sábado, 25 de julho de 2026

Na Madeira o Zé povinho quer é Rally e festas . Palhaçadas e piadas para rir, o resto não interessa

 

A malta quer ser desinformada, se tiver piada, ainda melhor.

I

mpressionante como agora ainda mais passamos a viver num mundo paralelo. A expressão romana “Panem et Circenses” continua assustadoramente atual, mas na Madeira de hoje ganha contornos ainda mais peculiares, por cá, parece que o “circo” basta, mesmo que o “pão” escasseie ou venha com o preço inflacionado.

Existe uma apetência crescente e notória da população local em consumir puro entretenimento, aforismos fáceis e conteúdo mastigado, em detrimento do consumo de informação séria, escrutínio político ou jornalismo de investigação. O madeirense aborrece-se com coisas sérias e procura o lúdico. A busca pelo riso rápido, pelo meme, pela piada fácil e pelo escárnio superou quase por completo o interesse por aquilo que realmente afeta a vida do cidadão no seu dia a dia, desde a habitação aos custos de vida, passando pelas decisões ambientais e governamentais.

Esta apetência traduz-se em traços marcantes da nossa sociedade atual:

  • O triunfo da piada sobre o facto: se uma notícia ou publicação for falsa ou desinformadora, mas vier acompanhada de uma piada audaz ou de um tom cómico, a probabilidade de ser partilhada e celebrada aumenta exponencialmente. A verdade tornou-se secundária perante a capacidade de fazer rir.

  • A fuga ao mundo real: discutir orçamentos, licenciamentos, transparência de investimentos ou políticas públicas dá trabalho e exige reflexão. O entretenimento leve surge como uma anestesia social, uma bolha confortável onde o Madeirense prefere refugiar-se para não enfrentar a complexidade da realidade à sua volta.

  • A cultura do "Pão e Circo" (mesmo sem pão): paz, pão, povo e liberdade é cada vez mais mentira na Madeira. Aceita-se a festa, o evento, a arraial e o aparato cor-de-rosa com um entusiasmo quase hipnótico. A ilusão de abundância que os palcos e os festivais transmitem consegue, sistematicamente, abafar as carências reais do dia a dia e apagar do debate público as perguntas que deviam ser feitas aos tomadores de decisão.

Quando uma sociedade escolhe ativamente a desinformação, desde que esta venha disfarçada de humor, o escrutínio desaparece e a exigência cidadã dissipa-se. E, enquanto a plateia se diverte a olhar para os palhaços do circo, a realidade lá fora continua a ser decidida à porta fechada por quem bem entende.

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