Esqueceu-se de dizer que a censura atual passou a ser feita dentro das redações dos jornais e chama-se autocensura que é feita pelo próprio jornalista que escreve afim de não ser despedido. Se Élvio Passos escrever por exemplo acerca dos portos da Madeira e do monopólio do grupo SOUSA, é logo despedido sem apelo nem agravo. Tem de passar a ser funcionário do PCP/madeira afim de poder sobreviver. Ele sabe bem disso.

Durante vários anos, os leitores do DIÁRIO encontravam, discretamente impressa, uma pequena frase que hoje quase passa despercebida: "Este número foi visado pela Comissão de Censura" (ou equivalente). Eram apenas sete palavras, colocadas normalmente numa zona pouco destacada da página, mas que resumiam uma realidade comum à imprensa portuguesa durante grande parte do século XX.
Antes de chegar às bancas, cada edição do jornal já tinha sido lida por outra entidade.
A existência da censura não começou com o Estado Novo. Em Junho de 1918, o próprio DIARIO noticiava a criação, na Madeira, de uma comissão civil de censura à imprensa, instalada no Comando Militar, identificando mesmo os seus primeiros membros. Meses depois, voltava ao assunto para informar alterações na composição dessa comissão. O controlo sobre o que era publicado fazia parte da vida política portuguesa num período marcado pela Primeira Guerra Mundial, pela instabilidade governativa e pelas preocupações com a ordem pública.
Depois do movimento militar de 28 de Maio de 1926, a censura consolidou-se como um dos instrumentos permanentes do novo regi-me. Foi nessa época que a inscrição
"Este número foi visado pela Comissão de censura" começou a surgir regularmente nas paginas do DIÁRIO. Durante anos repetiu-se edição após edição, tornando-se um elemento tão familiar da composição gráfica que dificilmente chamaria a atenção da maioria dos leitores.
Contudo, aquela pequena trase tinha um significado muito maior do que aparentava. Não era uma simples formalidade administrativa nem um detalhe tipográfico. Informava, de forma discreta, que o jornal que chegava às mãos do público já tinha sido submetido ao exame de uma autoridade encarre-gada de verificar se o seu conteúdo podia ser publicado.
Naturalmente, o leitor nunca sabia exactamente o que esse exame significava em cada edição. A inscrição não revelava se algum artigo fora alterado, se uma notícia tinha sido suprimida, se uma fotografia fora retirada ou se determinado assunto nunca chegara sequer a ser composto na tipografia. O que ela confirmava era apenas um facto: antes dos leitores abrirem o DIÁ-RIO, alguém já o tinha lido.
É precisamente esse silêncio que hoje torna a frase tão reveladora. O que não aparece impresso é, muitas vezes, impossível de recons-truir. Os cortes efectuados pela censura nem sempre deixaram vestígios nas páginas publicadas.
Em muitos casos, os leitores nunca chegaram a saber que determinada
notícia fora modificada ou impedida de chegar à impressão. O jornal conservava a+enas o resultado final enquanto todo o processo anterior permanecia invisível.
Com o passar do tempo, aquela indicação deixou de surgir impressa nas páginas do DIARIO. A sua ausência, porém, não significa, por si só, que tivesse desaparecido o controlo sobre a imprensa. A censura continuou a fazer parte do sistema político português até ao 25 de Abril de 1974 e conheceu diferentes formas de funcionamento ao longo das décadas. A documentação actualmente disponível não permite afirmar, com segurança, por que motivo o jornal deixou de publicar a referência ao "visto" da Comissão de Censura, nem se essa alteração resultou de uma mudança de procedimentos administrativos ou de outro factor.
Ainda assim, o desaparecimento da frase torna-a hoje ainda mais si-gnificativa. Ao contrário de muitos outros vestígios da censura, que ficaram dispersos por arquivos administrativos ou processos oficiais, esta permaneceu impressa róprias páginas do jornal. É um testemunho directo de uma época em que a liberdade de informar estava sujeita ao escrutínio prévio do Estado e em que a relação entre jornalistas, tipografias e autoridades fazia parte do quotidiano da produção de um jornal.
O levantamento efectuado sobre o arquivo do DIÁRIO permitiu localizar numerosas edições onde esta inscrição continua visível. Vistas isoladamente, parecem apenas uma curiosidade gráfica.Observadas em conjunto, contam uma historia muito maior.Recordam que o jornalismo não se faz apenas com aquilo que é publicado mas também com os condicionamentos, limitações e circunstâncias em que cada edição é produzida Ao longo de século e meio, o DIÁRIO atravessou monarquia, República, ditadura, democracia e autonomia regional. Aquela pequena frase desapareceu das pági-nas. Mas continua a recordar que houve um tempo em que, antes de cualquer madeirense abrir o seu jornal, existia sempre um primeiro leitor. E esse leitor não era escolhido pelo jornal nem pelos seus lei-tores. Era escolhido pelo Estado.»
