domingo, 25 de outubro de 2026

Padre José Luís Rodrigues analisa a carga policial fascista contra o povo ontem no Rossio

 



Escrever na água
Esta foi a madrugada que eu não esperava
Houve quem estivesse na rua pela liturgia da manifestação. Pelo aparato, pelas palavras de ordem, pela fotografia para as redes sociais. Há sempre. Mas seria de uma desonestidade profunda reduzir o que aconteceu ontem de madrugada em Lisboa e no Porto a isso.
A maioria estava ali por motivos legítimos. Estava ali porque não consegue pagar a renda. Porque foi despejada. Porque trabalha e mesmo assim não tem direito a uma casa. Estava ali pela causa em si, na sua forma mais pura e mais urgente, o direito constitucional a ter uma casa para viver.
E o que receberam foi uma carga policial. De madrugada. No escuro. Pela noite dentro onde todos os gatos são pardos, pois podem meter as unhas sem que ninguém os distinga ou confunda com qualquer gato.
Uma carga desproporcional, injustificável e reveladora de falta de inteligência. Desproporcional porque respondeu com cassetetes a cartazes e palavras típicas da «liturgia» das manifestações. Injustificável porque transformou um protesto pacífico por um direito constitucional num caso de polícia. E destituída de bom senso (inteligência governativa), porque não cala ninguém, ainda mais acicata a revolta e incentiva à solidariedade. Porque se havia indecisos sentem-se encorajados a saírem também à rua. Na pior das hipóteses pode fazer emergir mais violência e desordem pública, como tem acontecido nas cidades francesas.
O que se passou obriga-nos a nomear três coisas sem rodeios:
1. Vergonha. Vergonha ver os meus concidadãos a serem arrastados e encurralados pelas ruas das nossas duas maiores cidades por exigirem um elementar direito e o cumprimento da lei fundamental. Vergonha de um Estado que trata como criminosos aqueles que só pedem para serem tratados com dignidade.
2. Injustiça. É a mais gritante das injustiças. O Estado que falha em regular o mercado, que falha em construir habitação pública, que falha em travar a especulação, que mostra que baixa impostos, que mostra que incentiva jovens a comprar casa não se sabe a onde, mostra uma eficácia repentina e musculada quando é para reprimir quem aponta e denuncia essas falhas. Protege-se o património dos poderosos, esmaga-se a voz das pessoas simples e indefesas.
3. O Recuo. O mais grave destes três aspetos que os acontecimentos desta madrugada passada nos suscita. O que tivemos nesta noite passada não foi só apenas o recuo de uma hora nos nossos relógios, mas um recuo aos tempos sombrios da ditadura, onde se respondia a qualquer manifestação mínima fosse com violência, prisões arbitrárias e todo o género de violência física e psicológica.
Este modo de atuar não pertence a uma democracia europeia em 2026. Pertence ao álbum de tempos sombrios que julgávamos enterrados. É o recuo da sociedade portuguesa aos métodos da ditadura, resolver com a polícia o que se devia resolver com política. Silenciar na rua o que não se faz com diálogo e entendimento no parlamento.
Não nos venham dizer que foi para manter a ordem. Toda a ordem que precisa de carregar em quem reclama por um direito humano e constitucional inalienável é uma desordem moral.
As cargas policiais não travam manifestações, são fertilizantes que as lhes legitimam e lhes dão ainda mais força. (JLR)





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