Padre Martins Júnior, um revolucionário de mentalidades
Foi padre, deputado durante sete mandatos, presidente da Câmara de Machico e uma das figuras mais controversas da vida madeirense das últimas cinco décadas. Na Ribeira Seca deixou uma marca que atravessou gerações. Irene Catanho e Telmo Viveiros, mãe e filho, ajudam a contar o homem para além do “padre vermelho”.
José Martins Júnior foi padre, político, músico, compositor, dirigente associativo e, durante décadas, uma das vozes mais incómodas da Madeira. Para uns, o “padre vermelho”, provocador e agitador. Para outros, alguém que deu voz a uma população esquecida e enfrentou poderes que pareciam intocáveis.
Morreu a 12 de Junho de 2025, aos 86 anos, mas é difícil contar a história recente de Machico, e particularmente da Ribeira Seca, sem passar por ele.
Natural de Machico, onde nasceu a 16 de Novembro de 1938, foi ordenado sacerdote em 1962 e chegou à paróquia da Ribeira Seca a 22 de Junho de 1969. Foi para ficar.
Irene Catanho tinha menos de quatro anos quando Martins Júnior chegou. Os pais estavam ligados à Igreja e o novo padre tornou-se presença habitual em casa. Ia falar de assuntos da paróquia, mas também almoçar e participar em festas e aniversários.
A primeira imagem que Irene guarda ainda é a de um sacerdote colocado num pedestal.
“Era um senhor que o meu pai nos obrigava, entre aspas, a beijar a mão.”
O pai acabaria por abandonar esse gesto de reverência. Irene acredita que também por influência do próprio Martins Júnior.
Telmo Viveiros, filho de Irene, já pertence a outra geração e tem um problema diferente quando tenta procurar a primeira recordação do padre.
Não a encontra.
“Ele sempre esteve lá.”
Era quase da família.
É talvez nessa capacidade de atravessar gerações que melhor se percebe a dimensão que Martins Júnior ganhou na Ribeira Seca. O trabalho religioso rapidamente ultrapassou a igreja. Havia jovens para mobilizar, música para ensinar, festas para organizar e uma população que, na leitura de Irene, precisava sobretudo de perceber que não era inferior a ninguém.
Martins Júnior dava responsabilidades cedo. Irene tinha cerca de 14 anos quando a mandou sozinha ao Funchal tratar de uma tarefa relacionada com uma festa.
Não era apenas uma forma de conseguir quem fizesse o trabalho.
“Ele fazia-nos sentir que aquilo era nosso.”
A juventude tornou-se uma das suas prioridades. Ensinava música, preparava espectáculos, criava coreografias e juntava crianças e jovens em actividades que, mais tarde, ganhariam outra dimensão com a criação da Tuna e com o trabalho desenvolvido no Centro Cívico e Cultural da Ribeira Seca.
Telmo cresceu nesse mundo. Ainda criança já subia ao palco nas romagens e festas. Por volta dos 13 anos, Martins Júnior ensinou-o a tocar bandolim.
O método reproduzia-se: ensinava alguém e esse alguém deveria ensinar outros.
Décadas depois, seria Telmo a receber publicamente uma espécie de passagem de testemunho.
Aconteceu a 30 de Maio de 2025, no Encontro de Bandolins de Machico. Martins Júnior insistiu que queria falar durante a actuação. Antes de tocarem “Bella Ciao”, uma das músicas de que gostava, anunciou que aquela seria a sua última actuação e disse que Telmo continuaria o trabalho.
Telmo não sabia de nada.
“Fiquei um pouquinho em choque.”
Tanto que começou mal a música. A primeira decisão que tomou enquanto novo “responsável” foi, em tom de brincadeira, recusar a responsabilidade: para ele, o responsável continuaria a ser Martins Júnior.
Treze dias depois, o padre morreu.
Hoje, Telmo e outros músicos tentam recuperar um património que ficou disperso. São centenas de músicas, muitas sem partitura, algumas guardadas apenas na memória de quem as cantou ou tocou. Nos últimos anos ainda conseguiram recuperá-las diante do próprio autor. Tocavam e Martins Júnior corrigia.
Agora procuram letras, papéis encontrados entre os livros que deixou e, sobretudo, pessoas que ainda saibam como aquelas músicas soavam.
O padre que entrou na política
O 25 de Abril encontrou Martins Júnior já com uma intervenção social que dificilmente cabia apenas dentro da igreja.
Em 1975 chegou à presidência da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Machico. Depois vieram os conflitos políticos e religiosos que marcariam grande parte da sua vida pública.
Em Julho de 1977, o bispo do Funchal, D. Francisco Santana, suspendeu-o “a divinis”. A pena significava que deixava de poder exercer licitamente o ministério sacerdotal, mas Martins Júnior permaneceu na Ribeira Seca e continuou a celebrar, acompanhado por uma parte significativa da população.
A ruptura duraria 42 anos.
Irene Catanho rejeita que esse conflito possa ser entendido como falta de fé.
“O Padre Martins era um homem de fé, ninguém se iluda.”
Na sua leitura, era precisamente a fé que o levava a questionar a própria Igreja quando entendia que os seus comportamentos não correspondiam à mensagem de Cristo.
A Ribeira Seca ficou, em larga medida, ao lado dele.
Para Irene, há uma explicação que vai além da religião. Quando Martins Júnior chegou, encontrou uma população pobre, com poucas oportunidades e habituada a uma posição social subalterna.
“Ele fez as pessoas perceberem: vocês são gente como toda a gente.”
Incentivou famílias a mandarem os filhos estudar, criou actividades para crianças e jovens e procurou dar maior protagonismo às mulheres. Mais do que obras, Irene vê aí uma transformação na forma como uma comunidade passou a olhar para si própria.
Sete mandatos no parlamento
A política partidária acabaria por ocupar uma parte importante da sua vida.
Martins Júnior foi deputado à Assembleia Regional durante sete mandatos, quatro pela UDP e três pelo PS. No parlamento tornou-se uma das vozes mais combativas da oposição e protagonista de confrontos que ajudaram a construir a imagem pública que o acompanharia durante décadas.
Não era homem de passar despercebido.
As intervenções parlamentares eram seguidas em Machico e comentadas no dia seguinte. O discurso directo, a provocação e a recusa em recuar perante os adversários fizeram dele um dos grandes tribunos da política regional, mas também um dos deputados que mais irritava a maioria social-democrata.
Os conflitos chegaram a ultrapassar as palavras.
Houve discussões, episódios físicos e histórias que durante semanas alimentaram a política madeirense. Nada disso parece ter-lhe mudado o temperamento. Uma vez provocador, provocador sempre.
Em 1989, protagonizou um resultado eleitoral único: conquistou a Câmara Municipal de Machico pela UDP. Quatro anos depois voltou a ganhar, agora pelo PS, mantendo-se na presidência até 1997.
Para Irene, as duas vitórias explicam-se menos pelas siglas do que pelo candidato.
“Em Machico nunca foram os partidos a ganhar eleições.”
A passagem da UDP para o PS é recordada através de uma imagem que Martins Júnior utilizava. A UDP era um barco pequeno e, para conseguir fazer mais, precisava de passar para um barco maior.
Telmo interpreta da mesma forma essa relação com a política partidária.
“Ele não era um homem de partidos.”
Os partidos eram instrumentos para alcançar objectivos.
Na Câmara, Irene conheceu Martins Júnior de outra maneira. Quando foi escolhida para trabalhar com ele, perguntou-lhe porquê.
A resposta ficou-lhe na memória:
“Porque tu questionas. E porque tu tens coragem de dizer não.”
Não procurava alguém que concordasse sempre. Queria ouvir quando estava certo e quando estava errado. Depois decidiria se aceitava.
A presidência de Machico foi marcada por obras, abertura de caminhos e estradas e por uma forma muito própria de envolver as populações. Mas também pelo confronto permanente com o poder regional.
Irene admite que Machico possa ter perdido alguma coisa por causa dessa atitude. Acredita, porém, que ganhou algo mais importante.
Mentalidade.
Martins Júnior recusava a ideia de que fosse necessário curvar-se perante quem governava para obter uma estrada ou qualquer outra coisa a que a população tivesse direito.
“A coluna não curva.”
O regresso à Igreja
O conflito religioso que começara nos anos 70 só teria um desfecho institucional em 2019.
A 16 de Junho desse ano, D. Nuno Brás revogou a suspensão aplicada 42 anos antes e nomeou Martins Júnior administrador paroquial da Ribeira Seca. O sacerdote que nunca abandonara a comunidade regressava formalmente à estrutura da Diocese.
Nem todos os seus apoiantes receberam imediatamente bem a decisão. Irene recorda que houve quem não aceitasse a aproximação e que, pela primeira vez em décadas, sentiu alguma divisão dentro da própria Ribeira Seca.
Para ela, porém, a reconciliação significava uma vitória.
Martins Júnior não entendia que estivesse a renegar o passado ou a reconhecer que estivera errado. A sua fé, dizia, continuava a mesma.
Deixaria as funções de administrador paroquial em 2023.
O outro Martins Júnior
Por detrás do padre rebelde e do político que fazia discursos inflamados havia um homem que Irene e Telmo descrevem de maneira muito menos conhecida.
Dava boleia a quem encontrava pelo caminho. Se alguém precisava de ir ao médico, procurava maneira de resolver o problema. Depois da missa das sete da manhã, se estivesse a chover, preocupava-se em saber como regressariam a casa as pessoas que tinham ido a pé.
Ajudava financeiramente quem precisava e nem sempre sobrava muito para ele.
O que mais o magoava não era perder uma votação ou ouvir um adversário político.
Era a traição de alguém próximo.
Também não gostava da ideia de depender dos outros. Telmo recorda-lhe a vontade de permanecer autónomo até ao fim, sem se tornar um peso para ninguém.
Era, ao mesmo tempo, um homem com consciência das próprias capacidades. Irene hesita em chamar-lhe vaidoso. Prefere outra palavra: tinha “brio”.
E fazia muitas coisas.
Padre, político, músico, compositor, arranjador, ensaiador, criador de coreografias. Telmo olha hoje para o trabalho que ficou e nota que são necessárias várias pessoas para fazer aquilo que Martins Júnior fazia sozinho.
Em 1995, Mário Soares distinguiu-o com o grau de Comendador da Ordem do Mérito.
Mas o reconhecimento que Irene escolhe para resumir a sua vida não vem de uma condecoração.
No funeral, viu adolescentes de 15, 16 e 17 anos quererem carregar o caixão de um homem que tinha 86.
Para ela, é uma imagem que explica muito.
Telmo acredita que o tempo já começou a alterar a forma como Martins Júnior é visto. O “padre vermelho”, o revoltoso e o desobediente começam a dar lugar a uma personagem histórica mais complexa.
Irene prefere olhar para aquilo que aconteceu às pessoas que passaram por ele. Algumas são hoje de esquerda, outras de direita, outras pertencem a diferentes partidos.
Não ficaram todas a pensar como Martins Júnior.
E é precisamente aí que encontra o legado.
“Ele não prendeu ninguém. Ele formou pessoas e agora escolham.”
Depois de mais de meio século na Ribeira Seca, sete mandatos no parlamento, oito anos à frente da Câmara de Machico e 42 anos de ruptura formal com a Diocese, Irene Catanho resume José Martins Júnior numa frase:
“Foi um revolucionário de mentalidades.”






