domingo, 12 de abril de 2026

Análises do falso padre Ricardo no DN/Funchal e a menina tontinha das historietas de cará-cá-cá

 





Falsificava reformas

 


A GENERALA: A VIDA DUPLA DE MARIA TERESINHA, O FALSO GENERAL QUE ENGANOU UM PAÍS


 Durante quase duas décadas, Maria Teresinha Gomes viveu uma vida cuidadosamente encenada. Vestida de farda, coberta de insígnias e com um porte que impunha respeito imediato, apresentou-se ao mundo como general Tito Aníbal da Paixão Gomes. O disfarce foi tão convincente que enganou não apenas vizinhos, conhecidos e instituições, mas também a mulher com quem partilhou a intimidade diária durante anos. A história só viria a ser desvendada muito tarde, quando uma sucessão de burlas chamou a atenção das autoridades.

O destino de Maria Teresinha parece ter ficado marcado ainda antes do nascimento. Em 1932, a pneumónica abalou a família Paixão Gomes, nos arredores do Funchal, e matou um filho pequeno, Tito Aníbal, com apenas 20 meses. A perda deixou os pais devastados, incapazes de recuperar plenamente do luto. Um ano depois, nasceu Maria Teresinha, mas a chegada da menina não trouxe alegria. Mais tarde, diria que crescera numa casa silenciosa, sem risos, habitada por uma dor permanente.
Apesar desse ambiente, teve uma educação cuidada, típica das famílias socialmente bem colocadas da Madeira dessa época. Frequentou a escola primária, teve aulas de etiqueta e boas maneiras e terminou o antigo 7.º ano do liceu com excelentes resultados. Tudo indicava um percurso discreto e previsível, mas a adolescência trouxe um episódio que mudaria o rumo da sua vida. Apaixonou-se de forma intensa, num caso que nunca esclareceu totalmente. Uns garantiriam que fora por uma mulher; outros, por um homem influente, com idade para ser seu pai. Qualquer das versões teria sido suficiente para gerar escândalo num meio pequeno e conservador.
Incapaz de suportar a humilhação e o desgosto, fugiu para Lisboa sem avisar ninguém. Na Madeira, os pais e as autoridades acreditaram que se suicidara, lançando-se de uma falésia para o mar. Foi declarada oficialmente desaparecida. Na realidade, estava viva, saudável e decidida a cortar com a vida anterior. Deixou de responder pelo nome Maria Teresinha, cortou o cabelo, trocou os óculos delicados por armações pesadas e passou a vestir fato e gravata. Assumiu, por inteiro, a identidade do irmão morto: Tito Aníbal da Paixão Gomes.
No Carnaval de 1974, deu os primeiros passos na carreira militar. Já não tinha idade para oficial subalterno e a modéstia não lhe abria grandes portas. Atirou-se para o topo da hierarquia. Num alfaiate da Baixa encomendou uma farda de general do Exército; numa loja do Rossio comprou as estrelas e demais insígnias; noutra, em Alvalade, arranjou o boné com os dourados da ordem. A farda caía-lhe a matar. Nunca mais a largou. Só depois de 25 de abril, num país em plena convulsão, com estruturas desorganizadas e um respeito quase automático pelas patentes militares, essa personagem encontrou o terreno ideal para circular sem ser questionada.
Foi já nessa condição que conheceu Joaquina Conceição da Costa, uma mulher solteira, encantada com a figura garbosa e a autoridade tranquila do suposto general. Juntaram-se num apartamento na Damaia, nos arredores de Lisboa. Joaquim — como ela lhe chamava — nunca levantou suspeitas. Levantava-se cedo, mantinha hábitos rigorosos e geria com habilidade o mistério da intimidade. Durante as madrugadas, enquanto Joaquina dormia, tinha tempo para proteger o segredo do corpo que a farda ocultava.
O disfarce sustentou também uma cadeia de expedientes e burlas. Uma vizinha, que confiou ao “general” as poupanças de uma vida, foi convencida de que o dinheiro estaria mais seguro longe da banca nacionalizada, aplicado nos Estados Unidos, graças a contactos diplomáticos que ele dizia ter mantido como embaixador. A quantia serviu para comprar uma vivenda em Alenquer, batizada ironicamente de “Saudade”. A partir daí, Maria Teresinha acumulou identidades: apresentou-se como embaixador, dirigente da CIA em Portugal, advogado de causas militares e até espião.
Enganou também o motorista que diariamente a levava de Alenquer a Lisboa, largando a junto ao Quartel do Carmo, sem nunca lhe pagar salário durante anos. Mas a sucessão de queixas acabou por chegar à Polícia Judiciária. Os investigadores procuraram durante meses um general que não existia. Só mais tarde cruzaram dados e perceberam que uma mulher com os mesmos apelidos desaparecera da Madeira décadas antes.
Detida em novembro de 1992, Maria Teresinha viu a farda — o símbolo maior da impostura — ser-lhe retirada. Para dissipar quaisquer dúvidas, foi levada ao Instituto de Medicina Legal. As provas foram conclusivas. Uma fotografia tirada durante o exame causou tal choque que o juiz que presidiu ao julgamento decidiu arrancá-la dos autos e destruí-la.
O julgamento decorreu em 1993, no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa. Foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa. Entre os depoimentos mais marcantes esteve o de Joaquina, que garantiu nunca ter suspeitado de que não vivia com um homem. A explicação encontrada pelos juízes foi simples e desconcertante: partilhavam a vida, mas dormiam em quartos separados.
Maria Teresinha Gomes morreu aos 74 anos. Ficou para a história portuguesa como “A Generala”: uma mulher que, durante anos, encarnou uma personagem improvável, aproveitando fragilidades institucionais, reverências acríticas e o poder simbólico de uma farda. A sua vida deixa uma pergunta incómoda no ar: durante quanto tempo uma identidade pode existir apenas porque todos acreditam nela?

Histórias que não podemos esquecer: Prisão do estudante Alberto Martins em 1969

 


sábado, 11 de abril de 2026

Apenas três humanos morreram no espaço: a triste história da Soyuz 11 e sua tripulação que nunca voltou para casa

 

Por Ross Pomeroy e Ben Evans
Publicado no Real Clear Science e no America Space

O espaço é brutalmente inóspito para a vida humana, portanto, é de admirar que das 566 pessoas que se aventuraram além da segurança da Terra, apenas três tenham morrido lá. Cinco vezes mais morreram devido a colisões ou explosões ao decolar para longe do nosso planeta ou ao entrar novamente na atmosfera. Os três valentes viajantes espaciais que perderam a vida no espaço foram os cosmonautas Georgy Dobrovolsky, Vladislav Volkov e Viktor Patsayev. Todos os três morreram na missão Soyuz 11 de junho de 1971.

A trágica tripulação da Soyuz 11: Georgi Dobrovolski (à esquerda), Vladislav Volkov (à direita) e Viktor Patsayev (em segundo plano).

Apesar da Soyuz 11 ter terminado em tristeza, a grande maioria da missão progrediu gloriosamente. Dobrovolsky, Volkov e Patsayev viveram por 23 dias a bordo da Estação Espacial Salyut 1 da União Soviética, a primeira estação espacial da história, estabelecendo o recorde de permanência mais longa no espaço da época. Durante sua missão, os ousados ​​cosmonautas realizaram transmissões de televisão ao vivo para milhares de soviéticos, projetando esperança e retratando um futuro brilhante. Patsayev também se tornou o primeiro homem a operar um telescópio no espaço. Os espectrogramas que ele produziu das estrelas Vega e Beta Centauri com o telescópio ultravioleta da estação foram publicados posteriormente na revista Nature.

A Salyut 1, a primeira estação espacial da história.

Então, no dia 30 de junho de 1971, a turma de cosmonautas estava retornando à Terra com uma missão bem-sucedida nas costas. A reentrada da nave na atmosfera aconteceu normalmente, sem nenhum indício de que algo estava dando muito errado por lá. Contudo, a abertura da escotilha da Soyuz envenenou abruptamente a atmosfera comemorativa. Os socorristas testemunharam uma cena terrível. Eles encontraram os três homens em seus assentos, imóveis, com manchas azuis escuras no rosto e manchas de sangue pelo nariz e pelas orelhas. Tentativas de ressuscitação falharam.

Em uma imagem particularmente angustiante, os socorristas oferecem socorro inicial aos cosmonautas. Mal sabiam na época que os três homens estavam mortos há muito tempo para que a ressuscitação tivesse algum efeito positivo.

Rapidamente a equipe local determinou que a causa da morte teria sido asfixia. Isso foi causado por um pequeno erro técnico quando os dois parafusos que ligavam o módulo orbital e o módulo de descida foram abertos simultaneamente (em vez de sequencialmente), dobrando a força exercida e rompendo uma válvula cuja função era homogeneizar a pressão dentro da nave nos momentos finais antes da aterrissagem. Com a falha, a tal válvula permitiu que o ar dos cosmonautas escapasse para o espaço durante a descompressão — e seria impossível que eles consertassem esse problema, já que o aparato estava localizado atrás dos bancos onde eles estavam não apenas sentados, como presos ao assento.

Os três cosmonautas receberam um funeral de Estado e foram enterrados nos muros do Kremlin, que fica na Praça Vermelha em Moscou.

Embora os detalhes exatos de suas mortes não fossem conhecidos pelo público em geral até alguns anos depois, o falecimento dos cosmonautas rapidamente foi notícia mundial. Em toda a União Soviética, o desastre provocou uma onda sem precedentes de luto. As pessoas choravam abertamente nas ruas por três homens que por mais de três semanas apareceram todas as noites em suas telas de televisão. Cosmonautas que estavam sendo apresentados como seres humanos e não como super-homens frios e sem rosto e que ofereceram uma resposta clara a Apollo que a União Soviética estava de volta ao negócio espacial tripulado e firmemente na liderança. Agora, em vez de três heróis, com sorrisos largos e enfeitados com medalhas e guirlandas de flores, todo o povo soviético tinha… três funerais.

Os funerais luxuosos da tripulação da Soyuz 11 destacaram a enorme sensação de perda sentida pelo povo soviético. Os três homens se tornaram heróis nacionais e internacionais.

Em grande parte, a tragédia da Soyuz 11 também afetou a consciência da NASA. Horas depois do conhecimento do desastre, astronautas e gerentes estavam se perguntando se a exposição ao ambiente espacial por três semanas causou a morte de Dobrovolski, Volkov e Patsayev. Quando a descompressão e a falta de trajes espaciais apropriados foram responsabilizadas, uma mudança foi feita na missão lunar Apollo 15, que estava programada para ser lançada algumas semanas depois, em julho de 1971. Foi decidido que os astronautas Dave Scott e James Irwin usariam seus trajes espaciais durante sua ascensão da superfície lunar. “A decisão”, dizia um comunicado de imprensa da NASA, datado de 19 de julho, “foi baseada na reavaliação dos requisitos para os membros da tripulação usarem roupas de pressão durante as diferentes fases da missão. A avaliação foi realizada após o acidente da Soyuz 11 … ”

Traje espacial do astronauta James Irwin, piloto do Módulo Lunar da Apollo 15.

Tampouco foi simplesmente uma reação instintiva: a “reavaliação” da Apollo 15 abrangeu a revisão do projeto e teste de janelas, escotilhas, válvulas, acessórios e fiação nos módulos lunar e de comando. “Além disso”, continuou o comunicado, “foram realizados estudos sobre os efeitos de reentrada na tripulação e na cabine com uma janela completamente falha, carga estrutural durante o jateamento do módulo lunar, redução da pressão da cabine causada por orifícios de vários tamanhos, tempos de colocação de trajes, e emergências pós-pouso”. Embora os resultados tenham estabelecido um alto nível de confiança na Apollo, essa reavaliação é notável pelo fato de a calamidade da Soyuz 11 ter atingido o cerne não apenas do programa espacial tripulado soviético, mas também dos Estados Unidos.

Em agosto de 1971, semanas após o acidente, o trio de cosmonautas mortos no espaço foi homenageado com essa placa que a missão Apollo 15 deixou na Lua junto com a escultura batizada de “Astronauta Caído”, do belga Paul Van Hoeydonck. Trata-se de um memorial com os nomes das 14 pessoas que, até então, haviam visitado o espaço e já estavam mortas, incluindo o soviético Yuri Gagarin, primeiro homem a ir para o espaço.

Observação:

Tecnicamente, a morte desses cosmonautas foram as únicas ocorridas “no espaço” levando em consideração a linha de Kármán (100 km acima do nível do mar) – para a NASA, o espaço começa a 80 km de altitude. Em voos que a tripulação chegou até o espaço e morreu no retorno à Terra, mas já em altitude abaixo do limite espacial, são mais oito mortes – o cosmonauta Vladimir Komarov, cujo paraquedas da Soyuz 1 não abriu durante a reentrada, em 1967, e outros sete astronautas que faleceram a bordo do ônibus espacial Columbia em 2003. Contabilizando os voos que não chegaram até o espaço, são mais oito astronautas mortos, incluindo os sete tripulantes do ônibus espacial Challenger, que explodiu 73 segundos depois do lançamento, em 1986. As mortes em treinamentos e testes para missões somam mais 11 pessoas para este triste obituário espacial. Ou seja, entre astronautas e cosmonautas, que chegaram até o espaço ou não, 30 pessoas morreram em missões espaciais ou na preparação para elas. E para finalizar esse triste cálculo, considerando gente que não era astronauta nem cosmonauta mas que foi morta por acidentes relacionados à exploração espacial, são pelo menos mais 241 mortes – há estimativas de que sejam mais de 330. Isso pela contagem oficial – subnotificação é coisa antiga. No fim das contas, centenas de indivíduos deram a vida em nome do sonho de conhecermos o que há além do nosso planeta. A nós, que aqui ficamos, resta prestar os sentimentos aos familiares e as homenagens devidas.

O ônibus espacial Challenger decolando do Cabo Canaveral, na Flórida, no dia 28 de janeiro de 1986. 73 segundos após a decolagem, um incêndio na nave causaria uma explosão, matando todos os sete tripulantes da mis

Policia Militar de S-Paulo agride e prende mulher negra que foi cobrar dinheiro do seu trabalho de diarista

 


Inaceitável o que aconteceu na tarde de ontem. A pobre mulher trabalhou, levou calote e ainda vai presa por reclamar seu dinheiro.

Policiais agrediram violentamente uma mulher que trabalha como diarista, limpando um escritório em um prédio da Paulista, e que foi cobrar pelo serviço acompanhada da filha.
Os donos do escritório agiram de má-fé e não quiseram pagá-la, então chamaram a polícia, que, ao invés de defender a verdadeira vítima, a arrastou prédio abaixo e a prendeu com muita violência, ignorando seus apelos e o choro de sua filha, como mostra a filmagem.
O caso e as imagens são revoltantes, mas mostram o nível de despreparo, descontrole e violência com que a PM está tratando a população de São Paulo, especialmente dirigidos a mulheres negras, como no caso do assassinato da moradora da Cidade Tiradentes nesta semana.
Isso não pode ficar impune, e cobro do governo Tarcísio que responda pelas ações truculentas da PM, que está sob sua responsabilidade.