ANIVERSÁRIO DE FERNANDO SEARA MOSTRA CONVÍVIOS 'INDIGESTOS'
Ministro da Administração Interna de mão no ombro do procurador-geral da República em almoço com maçons
Quarta-feira, primeiro de Abril — dia consagrado às mentiras —, mas nada ali tem de ficção. Pelo contrário: é a mais completa verdade, talvez triste, de intimidades privadas pouco convenientes para quem exerce elevados cargos públicos, tudo registado em fotografias públicas, partilhadas sem pudor há já quatro dias
Tratou-se ‘apenas’ de um almoço, mas um repasto especial, no restaurante do EPIC SANA Lisboa Hotel, junto ao Marquês de Pombal, que reuniu dezenas de convidados para celebrar os 70 anos de Fernando Seara, antigo presidente da autarquia de Sintra e homem ligado ao PSD, ao futebol e a outras agremiações. O conhecido músico Fernando Pereira, anfitrião musical da tarde, não mediu palavras: “um almoço divinal e superdivertido”, com direito a canções entre pratos e um ambiente de franca convivialidade.Numa das principais fotografias, vê-se Fernando Pereira e o aniversariante Fernando Seara — também ‘irmãos’ em lides maçónicas — do lado esquerdo de um sorridente homem sentado à mesa, telemóvel à frente, atrás de quem está um terceiro homem, também sorridente, que coloca a mão direita sobre o seu ombro direito. Um gesto de proximidade — semelhante ao de Fernando Seara — que não é meramente protocolar. Na verdade, é um gesto íntimo, quase fraternal.
Mas não é apenas esta fotografia que desmonta uma certa promiscuidade entre figuras públicas e outras mais ou menos discretas. Entre os convidados presentes, já identificados nas diversas fotografias, encontra-se Pestana Dias, que, em parceria com Fernando Pereira, criou em 2018 o polémico corpo maçónico Grande Loja Soberana de Portugal, associado a um ‘inner circle’ chamado “The Klub”.
Neste momento, Fernando Pereira é o grão-mestre desta obediência maçónica; Pestana Dias foi o seu antecessor. Esse universo não é uma mera curiosidade social — foi objecto de escrutínio criminal, sem que se conheça ainda um desfecho conclusivo. Numa das fotografias do dia 1 de Abril, os dois destacados membros da Grande Loja Soberana ladeiam Amadeu Guerra, o procurador-geral da República.
Amadeu Guerra, ao centro, ladeado por dois maçóns (Fernando Pereira e Fernando Seara). Foto: D.R.
Como foi revelado em Outubro de 2022, pela CNN Portugal, o Ministério Público abriu um inquérito à Soberana, cujos líderes criaram um clube de negócios que prometia acesso privilegiado a “líderes governamentais e empresariais proeminentes”. Esse acesso não era apenas implícito — era explicitamente comercializado como valor acrescentado do clube, com níveis de adesão que podiam atingir quotas elevadas para integrar o núcleo restrito.
A origem do inquérito remonta a uma denúncia recebida pela Polícia Judiciária — quando Luís Neves era já seu director —, que apontava para um alegado esquema envolvendo maçons, um clube de elite e até um projecto de templo virtual com investimento em criptomoedas.
Os factos descritos terão sido considerados susceptíveis de enquadramento em crimes como fraude fiscal, branqueamento de capitais e tráfico de influências. Não se conhece publicamente o desfecho deste inquérito, sendo certo que Amadeu Guerra — que se jubilou como procurador-geral regional de Lisboa em Agosto de 2020, antes de ser nomeado Procurador-Geral da República em Setembro de 2024 — conhecerá o caso.
Luís Neves com Fernando Pereira. Foto: D.R.
Nesse mesmo universo, conforme noticiou então a CNN Portugal, surgiam ligações directas da Soberana também a Fernando Seara, que integrou a associação que estruturava o clube, ao lado de Pestana Dias e Abílio Alagoa.
Nas imagens divulgadas nos últimos dias, vê-se ainda Luís Neves a sorrir, a dançar, a circular entre convidados. Nada disso é ilegal. Mas tudo isso é politicamente relevante. Porque o problema não está no almoço, mas no aperitivo e naquilo que se segue.
Das cinco fotografias conhecidas do almoço, Fernando Pereira aparece em todas e Amadeu Guerra em quatro. Foto: D.R.
Num Estado de direito, a independência das instituições não depende apenas da sua existência formal. Depende também da distância — efectiva, afectiva e perceptível — entre quem decide e quem beneficia. Quando essa distância se esbate, mesmo que apenas em aparência, instala-se um ruído que nenhum comunicado oficial consegue dissipar.
O almoço foi, como disse Fernando Pereira, “divinal”. Mas a política raramente se mede pela leveza dos adjectivos, mas sim pela gravidade dos contextos. E esse, neste caso, é tudo menos ligeiro.
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