentemente fora da sua área da economia e da política, e a trabalhar durante anos nele? 
Eu levei seis anos a escrever este livro. Comecei nos primeiros dias da pandemia. Na verdade, com muitas coisas mais antigas. É o Périplo, do Miguel Portas, que me inspira e me dá os primeiros conhecimentos que  tive sobre as lendas e a cultura suméria. São leituras de 2009, se não me engano. Muitas conversas com o Michael Löwy, e com muitas outras pessoas, como Eduardo Lourenço, sobre a religião, e ainda com Maria de Lourdes Pintasilgo, resultaram em ideias que fui anotando em cadernos. Quando comecei a escrever, era porque queria responder a esta pergunta: o que é que nos distingue dos outros animais, com os quais temos um património genético tão amplamente comum?
Desde a mosca-da-fruta... 
É tão extraordinário que possa explicar a evolução dos seres humanos como o ser mais perigoso e o mais fascinante que existe no planeta. Eu creio que a resposta para isso é a imaginação. E, portanto, procurei estudar algumas das suas expressões. Haverá outras. Escrevo sobre as viagens, os amores, a religião, as cores, e a sua expressão também na literatura. Portanto, é através de um mapa, de um roteiro de expressões da imaginação, que quis procurar demonstrar quão poderosa ela é nessa característica única que é instruir a nossa cultura e criar uma acumulação cultural. No fundo, é dizer que os seres humanos não estão destinados. Nós não estamos obrigados à catástrofe da submissão.  e da uniformização. A alienação, que é a grande força contrária à imaginação, significa atrofiar e submeter-nos do ponto de vista mercantil e do ponto de vista discursivo. É combatida com a capacidade de imaginação do que não existe e com a vontade do que não existe.
Mas não estamos condicionados, como naquela célebre citação de Marx – “A tradição de todas as gerações mortas preenche como um pesadelo o cérebro dos vivos” – em que este afirma que a Humanidade faz a sua própria História, mas não a faz em circunstâncias que ela própria escolheu? 
Sim, claro. Nós imaginamos num contexto limitado. Mas podemos imaginar o que não existia. É a história do homem com a cabeça de leão. Isso não existia, mas foi imaginado. Pode-se, portanto, ultrapassar as fronteiras dos condicionamentos em que vivemos. Gauguin fazia isso: como eu só tenho um quadro para pintar a Natureza, e a Natureza é muito maior, ponho um quilo de verde para exprimir o verde. Portanto, torno os violetas, os lilases, o vermelho, como Vieira da Silva dizia no seu testamento: quero um vermelhão que corra como sangue.
 Essa ideia de que temos imaginação e não estamos condenados a viver a vida que vivemos é o que o fez escrever?
É isso o meu ponto de partida. Exatamente. Quero que as pessoas que leem possam encontrar formas muito poderosas de representação de imaginação. Mas que representem esta ideia de que a imaginação humana, que cria formas e conteúdos completamente diferentes, é uma extraordinária potência.
Mas ela pode repetir aquilo que já imaginou previamente como emancipação ou terá de tomar obrigatoriamente novas formas?
Isso só a História o dirá. Mas é muito provável que vá inventando formas novas. Sendo que há características que são elas próprias muito permanentes. Se a sociedade humana se baseia no trabalho, a emancipação é sempre a emancipação do trabalho. É sempre a emancipação da penosidade da exploração, da alienação da perda de relação com o seu próprio produto, com a sua própria vida, com a sua própria existência, com a imposição de fantasias mercantilizadas que destrói a relação amorosa ou que destrói a capacidade de viver em comunidade.
Estamos a viver uma época que talvez não seja mesmo fulgurante. Parece que muitos dos nossos medos estão inscritos nas nossas entranhas. Como é possível escapar a isso? 
Nós inscrevemos-nos a nós próprios. Temos uma capacidade genética de falar, mas aprendemos uns com os outros a falar. Portanto, a linguagem não está inscrita nos genes. Isso dá-lhe uma imensa potencialidade.
Mas não contraria a ideia de Chomsky de que a linguagem encaixa numa espécie de estante pré-existente? 
Acho que não tem razão. Mas os linguistas que discutam. De qualquer modo, é incontestável que construímos a linguagem. E conseguimos transformá-la em escrita. Isso não está inscrito nos genes. Codificamos a escrita e ao fazê-lo permitimos uma grande capacidade de comunicação. Muitas outras formas de comunicação surgiram depois, mas a escrita é a tecnologia mais extraordinária que existe. Que, aliás, sobrevive como base de todas as outras tecnologias de comunicação. O Twitter continua a ser escrita. As formas mais perversas, mais alienadas de comunicação, as mais mercantilizadas continuam baseadas na tecnologia da escrita, que é uma forma de codificação da linguagem. Essa ultrapassagem de todos os limites segue caminhos diferentes. É sempre disputada e transformada ao longo do tempo. O facto de a linguagem ser um modo de instruir a imaginação e de expressar a acumulação cultural não contradiz o facto de ser feito em relações de poder organizadas. Um dos exemplos, aliás, é a própria celebração das missas na Igreja Católica. Até ao século XX, eram feitas em latim e com o padre virado de costas a memorar umas coisas que provavelmente nem ele sabia o que significavam e que grande parte das pessoas não podia ouvir. Era uma mera exibição de poder. Era uma forma de comunicação da figura do poder.
Essa opacidade é de alguma forma compensada pelas imagens que temos nas igrejas? 
Durante muito tempo havia à porta das igrejas uma bíblia ilustrada, que era a Bíblia Pauperum, que foi concebida, como o nome sugere, para que os pobres admirassem as gravuras. Há uma grande polémica sobre as imagens, que é muito importante no final do século I. Mas a ideia de que as igrejas devem ser escuras ou soturnas, que devem ter vitrais que  de repente iluminam ou que devem ter imagens bíblicas foi muito discutida durante muito tempo. Por exemplo, Lutero interveio contra os seus próprios apoiantes a favor da instituição das imagens. Porque eles interpretavam algumas palavras bíblicas como sendo proibido representar a divindade e representar o próprio ser humano. Que, aliás, é feito à imagem e semelhança da divindade. Ele intervém contra isso porque quer criar uma imaginação religiosa. Quer que as pessoas imaginem um deus. Em Bizâncio, discutiu-se com Roma se deviam utilizar ou não as imagens. Essa discussão demorou cerca de 100 anos. Mas foi resolvida no Ocidente com a afirmação de que era preciso cultivar a imaginação. Criar imagens que as pessoas reproduzissem como sendo o seu lugar de devoção e submissão. Quando, por exemplo, Miguel Ângelo pinta a Capela Sistina, há um Papa que decide destruí-la. Acabou por não o fazer. Houve apenas uns sexos que foram ocultados e algumas outras modificações. Criou-se uma imagem do divino: Deus ficou um ancião de barbas brancas. Jesus passou a ser um europeu ocidental de pele clara. Quando, evidentemente, era um semita que hoje seria tratado como um imigrante ilegal.
teto da capela cistina
A escrita é a tecnologia mais extraordinária que existe. Que, aliás, sobrevive como base de todas as outras tecnologias de comunicação. O Twitter continua a ser escrita
Na Capela Sistina, criou-se uma imagem do divino: Deus ficou um ancião de barbas brancas. Jesus passou a ser um europeu ocidental de pele clara. Quando, evidentemente, era um semita que hoje seria tratado como um imigrante ilegal.

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