A Unbabel recebeu 13,3 milhões de euros do PRR e acabou insolvente. Se a história terminasse aqui já seria suficientemente interessante. Mas Portugal raramente desperdiça uma boa oportunidade para tornar uma história absurda ainda mais absurda.
Não estamos a falar de uma empresa qualquer. A Unbabel foi apresentada como uma das grandes promessas da economia portuguesa. Carlos Moedas elogiou-a repetidamente e a empresa tornou-se uma das parceiras fundadoras da Unicorn Factory Lisboa, o projecto criado para transformar Lisboa num centro europeu de inovação, produzir as futuras estrelas do empreendedorismo nacional e atrair as chamadas empresas unicórnio, startups avaliadas em mais de mil milhões de dólares.
A ideia era simples: pegar em dinheiro público, misturá-lo com palavras como "inovação", "disrupção", "ecossistema", "inteligência artificial" e "empreendedorismo" e esperar que aparecessem unicórnios. No caso da Unbabel apareceu uma insolvência.
Ao todo, estava previsto receber um financiamento de 14,8 milhões de euros, sendo que recebeu 89,6% deste, ou seja, 13,3 milhões da bazuca europeia. A confiança era tanta que chegou a liderar um consórcio de Inteligência Artificial financiado pelo PRR com 75 milhões de euros. O curioso é que nada disto aconteceu apesar do risco. Aconteceu sabendo-se perfeitamente que o risco existia. As estatísticas sobre startups são conhecidas há décadas. Os dados do Eurostat mostram que cerca de metade desaparece nos primeiros cinco anos de vida. Estudos da Harvard Business School apontam para taxas de insucesso ainda maiores quando se analisa o retorno esperado pelos investidores. Os investidores sabem disso. Os gestores sabem disso. Os governos também.
Diziam que tudo corria maravilhosamente bem até deixar de correr.
Em Agosto de 2025, a empresa foi vendida à norte-americana TransPerfect. Na altura falou-se de crescimento, expansão e aumento de escala. Vasco Pedro, cofundador e CEO da Unbabel, garantiu que a operação permitiria aumentar significativamente a dimensão da empresa. Um mês depois começaram a surgir notícias bastante menos optimistas. Segundo várias informações divulgadas na altura, a venda foi realizada por um valor suficientemente baixo para provocar perdas totais em alguns investidores. Aquilo que tinha sido apresentado como um passo natural na evolução da empresa começou rapidamente a parecer uma operação de recurso.
Em Dezembro de 2025, um dos investidores, o fundo espanhol Buenavista Equity Partners, avançou para tribunal com uma acção de 12,75 milhões de euros relacionada com a venda. Em Março deste ano, o IAPMEI começou a analisar os projectos financiados pelo PRR para verificar se os compromissos assumidos tinham sido cumpridos. Pouco depois chegou a sentença de declaração de insolvência.
Sem actividade relevante. Sem activos. Sem dinheiro.
Treze milhões e trezentos mil euros depois.
O mais interessante é que esta história surge exactamente na mesma altura em que o país continua obcecado com prestações sociais de algumas centenas de euros. Discutem-se alegadas fraudes, exigem-se fiscalizações, inventam-se novos mecanismos de controlo e repete-se diariamente a necessidade de proteger o dinheiro dos contribuintes.
Mas quando uma empresa recebe 13,3 milhões de euros dos contribuintes, é promovida durante anos como um exemplo de sucesso, acaba vendida por um valor que deixa investidores a arder, gera processos judiciais, motiva investigações e termina insolvente, a indignação desaparece com uma rapidez impressionante. Quando corre bem, os ganhos ficam no sector privado. Quando corre mal, a factura fica espalhada por milhões de contribuintes que nunca tiveram direito a participar nos lucros, apenas no risco.
Pelos vistos, a subsidiodependência só é um problema quando o subsídio é pequeno.
Quando o cheque tem oito algarismos chama-se visão estratégica. Quando corre mal chama-se empreendedorismo. E quando desaparece o dinheiro dos contribuintes chama-se inovação.
É uma militante activa do partido fascista CHEGA; mas tem razão naquilo que diz!
Sem comentários:
Enviar um comentário