A alienação, que é a grande
força contrária à imaginação,
significa atrofiar e submeter-
-nos do ponto de vista
mercantil e do ponto de vista
discursivo. É combatida com
a capacidade de imaginação
do que não existe.

Para Francisco Louçã, no seu novo
livro, aquilo que distingue os huma
Pnos de outros animais é a capacidade de imaginar. Conseguir pensar
naquilo que não existe é uma pré-
-condição para poder ambicionar
um mundo diferente.
No seu novo livro, Imaginação,
Cores, Deuses, Viagens e Amores – o primeiro de dois volumes
–, começa-se pela pintura, fala-se
da invenção das religiões, aborda-
-se as grandes viagens, em que a
nossa imaginação se confronta com
a realidade do outro, e acaba-se nos
amores. É um livro erudito e apaixonado que começou a ser escrito
durante a pandemia.
Se precisamos da imaginação
para sermos humanos e mudar o
mundo, vale a pena aprofundar a
sua situação no tempo em que estamos. Vivemos num tempo em que
se recuperam os infernos dos anos
30 do século XX. Necessitamos de
velhas e novas coisas que nos façam
sonhar mais alto.
Segundo Mark Fisher, já temos
tudo aquilo de que precisamos para
escapar do realismo capitalista –
essa camisa de forças que nos mantém obedientes e sem imaginação;
o invasor externo que restringe as
nossas mentes, os nossos corpos e a
realização do nosso ser. Comecemos
então a imaginar.
Nos dias de hoje, é mais fácil imaginar uma invasão extraterrestre,
uma destruição e uma catástrofe
do que uma simples mudança histórica do nosso tipo de sociedade.
Estamos condicionados a uma
imaginação limitada?
Este volume não trata – mas o segundo que publicarei depois o fará
– das utopias e das distopias, que
são, na expressão do movimento
social do século XIX, mesmo antes,
a partir do século XVI, uma forma
de imaginação da organização da
sociedade.
As utopias originais, que se prolongam depois e que têm consistência, são poderosíssimas sobre a forma de organização de sociedades futuras, passadas, presentes. Algumas, invocando muito a
tecnologia, como H. G. Wells e Júlio
Verne, outras, na base, digamos,
da completude humana, do desenvolvimento das potencialidades de
comunicação humana e, portanto,
de uma sociabilidade aberta, livre.
Muitas delas são muito libertárias
do ponto de vista erótico, outras são
muito afirmativas do ponto de vista
da fraternidade social.
O segundo volume será sobre
Ciência, utopias e vida quotidiana. A minha questão é se a nossa
sociedade atual parece viver num
presente eterno e tem uma espécie de captura da imaginação?
Neste primeiro livro, o que eu
trato é a imaginação como essência
humana. São palavras um pouco
carregadas do ponto de vista da
tradição cultural em que me insiro,
mas que creio que correspondem
bem à descrição de uma capacidade
humana específica de imaginar,
imagens ou conceitos, o que não
existe e pode conceber situações,
factos, emoções, acontecimentos
e processos novos. Creio que essa
faculdade é o poder humano mais
característico. Mesmo em qualquer
condição histórica e social.
Como surge a imaginação?
Temos uma capacidade – aparece,
aliás, tardiamente no homo sapiens
– de conjugar imagens diferentes,
das quais os vestígios arqueológicos
são relativamente recentes. Parece
que a prova mais antiga é a estátua
de um homem com a cabeça de um
leão, de há cerca de 40 mil anos.
Qual a razão de que a partir de duas
imagens conhecidas independentes
se combinam as duas e imagina-se
uma que não existia? Está a contar-se uma história. Na verdade, a
criação da linguagem é a criação
de uma codificação da instrução da
imaginação. É uma potência que se
desenvolveu e que, a partir daí, ultrapassou fronteiras.
Gabriel García Márquez diz,
naquela primeira página extraordinária dos Cem Anos de Solidão, que
quando não conhecemos o nome às
coisas, apontamos para as imagens.
É uma capacidade que se desenvolveu ao longo do tempo. Na verdade,
eu creio que a acumulação cultural
é o que distingue os seres humanos
dos outros animais. Mas a imaginação sofre tentativas
sistemáticas de ser aprisionada ou
condicionada. Isso vem desde o
início.
Vejamos o caso da religião.
Imaginar o trovão, criar o deus
do trovão, dar nomes a coisas que
não conhecemos, está no início da
religião. A sua estruturação como
instituição é muito mais tardia.
Analisa o caminho para o
monoteísmo. Esse processo
demora séculos. Qual a razão por
que tudo não ficou como estava?
Porque é um processo da instituição
do poder. Isto é a história do
judaísmo.
Eu não conheço suficientemente
as outras religiões mais antigas,
como as religiões védicas, por
exemplo, ou outras formas de
expressão que podem ter histórias
diferentes. Na herança religiosa
do Mediterrâneo, os sumérios, os
assírios, os mesopotâmios e todos
os outros, que depois vêm a ser
incorporados na Bíblia hebraica,
existem processos de consolidação
de conhecimento e de relações de
poder.
A ocupação da Samaria pelas
tropas assírias em 729 AEC
determinou que Jerusalém se
tornasse a única capital do judaísmo
e que o templo de Jerusalém se
tornasse o mais importante e
referencial. Isso vai reforçar a
capacidade dos seus sacerdotes de
serem condutores da política e da
vida social. E, para isso, vão nesse
contexto construir o monoteísmo.
O monoteísmo é muito tardio,
provavelmente depois do regresso
dos judeus do exílio da Babilónia
[537 AEC].
Pode dizer-se que o cristianismo
é de facto construído por Paulo de
Tarso, que faz várias coisas. Uma
delas é uma espécie de princípio
do universalismo, em que a
religião não é só para os judeus,
é também para os gentios, não é
só para os senhores, é também
para os escravos. Portanto, criase aí uma igualdade perante
Deus e perante Cristo. Mas,
simultaneamente, é a afirmação
de um conjunto de princípios
conservadores que, até lá, não
estavam inscritos nos textos.
Paulo faz três coisas que são poderosíssimas. Primeiro, inventa a figura de Cristo. Portanto, torna Jesus o Messias. Coisa que, segundo os textos evangélicos, uns afirmam, outros
duvidam e, ainda, outros recusam.
Mas Paulo consagra-o como um
Cristo, que é o Messias. E, portanto,
torna-o a figura dominante desse
universo.
Em segundo lugar, viaja. Escreve
em grego. E divulga através das
suas cartas. Segundo Frederico
Lourenço, há muitas cartas que
não são conhecidas e outras que
são fusão de várias. As cartas são
instruções, incluindo sobre o modo
de vida. Portanto, codificando o
que são as comunidades paulinas
do ponto de vista da sua liberdade.
Elas não são as igrejas de hoje. Não
existe um conceito de igreja, como o
conhecemos.
Existe é uma assembleia que
pode ser dirigida por uma mulher,
numa celebração em comum.
Mas Paulo dá-lhe um conjunto de
instruções que criam um padrão de
comportamento.
E, sobretudo, em terceiro lugar,
derrota a herança judaica. Combate
a ideia de que a religião é o sinal
distintivo de uma tribo e de uma
nação. Que era o facto da existência
da circuncisão que determinava a
pertença judaica. Ele recusa isso.
Há uma assembleia em
Jerusalém, que ainda é presidida
pelo irmão de Jesus, em que chegam
a um acordo com Pedro – está
contada nas próprias cartas de Paulo
e nos Atos dos Apóstolos – em que
dividem o mundo entre Pedro e
Paulo que fica com os gentios. Ele
afirma o universalismo.
Depois, esse universalismo é
cindido a partir do momento
em que o cristianismo é adotado
pelos romanos como religião do
Estado?
Isso é muito tardio e, na verdade,
corresponde a uma incorporação
da Igreja Cristã como parte do
Império. Com características
muito diversificadas. Quer dizer,
o concílio que consagra, que
resolve as disputas, é dirigido pelo
imperador. É o imperador que o
convoca. É o imperador que escolhe
quem é que está presente. O mesmo
imperador que aceita o cristianismo
como religião oficial do império
determina leis sobre o divórcio.
Facilita a possibilidade do divórcio
e, portanto, ele é alheio até à própria
instituição doutrinária. Há Papas que duram dois anos.
Há um Papa que é eleito e que nem
sequer era batizado. Que nem era sequer cristão. Mas, sobretudo, há uma
luta de poder muito intensa, que está
muito articulada com o Império e
as suas divisões, mais tarde, com os
vários poderes europeus, ao tempo
das sucessivas dinastias, dos assassinatos, das conspirações entre Papas.
É uma disputa que está sempre
presente na religião cristã? Este
conflito entre a Igreja e os milenaristas, para quem o discurso de
Paulo abre a possibilidade da criação do reino dos céus na Terra.
Paulo é um dos iniciadores do milenarismo. Que depois ganha uma
componente popular. Sobretudo,
com o Thomas Müntzer, no tempo
de Lutero, no século XVI.
Ao longo do tempo, há algumas
dissidências que são muitíssimo poderosas. Os cátaros, no sul de França e no norte de Itália, que chegam a
ser maioritários nas suas regiões.
Há cruzadas para reconquistar
Jerusalém e há cruzadas contra os
cátaros. O que é extraordinário é
que a capacidade dessa universalização de crença, digamos, de criar
um discurso de autorreconhecimento de comunidade a partir de
uma narrativa religiosa está associada à capacidade que a religião
cristã e outras religiões têm também
de responder à transcendência da
morte.
O medo da morte é a primeira
questão e primeira imaginação?
É uma das primeiras imaginações.
Na verdade, pensam tarde. Os vestígios arqueológicos que há é de que as primeiras sepulturas têm cerca
de 500 mil anos. E as sepulturas em
que há alguma indicação de evocação dos mortos, ou seja, a respeito
dos mortos, que não sabemos se
têm uma determinação divina, mas
que são pelo menos uma celebração dos mortos, são muito mais
recentes.
Portanto, a morte, que é o facto
da vida desde sempre, suscita pelo
menos a sua expressão, que é o
que nós podemos ver em registos
arqueológicos. Não há narrativas
sobre isso, não há narrações de uma
forma muito diferenciada ao longo
do tempo, mas é evidente que ela
está presente e, portanto, imaginar
o além é, porventura, uma das primeiras formas de expressão. Outras,
primeiro, terão sido como imaginar
a comida. Imaginar o alimento, o
instinto amoroso. Mas creio que a
primeira forma de poder é a religião.
Um personagem que atravessa
o livro todo é Gauguin.
Recentemente foi quase
cancelado. Houve um movimento
para o retirar dos museus, dado o
seu comportamento.
Não sabia. Gauguin era um pintor
genial, era um pedófilo, era um homem autocentrado.
Mas na altura aquilo era
considerado mesmo pedofilia?
Era. Eu tenho uma nota sobre isso.
Embora as relações amorosas que
ele conta com adolescentes possam
ter sido uma fantasia.
Não há nenhuma evidência, não
há nenhuma comprovação exterior
delas. Até no caso da Amana, que
podia ter 13 ou 14 anos quando o
teria conhecido. Mas é preciso dizer que nessa altura a lei de França
que se aplicava, e aquilo era uma
possessão francesa, era a lei pós-napoleónica: o Napoleão subiu a idade
de consentimento para o casamento
e para as relações sexuais, e nesse caso até a suposta relação com
Amana estaria em infração legal. Ele
vangloria-se desse tipo de relações,
como, aliás, muitos outros.
Anteriormente há até casamentos, [Santo] Agostinho esteve para se
casar com uma rapariga de 10 anos,
mas isso foi muito antes do século
XIX em que viveu Gauguin.
E é extraordinário que o Taiti
aparece como uma espécie de
lugar de fantasia sexual.
Sim, porque é descoberto muito tarde, é descoberto só no final do
século XVIII, por navios que vão
para a Austrália, e o contacto dos
marinheiros era de uma enorme
disponibilidade social, amorosa,
de permissividade e simpatia das
comunidades locais, como eles
contam. Quando Gauguin lá chega,
que é já no final do século XIX, já
não encontra o que a imagem lhe
prometia. É uma ideia muito mitificada, como contava Pierre Loti, um
dos grandes escritores ligados a essa
época. Hoje é um autor esquecido,
na altura era um autor muitíssimo
popular, fez livros sobre muitas
regiões, escreveu aqueles romances
sobre o Taiti, precisamente sobre o
encantamento amoroso, a disponibilidade. E isso tem um enorme
impacto na imaginação.
Na parte das viagens, verificamos
que elas são, de facto, um encontro com o outro. Mas é um encontro tão real como imaginado?
As primeiras grandes viagens têm
grande impacto na imaginação. Plínio, dito O Velho, por exemplo, faz
viagens, mas inventa a maior parte
delas, no século I da nossa Era Comum. Mas tem um efeito extraordinário.
Quando Cristóvão Colombo viaja,
leva o livro de Plínio. Ainda acreditavam nos monstros que ele tinha
descrito. Quando surge a carta de
Prestes João, que é uma falsificação,
é interpretado como uma confirmação daquilo que tinha relatado Plínio.
Depois há viagens reais. Houve Rubruck, Giovanni Carpini e,
sobretudo, Marco Polo. Se bem que,
quando eles voltam, têm grande
impacto no livro de imaginação.
Contudo, na época, o livro mais
divulgado sobre viagens é o de John
Mandeville, que era tudo mentira.
A atração sobre a fronteira, sobre o
desconhecido, sobre as faunas, mas
sobretudo os grandes poderes, a
sumptuosidade do Oriente, da China, os tártaros, a corte mongol.
Simultaneamente, há uma parte
da viagem que é imaginada e,
às vezes, totalmente falsa, uma
espécie de crítica em relação ao
que se vivia?
Isso é claro em textos como a
Utopia, de Thomas More, que é a
descrição de uma ilha fantasiosa,
que é parecida com Londres, na
verdade. Tem os 54 bairros de Londres, o tipo de justiça que havia em
Londres, o mesmo tipo de estrutura, discute os males das instituições
britânicas e como essa ilha seria
uma alternativa.
Quando estão a discutir uma
sexualidade livre, também estão a
criticar a ausência de sexualidade
livre. Não é apenas Thomas More
que o faz?
Embora Thomas More o faça também. Ele sendo um católico conservador, no entanto, permite-se
na Utopia a alguma exaltação do
deleite. Inventa aquela cena – por
acaso, foi cortada na edição portuguesa durante a ditadura – em que
antes do casamento era obrigatório
o noivo e a noiva verem-se nus para
poderem avaliar-se mutuamente.
A ideia dessa cena está muito presente em muitas utopias a partir daí.
Como a ideia das viagens ao Oriente
para buscar uma sexualidade libertada. O que Flaubert conta da ida
ao Egito, a descoberta dos bordéis
masculinos, o que ele conta aos seus
correspondentes é essa exaltação
deslumbrada de um mundo em que
se podia ser sexualmente dominante.
Não é bem livre, porque era
dominante, mas que fazia parte do
proibido na sociedade ocidental.
Cita David Graeber, em relação
à publicação do discurso de um
índio, em que ele defende uma
certa plasticidade das formas de
organização política e das formas
de organização de poder, que não
seguiriam um caminho único.
O argumento de Graeber é que a
revolução agrícola, a domesticarão
dos animais e o início da capacidade
de criar comunidades urbanas relativamente grandes – chega a falar
de comunidades de dez mil pessoas
– não corresponde logo à formação
do Estado. E isso contraria as visões
tradicionais da antropologia, e as
teses que Marx e, sobretudo, Engels
retomaram de antropólogos do seu
tempo. E isso é muito discutido
porque, evidentemente, os vestígios
dessas comunidades, que seriam
pequenas microexplorações relativamente próximas umas das outras
com alguma relação de vida comunitária, são escassos.
De qualquer forma, o argumento
deles é muito poderoso e plausível desse ponto de vista. Portanto,
o facto de começar a haver uma
produção de excedente agrícola não
se traduz imediatamente na estruturação das classes, como vemos
acontecer mais tarde.
Há o conhecimento, esse bem
fundamentado, de comunidades,
por exemplo, de caçadores no Alasca, no norte do Canadá e na Gronelândia que viviam divididos em
duas épocas. Pequenos grupos de
caça com muita autoridade e com
uma hierarquia muito definida que
saíam para caçar na época em que
era possível. E uma vida comunitária, incluindo uma vida sexual
de parcerias múltiplas, quando
estavam refugiados numa grande
tenda comum para suportar o inverno. Portanto, há histórias muito
diferenciadas que fazem parte desse
processo histórico. E as sociedades
evoluíram, na verdade, construindo
o poder. Não numa sucessão linear
como nos habituámos a pensar.
O que o levou a escrever este livro,
tão aparentemente fora da sua
área da economia e da política, e a
trabalhar durante anos nele?
Eu levei seis anos a escrever este livro. Comecei nos primeiros dias da
pandemia. Na verdade, com muitas
coisas mais antigas. É o Périplo, do
Miguel Portas, que me inspira e me
dá os primeiros conhecimentos que tive sobre as lendas e a cultura suméria. São leituras de 2009, se não
me engano.
Muitas conversas com o Michael
Löwy, e com muitas outras pessoas,
como Eduardo Lourenço, sobre
a religião, e ainda com Maria de
Lourdes Pintasilgo, resultaram em
ideias que fui anotando em cadernos. Quando comecei a escrever,
era porque queria responder a esta
pergunta: o que é que nos distingue
dos outros animais, com os quais
temos um património genético tão
amplamente comum?
Desde a mosca-da-fruta...
É tão extraordinário que possa explicar a evolução dos seres humanos
como o ser mais perigoso e o mais
fascinante que existe no planeta.
Eu creio que a resposta para isso é
a imaginação. E, portanto, procurei
estudar algumas das suas expressões. Haverá outras. Escrevo sobre
as viagens, os amores, a religião, as
cores, e a sua expressão também na
literatura. Portanto, é através de um
mapa, de um roteiro de expressões
da imaginação, que quis procurar demonstrar quão poderosa ela
é nessa característica única que é
instruir a nossa cultura e criar uma
acumulação cultural. No fundo, é
dizer que os seres humanos não
estão destinados. Nós não estamos
obrigados à catástrofe da submissão. e da uniformização. A alienação, que
é a grande força contrária à imaginação, significa atrofiar e submeter-nos do ponto de vista mercantil
e do ponto de vista discursivo. É
combatida com a capacidade de
imaginação do que não existe e com
a vontade do que não existe.
Mas não estamos condicionados,
como naquela célebre citação de
Marx – “A tradição de todas as gerações mortas preenche como um
pesadelo o cérebro dos vivos” –
em que este afirma que a Humanidade faz a sua própria História,
mas não a faz em circunstâncias
que ela própria escolheu?
Sim, claro. Nós imaginamos num
contexto limitado. Mas podemos
imaginar o que não existia. É a história do homem com a cabeça de
leão. Isso não existia, mas foi imaginado. Pode-se, portanto, ultrapassar
as fronteiras dos condicionamentos
em que vivemos.
Gauguin fazia isso: como eu só
tenho um quadro para pintar a Natureza, e a Natureza é muito maior,
ponho um quilo de verde para
exprimir o verde. Portanto, torno
os violetas, os lilases, o vermelho,
como Vieira da Silva dizia no seu
testamento: quero um vermelhão
que corra como sangue.
Essa ideia de que temos
imaginação e não estamos
condenados a viver a vida que
vivemos é o que o fez escrever?
É isso o meu ponto de partida.
Exatamente. Quero que as pessoas
que leem possam encontrar
formas muito poderosas de
representação de imaginação. Mas
que representem esta ideia de que
a imaginação humana, que cria
formas e conteúdos completamente
diferentes, é uma extraordinária
potência.
Mas ela pode repetir aquilo que
já imaginou previamente como
emancipação ou terá de tomar
obrigatoriamente novas formas?
Isso só a História o dirá. Mas é
muito provável que vá inventando
formas novas. Sendo que há
características que são elas
próprias muito permanentes. Se
a sociedade humana se baseia no
trabalho, a emancipação é sempre a
emancipação do trabalho. É sempre
a emancipação da penosidade da
exploração, da alienação da perda de
relação com o seu próprio produto, com a sua própria vida, com a sua
própria existência, com a imposição
de fantasias mercantilizadas que
destrói a relação amorosa ou que
destrói a capacidade de viver em
comunidade.
Estamos a viver uma época que
talvez não seja mesmo fulgurante.
Parece que muitos dos nossos
medos estão inscritos nas nossas
entranhas. Como é possível
escapar a isso?
Nós inscrevemos-nos a nós próprios. Temos uma capacidade
genética de falar, mas aprendemos
uns com os outros a falar. Portanto,
a linguagem não está inscrita nos
genes. Isso dá-lhe uma imensa potencialidade.
Mas não contraria a ideia de
Chomsky de que a linguagem
encaixa numa espécie de estante
pré-existente?
Acho que não tem razão. Mas os linguistas que discutam. De qualquer
modo, é incontestável que construímos a linguagem. E conseguimos
transformá-la em escrita. Isso não
está inscrito nos genes. Codificamos a escrita e ao fazê-lo permitimos uma grande capacidade de
comunicação. Muitas outras formas
de comunicação surgiram depois,
mas a escrita é a tecnologia mais
extraordinária que existe. Que, aliás,
sobrevive como base de todas as
outras tecnologias de comunicação.
O Twitter continua a ser escrita. As formas mais perversas, mais
alienadas de comunicação, as mais
mercantilizadas continuam baseadas na tecnologia da escrita, que
é uma forma de codificação da
linguagem. Essa ultrapassagem de
todos os limites segue caminhos
diferentes. É sempre disputada e
transformada ao longo do tempo.
O facto de a linguagem ser um
modo de instruir a imaginação e de
expressar a acumulação cultural não
contradiz o facto de ser feito em
relações de poder organizadas.
Um dos exemplos, aliás, é a própria celebração das missas na Igreja
Católica. Até ao século XX, eram
feitas em latim e com o padre virado
de costas a memorar umas coisas
que provavelmente nem ele sabia
o que significavam e que grande
parte das pessoas não podia ouvir.
Era uma mera exibição de poder.
Era uma forma de comunicação da
figura do poder.
Essa opacidade é de alguma forma
compensada pelas imagens que
temos nas igrejas?
Durante muito tempo havia à porta
das igrejas uma bíblia ilustrada, que
era a Bíblia Pauperum, que foi concebida, como o nome sugere, para
que os pobres admirassem as gravuras. Há uma grande polémica sobre
as imagens, que é muito importante
no final do século I. Mas a ideia de
que as igrejas devem ser escuras ou
soturnas, que devem ter vitrais que de repente iluminam ou que devem
ter imagens bíblicas foi muito discutida durante muito tempo.
Por exemplo, Lutero interveio
contra os seus próprios apoiantes
a favor da instituição das imagens.
Porque eles interpretavam algumas palavras bíblicas como sendo
proibido representar a divindade e
representar o próprio ser humano.
Que, aliás, é feito à imagem e semelhança da divindade.
Ele intervém contra isso porque
quer criar uma imaginação religiosa.
Quer que as pessoas imaginem um
deus.
Em Bizâncio, discutiu-se com
Roma se deviam utilizar ou não as
imagens. Essa discussão demorou
cerca de 100 anos. Mas foi resolvida
no Ocidente com a afirmação de que
era preciso cultivar a imaginação.
Criar imagens que as pessoas
reproduzissem como sendo o seu
lugar de devoção e submissão.
Quando, por exemplo, Miguel Ângelo pinta a Capela Sistina, há um
Papa que decide destruí-la. Acabou
por não o fazer. Houve apenas uns
sexos que foram ocultados e algumas outras modificações. Criou-se
uma imagem do divino: Deus ficou
um ancião de barbas brancas. Jesus
passou a ser um europeu ocidental
de pele clara. Quando, evidentemente, era um semita que hoje seria
tratado como um imigrante ilegal.

teto da capela cistina
A escrita é a
tecnologia mais
extraordinária
que existe. Que,
aliás, sobrevive
como base de
todas as outras
tecnologias de
comunicação.
O Twitter
continua
a ser escritaNa Capela
Sistina, criou-se
uma imagem
do divino: Deus
ficou um ancião
de barbas
brancas. Jesus
passou a ser
um europeu
ocidental de pele
clara. Quando,
evidentemente,
era um semita
que hoje seria
tratado como um
imigrante ilegal.