domingo, 24 de maio de 2026

João Abel Manta, o artista guerrilheiro

 1928-2026 Pintor, ilustrador, arquiteto, cartunista, é conhecido por causa dos seus cartoons políticos de crítica à ditadura, tendo tido uma intervenção mais vasta nas artes.
 Aprendemos a desenhar como aprendemos a ler. Por isso a célebre resposta de Picasso à pergunta “quanto tempo demorou até conseguir fazer esse traço?” é, de certa forma, inteligível para qualquer pessoa. “Uma vida inteira”, terá respondido Picasso. Percebemos que o desenho é uma técnica que se adquire, mas a resposta demonstra uma contradição inesperada: a humildade do génio. Como se Picasso renegasse a ideia de talento e desse toda a relevância à prática, à técnica, à repetição, à experiência. João Abel Manta, pintor e cartunista, conta no documentário “A Torre de João Abel Manta: O Imaginador” que o pai, o pintor Abel Manta, tinha ficado muito orgulhoso quando o nome do filho apareceu ao lado do nome de Picasso num catálogo de uma exposição coletiva em Berlim e andava a exibir a página aos amigos n’A Brasileira. Era um reconhecimento importante do talento do filho estar em tão genial companhia. João Abel Manta morreu a 15 de maio, em sua casa, em Lisboa, aos 98 anos. João Abel Carneiro de Moura Abrantes Manta nasceu a 29 de janeiro de 1928 em Lisboa, filho único do pintor Abel Manta e da pintora Clementina Carneiro de Moura. A família vivia no último andar de um prédio na Rua de São Bernardo, em Lisboa, frequentado pelos amigos dos pais de João Abel Manta, escritores e artistas. Muito miúdo, foi dito por um médico que tinha de apanhar sol, por isso o pai decidiu ter uma casa em Santo Amaro de Oeiras. Aí a criança teve contacto com outro tipo de pessoas, sobretudo com alemães filhos de judeus que ali se tinham refugiado fugidos ao nazismo. Tanto o pai como a mãe tinham a mania das viagens e levavam sempre o filho com eles. Começou muito cedo, tinha a criança 5, 6 anos, e o destino preferido era Paris, onde desenhavam em escolas de artes, levando sempre o filho, que se entretinha a desenhar sentado no chão. Um dia, a mãe levantou-o do chão e disse-lhe para começar a desenhar de pé no cavalete. O pai também tinha orgulho no filho, embora não gostasse muito que fosse pintor, além de não gostar “dos bonecos” que a dada altura começaria a desenhar.Até chegar às Belas-Artes, não exibia a sua consciência política, mas aos 18 anos faz um desenho notável de um homem morto num fuzilamento e uma criança que desenha com o seu sangue a figura de um homem que protesta. Quando entra na Escola Superior de Belas--Artes de Lisboa, torna-se “um guerrilheiro”, de acordo com as suas palavras. Conhece muita gente presa, gente com a vida destruída. É preso em 1948, num momento já de grande envolvimento político anti-Salazar. Termina o curso de Arquitetura em 1951 e poucos anos depois começa a desenhar cartoons que são publicados no “Diário de Lisboa” e no “Diário de Notícias”. A sua atividade como cartunista intensifica--se entre 1969 e 1975, sendo sobretudo ativo no momento logo a seguir ao 25 de Abril, fazendo caricaturas que marcam o início da democracia em Portugal. Juntamente com Alberto Pessoa e Hernâni Gandra, é responsável pelos projetos do Conjunto Habitacional na Avenida Infante Santo, em Lisboa, e da Associação Académica de Coimbra. A arquitetura é a sua atividade principal ao longo da década de 50, mas depressa conclui que trabalha melhor sozinho, “sem dar satisfações a ninguém”. Multifacetado como Ulisses, tanto produz ilustrações para cartazes como para selos e ilustra vários livros, entre os quais “A Cartilha do Marialva”, de José Cardoso Pires. Desenha a calçada da Praça dos Restauradores e o painel de azulejos imponente da Avenida Calouste Gulbenkian. Desenha tapeçarias para o Salão Nobre da sede da Fundação Calouste Gulbenkian e cria os cená rios para “A Relíquia”, de Eça de Queiroz, numa encenação de Artur Ramos, em 1970. Em 1961 ganha o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian com “O Ornitóptero”, um desenho extraordinário que nos remete para a queda de Ícaro, com personagens viradas de costas (talvez as que mais desprezava). A partir da década de 80 dedica-se à pintura e participa em inúmeras exposições coletivas e individuais. Em 1979 recebera a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. A 25 de abril de 2004 é agraciado com a Ordem da Liberdade. “Um poeta nasce poeta. Não acredito que um tipo nasça pintor. É possível, com a vida, um tipo comum tornar-se um grande pintor”, dizia. O mistério, então, é haver um só Picasso; um só João Abel Manta.

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