domingo, 23 de agosto de 2026

Telmo Viveiros e Irene Catanho e o grande jornalista Élvio Passos falam do grande padre Martins

 

Padre Martins Júnior, um revolucionário de mentalidades

Foi padre, deputado durante sete mandatos, presidente da Câmara de Machico e uma das figuras mais controversas da vida madeirense das últimas cinco décadas. Na Ribeira Seca deixou uma marca que atravessou gerações. Irene Catanho e Telmo Viveiros, mãe e filho, ajudam a contar o homem para além do “padre vermelho”.

José Martins Júnior foi padre, político, músico, compositor, dirigente associativo e, durante décadas, uma das vozes mais incómodas da Madeira. Para uns, o “padre vermelho”, provocador e agitador. Para outros, alguém que deu voz a uma população esquecida e enfrentou poderes que pareciam intocáveis.

Morreu a 12 de Junho de 2025, aos 86 anos, mas é difícil contar a história recente de Machico, e particularmente da Ribeira Seca, sem passar por ele.

Natural de Machico, onde nasceu a 16 de Novembro de 1938, foi ordenado sacerdote em 1962 e chegou à paróquia da Ribeira Seca a 22 de Junho de 1969. Foi para ficar.

RESERVADO PARA SI

Irene Catanho tinha menos de quatro anos quando Martins Júnior chegou. Os pais estavam ligados à Igreja e o novo padre tornou-se presença habitual em casa. Ia falar de assuntos da paróquia, mas também almoçar e participar em festas e aniversários.

A primeira imagem que Irene guarda ainda é a de um sacerdote colocado num pedestal.

“Era um senhor que o meu pai nos obrigava, entre aspas, a beijar a mão.”

O pai acabaria por abandonar esse gesto de reverência. Irene acredita que também por influência do próprio Martins Júnior.

Telmo Viveiros, filho de Irene, já pertence a outra geração e tem um problema diferente quando tenta procurar a primeira recordação do padre.

Não a encontra.

“Ele sempre esteve lá.”

Era quase da família.

É talvez nessa capacidade de atravessar gerações que melhor se percebe a dimensão que Martins Júnior ganhou na Ribeira Seca. O trabalho religioso rapidamente ultrapassou a igreja. Havia jovens para mobilizar, música para ensinar, festas para organizar e uma população que, na leitura de Irene, precisava sobretudo de perceber que não era inferior a ninguém.

Martins Júnior dava responsabilidades cedo. Irene tinha cerca de 14 anos quando a mandou sozinha ao Funchal tratar de uma tarefa relacionada com uma festa.

Não era apenas uma forma de conseguir quem fizesse o trabalho.

“Ele fazia-nos sentir que aquilo era nosso.”

A juventude tornou-se uma das suas prioridades. Ensinava música, preparava espectáculos, criava coreografias e juntava crianças e jovens em actividades que, mais tarde, ganhariam outra dimensão com a criação da Tuna e com o trabalho desenvolvido no Centro Cívico e Cultural da Ribeira Seca.

Telmo cresceu nesse mundo. Ainda criança já subia ao palco nas romagens e festas. Por volta dos 13 anos, Martins Júnior ensinou-o a tocar bandolim.

O método reproduzia-se: ensinava alguém e esse alguém deveria ensinar outros.

Décadas depois, seria Telmo a receber publicamente uma espécie de passagem de testemunho.

Aconteceu a 30 de Maio de 2025, no Encontro de Bandolins de Machico. Martins Júnior insistiu que queria falar durante a actuação. Antes de tocarem “Bella Ciao”, uma das músicas de que gostava, anunciou que aquela seria a sua última actuação e disse que Telmo continuaria o trabalho.

Telmo não sabia de nada.

“Fiquei um pouquinho em choque.”

Tanto que começou mal a música. A primeira decisão que tomou enquanto novo “responsável” foi, em tom de brincadeira, recusar a responsabilidade: para ele, o responsável continuaria a ser Martins Júnior.

Treze dias depois, o padre morreu.

Hoje, Telmo e outros músicos tentam recuperar um património que ficou disperso. São centenas de músicas, muitas sem partitura, algumas guardadas apenas na memória de quem as cantou ou tocou. Nos últimos anos ainda conseguiram recuperá-las diante do próprio autor. Tocavam e Martins Júnior corrigia.

Agora procuram letras, papéis encontrados entre os livros que deixou e, sobretudo, pessoas que ainda saibam como aquelas músicas soavam.

O padre que entrou na política

O 25 de Abril encontrou Martins Júnior já com uma intervenção social que dificilmente cabia apenas dentro da igreja.

Em 1975 chegou à presidência da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Machico. Depois vieram os conflitos políticos e religiosos que marcariam grande parte da sua vida pública.

Em Julho de 1977, o bispo do Funchal, D. Francisco Santana, suspendeu-o “a divinis”. A pena significava que deixava de poder exercer licitamente o ministério sacerdotal, mas Martins Júnior permaneceu na Ribeira Seca e continuou a celebrar, acompanhado por uma parte significativa da população.

A ruptura duraria 42 anos.

Irene Catanho rejeita que esse conflito possa ser entendido como falta de fé.

“O Padre Martins era um homem de fé, ninguém se iluda.”

Na sua leitura, era precisamente a fé que o levava a questionar a própria Igreja quando entendia que os seus comportamentos não correspondiam à mensagem de Cristo.

A Ribeira Seca ficou, em larga medida, ao lado dele.

Para Irene, há uma explicação que vai além da religião. Quando Martins Júnior chegou, encontrou uma população pobre, com poucas oportunidades e habituada a uma posição social subalterna.

“Ele fez as pessoas perceberem: vocês são gente como toda a gente.”

Incentivou famílias a mandarem os filhos estudar, criou actividades para crianças e jovens e procurou dar maior protagonismo às mulheres. Mais do que obras, Irene vê aí uma transformação na forma como uma comunidade passou a olhar para si própria.

Sete mandatos no parlamento

A política partidária acabaria por ocupar uma parte importante da sua vida.

Martins Júnior foi deputado à Assembleia Regional durante sete mandatos, quatro pela UDP e três pelo PS. No parlamento tornou-se uma das vozes mais combativas da oposição e protagonista de confrontos que ajudaram a construir a imagem pública que o acompanharia durante décadas.

Não era homem de passar despercebido.

As intervenções parlamentares eram seguidas em Machico e comentadas no dia seguinte. O discurso directo, a provocação e a recusa em recuar perante os adversários fizeram dele um dos grandes tribunos da política regional, mas também um dos deputados que mais irritava a maioria social-democrata.

Os conflitos chegaram a ultrapassar as palavras.

Houve discussões, episódios físicos e histórias que durante semanas alimentaram a política madeirense. Nada disso parece ter-lhe mudado o temperamento. Uma vez provocador, provocador sempre.

Em 1989, protagonizou um resultado eleitoral único: conquistou a Câmara Municipal de Machico pela UDP. Quatro anos depois voltou a ganhar, agora pelo PS, mantendo-se na presidência até 1997.

Para Irene, as duas vitórias explicam-se menos pelas siglas do que pelo candidato.

“Em Machico nunca foram os partidos a ganhar eleições.”

A passagem da UDP para o PS é recordada através de uma imagem que Martins Júnior utilizava. A UDP era um barco pequeno e, para conseguir fazer mais, precisava de passar para um barco maior.

Telmo interpreta da mesma forma essa relação com a política partidária.

“Ele não era um homem de partidos.”

Os partidos eram instrumentos para alcançar objectivos.

Na Câmara, Irene conheceu Martins Júnior de outra maneira. Quando foi escolhida para trabalhar com ele, perguntou-lhe porquê.

A resposta ficou-lhe na memória:

“Porque tu questionas. E porque tu tens coragem de dizer não.”

Não procurava alguém que concordasse sempre. Queria ouvir quando estava certo e quando estava errado. Depois decidiria se aceitava.

A presidência de Machico foi marcada por obras, abertura de caminhos e estradas e por uma forma muito própria de envolver as populações. Mas também pelo confronto permanente com o poder regional.

Irene admite que Machico possa ter perdido alguma coisa por causa dessa atitude. Acredita, porém, que ganhou algo mais importante.

Mentalidade.

Martins Júnior recusava a ideia de que fosse necessário curvar-se perante quem governava para obter uma estrada ou qualquer outra coisa a que a população tivesse direito.

“A coluna não curva.”

O regresso à Igreja

O conflito religioso que começara nos anos 70 só teria um desfecho institucional em 2019.

A 16 de Junho desse ano, D. Nuno Brás revogou a suspensão aplicada 42 anos antes e nomeou Martins Júnior administrador paroquial da Ribeira Seca. O sacerdote que nunca abandonara a comunidade regressava formalmente à estrutura da Diocese.

Nem todos os seus apoiantes receberam imediatamente bem a decisão. Irene recorda que houve quem não aceitasse a aproximação e que, pela primeira vez em décadas, sentiu alguma divisão dentro da própria Ribeira Seca.

Para ela, porém, a reconciliação significava uma vitória.

Martins Júnior não entendia que estivesse a renegar o passado ou a reconhecer que estivera errado. A sua fé, dizia, continuava a mesma.

Deixaria as funções de administrador paroquial em 2023.

O outro Martins Júnior

Por detrás do padre rebelde e do político que fazia discursos inflamados havia um homem que Irene e Telmo descrevem de maneira muito menos conhecida.

Dava boleia a quem encontrava pelo caminho. Se alguém precisava de ir ao médico, procurava maneira de resolver o problema. Depois da missa das sete da manhã, se estivesse a chover, preocupava-se em saber como regressariam a casa as pessoas que tinham ido a pé.

Ajudava financeiramente quem precisava e nem sempre sobrava muito para ele.

O que mais o magoava não era perder uma votação ou ouvir um adversário político.

Era a traição de alguém próximo.

Também não gostava da ideia de depender dos outros. Telmo recorda-lhe a vontade de permanecer autónomo até ao fim, sem se tornar um peso para ninguém.

Era, ao mesmo tempo, um homem com consciência das próprias capacidades. Irene hesita em chamar-lhe vaidoso. Prefere outra palavra: tinha “brio”.

E fazia muitas coisas.

Padre, político, músico, compositor, arranjador, ensaiador, criador de coreografias. Telmo olha hoje para o trabalho que ficou e nota que são necessárias várias pessoas para fazer aquilo que Martins Júnior fazia sozinho.

Em 1995, Mário Soares distinguiu-o com o grau de Comendador da Ordem do Mérito.

Mas o reconhecimento que Irene escolhe para resumir a sua vida não vem de uma condecoração.

No funeral, viu adolescentes de 15, 16 e 17 anos quererem carregar o caixão de um homem que tinha 86.

Para ela, é uma imagem que explica muito.

Telmo acredita que o tempo já começou a alterar a forma como Martins Júnior é visto. O “padre vermelho”, o revoltoso e o desobediente começam a dar lugar a uma personagem histórica mais complexa.

Irene prefere olhar para aquilo que aconteceu às pessoas que passaram por ele. Algumas são hoje de esquerda, outras de direita, outras pertencem a diferentes partidos.

Não ficaram todas a pensar como Martins Júnior.

E é precisamente aí que encontra o legado.

“Ele não prendeu ninguém. Ele formou pessoas e agora escolham.”

Depois de mais de meio século na Ribeira Seca, sete mandatos no parlamento, oito anos à frente da Câmara de Machico e 42 anos de ruptura formal com a Diocese, Irene Catanho resume José Martins Júnior numa frase:

“Foi um revolucionário de mentalidades.”

 Grande trabalho jornalístico do consagrado jornalista Élvio Passos publicado no Diário do falso padre das esmolinhas edição deste domingo. (As fotos históricas aqui publicadas foram censuradas pelo padre Ricardo na edição em papel.)


sábado, 22 de agosto de 2026

‘Protegida de Montenegro’ na ERC: Rita Rola recebe ‘avença’ mensal de 6.166 euros por uma deslocação semanal (de avião) a Lisboa

 Durante séculos, sinecura passou a designar um cargo ou benefício que assegurava prestígio e remuneração sem exigir presença regular, responsabilidade efectiva ou trabalho proporcional à retribuição. O termo nasceu da expressão latina sine cura — “sem cuidado” — e acabou por se transformar no símbolo dos lugares distribuídos por conveniência política, nos quais o estatuto prevalece sobre a função.

Esta é precisamente a imagem que, na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), se associa ao mandato de Rita Rola, advogada do Porto escolhida, no final de 2023, para integrar o Conselho Regulador como quinto elemento, eleito por cooptação. Sem experiência conhecida na área dos media, da regulação da comunicação social ou do jornalismo, Rita Rola, de 46 anos, ocupa um dos cargos mais bem remunerados da entidade, com um vencimento de 6.166 euros mensais, que inclui despesas de representação.


Rita Rola, membro cooptado para a ERC com ‘dedo’ do primeiro-ministro. Foto: ERC.

A sua presença pública e institucional é, porém, praticamente invisível. E existe uma razão que poderá ajudar a explicá-lo: mantém a sua vida pessoal e uma parte substancial da actividade profissional na região do Porto, onde reside e permanece associada a duas instituições privadas de ensino superior. Nas anteriores composições da ERC, procurava-se que o quinto elemento do Conselho Regulador — cooptado pelos quatro membros eleitos pela Assembleia da República — fosse uma personalidade de reconhecido mérito, frequentemente oriunda do jornalismo, do direito da comunicação, da academia, da magistratura ou de um percurso ligado à liberdade de imprensa e à regulação dos media. A escolha de Rita Rola, em Novembro de 2023, constituiu, por isso, uma surpresa no sector. Era praticamente desconhecida entre jornalistas e especialistas em comunicação social. Na política, porém, tinha ligações relevantes.

Licenciada em Direito e doutorada pela Faculdade de Ciências Jurídicas e do Trabalho da Universidade de Vigo, Rita Rola construiu a carreira sobretudo na advocacia, dedicando-se às áreas da violência doméstica e da violência contra a família. Exerceu ainda funções de juíza social no Tribunal de Família e Menores do Porto e de jurista na delegação da Cruz Vermelha da Póvoa de Varzim, no apoio a vítimas de violência doméstica. Em paralelo, desenvolveu actividade docente no Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo do Porto (ISCET) e na Universidade Fernando Pessoa.

Até chegar à ERC, era uma figura pouco conhecida mesmo no meio jurídico. Segundo o seu site, exercia num escritório no n.º 63 da Praça do Império, no Porto, na mesma morada onde funciona a PGA Advogados e onde trabalha Benedita Aguiar-Branco, sobrinha do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco. Segundo apurou o PÁGINA UM, porém, esta ligação familiar não terá estado na origem da sua escolha para o regulador dos media.

A principal ligação política conhecida de Rita Rola encontra-se num patamar superior. Embora não haja indicações de militância no PSD, esta advogada desempenhou durante vários anos as funções de secretária da Assembleia Municipal de Espinho — passagem que não consta do currículo público. Entre 2009 e 2013, assumiu em diversas ocasiões a presidência em exercício daquele órgão, substituindo Luís Montenegro, então presidente da Assembleia Municipal, que, desde 2011, acumulava o cargo com a liderança do grupo parlamentar social-democrata.

A composição do actual Conselho Regulador resultou de um delicado equilíbrio político. Helena Sousa e Carla Martins terão sido indicadas pela esfera do Partido Socialista, enquanto Telmo Gonçalves e Pedro Gonçalves surgiram associados à área social-democrata.

Nos bastidores parlamentares, numa fase em que o Governo de António Costa atravessava um período de crescente fragilidade, a informação recolhida pelo PÁGINA UM aponta para que Luís Montenegro tenha feito prevalecer o nome de Rita Rola para o lugar de quinto elemento cooptado. A sua entrada inclinou o equilíbrio interno para a esfera social-democrata — que, poucos meses depois, chegaria ao Governo — num regulador que se tem revelado permeável às influências do poder político.

Desde a tomada de posse, a actividade pública de Rita Rola relacionada com a ERC tem sido praticamente inexistente. Ao longo de cerca de dois anos e meio de mandato, são raríssimas as intervenções, entrevistas ou tomadas de posição que lhe são conhecidas. No próprio mural de Facebook do regulador encontra-se apenas uma intervenção sua no programa do Provedor do Telespectador da RTP, emitido em 19 de Julho de 2025, na qual surge a ler uma norma jurídica sobre a sinalização etária da programação.

Enquanto os restantes membros aparecem regularmente nas fotografias de encontros nacionais e internacionais — nos quais a presidente, Helena Sousa, participa habitualmente acompanhada por Carla Martins ou Pedro Gonçalves —, contam-se pelos dedos de uma mão as ocasiões em que Rita Rola surge em iniciativas públicas. E, nas poucas aparições identificadas pelo PÁGINA UM, repete-se uma particularidade: ocorreram à quinta-feira ou, com menor frequência, à quarta-feira. Ver Rita Rola em Lisboa às segundas, terças e sextas-feiras seria coisa de pasmar. Fim-de-semana nem pensar…

Desde o início do mandato são abundantes as fotos dos membros do Conselho Regulador da ERC em reuniões do sector (como esta com os membros da CCPJ em finais de 2023) sem a presença de Rita Rola. Foto: ERC.

Se for outro qualquer dia a semana, quase é garantido que Rita Rola não mete os pés no pequeno palacete de Santos, junto á Avenida 24 de Julho. Foi o caso da assinatura formal de um acordo de regulação com a RTP, SIC e TVI sobre os concursos telefónicos. Apesar do aparato — entre outros esteve Nicolau Santos, Ricardo Costa e Francisco Pedro Balsemão —, Rita Rola foi a única ausência do Conselho Regulador. a razão é simples. o dia 15 foi numa quarta-feira, incompatível com a sua agenda pessoal.

Segundo apurou o PÁGINA UM, Rita Rola desloca-se normalmente apenas uma vez por semana à sede da ERC, em Lisboa. Nessas viagens, terá optado habitualmente pelo avião entre Porto e Lisboa, regressando no próprio dia à região norte onde reside. O jornal verificou também que diversas deliberações do Conselho Regulador contêm a sua assinatura digital.

Este facto, por si só, não permite concluir que tenha participado remotamente nas respectivas reuniões, razão pela qual o PÁGINA UM lhe perguntou quantas vezes esteve fisicamente presente na sede da ERC e quantas participou à distância.

À semelhança dos restantes membros do Conselho Regulador, Rita Rola terá ainda uma viatura atribuída pela ERC. O PÁGINA UM não conseguiu, contudo, confirmar qual a utilização efectiva do veículo, se este permanece à sua disposição quotidiana ou se está reservado a deslocações em serviço. A conselheira não prestou, ao fim de mais de uma semana, qualquer esclarecimento sobre esta e muitas outras questões.

No passado dia 20, o PÁGINA UM dirigiu a Rita Rola um conjunto de 21 perguntas sobre as condições em que exerce, a tempo inteiro, o cargo de membro do Conselho Regulador da ERC. As questões incidiam, entre outros aspectos, sobre a sua residência habitual no Grande Porto, a frequência das deslocações às instalações da entidade, em Lisboa, o meio de transporte utilizado, a eventual atribuição de viatura, o número de reuniões em que participou presencialmente ou à distância e a compatibilidade entre uma alegada presença física limitada a um dia por semana e o regime de tempo inteiro inerente às funções.

Recorde-se que o Tribunal Administrativo de Lisboa intimou, por sentença do início deste mês, a ERC a mostrar os documentos associados aos registos dos veículos do Estado usados pelos membros do Conselho Regulador, que podem ainda recorrer da decisão até á próxima sexta-feira.

Única vez, nos ‘arquivos’ da ERC no Facebook em que Rita Rola surge em Lisboa sem ser na quinta-feira. Neste caso, como apresentadora de um orador num conferência organizada pela ERC. Também não se regista qualquer presença da jurista a representar o regulador em reuniões nacionais ou internacionais. Foto: ERC.

Um dos aspectos mais polémicos tem sido o uso aparentemente generalizado de vários dos membro do Conselho Regulador em usarem de forma discricionária os veículos do Estado na sua vida privada, incluindo quando vão dar aulas para complementar os seus ordenados no regulador.

Foram ainda solicitados esclarecimentos sobre a manutenção de actividades docentes, formativas e profissionais, o processo que conduziu à sua cooptação, as relações institucionais ou políticas com Luís Montenegro e com partidos, a passagem pela Assembleia Municipal de Espinho, uma eventual militância partidária, a situação do seu escritório de advocacia e quaisquer circunstâncias susceptíveis de suscitar dúvidas sobre a sua independência ou imparcialidade. Rita Rola não respondeu a nenhuma das perguntas enviadas pelo PÁGINA UM. Saliente-se que o regulador tem sido muito crítico sobre a exigência do contraditório quando se escreve sobre alguém. No caso em apreço, um membro do Conselho Regulador opta pelo silêncio.

Não se pode, contudo, dizer que não tenha reagido. de facto, depois de receber as perguntas do PÁGINA UM, a conselheira da ERC eliminou do seu site as referências ao escritório n.º 9 do n.º 63 da Praça do Império, no Porto, bem como os contactos telefónicos que partilhava com Benedita Aguiar Branco, sobrinha do presidente da Assembleia da República.Contudo, já prevendo que a informação pudesse ser alterada ou removida, o PÁGINA UM preservara previamente a versão original da página num arquivo digital, uma hora antes de enviar as questões a Rita Rola (não respondidas). Porque aquilo que se publica na Internet pode desaparecer de um site, mas nem sempre desaparece da Internet.

Ficou, assim, registada a tentativa de apagar as ‘impressões digitais’ de quem procura manter-se discreta por detrás da cortina, enquanto recebe cerca de seis mil euros mensais e beneficia das regalias associadas a uma sinecura com cheiro a Espinho. PÁGINA UM