Estou mesmo zangado! Infelizmente as nossas melhores tradições folclóricas estão a desaparecer sem que ninguém se importe com elas. O nosso Pão-por-Deus está a ser substituído pelo halloween, os mascarados que eram celebrados no Dia de Reis em muitas freguesias da ilha também estão a se extinguir, e pior ainda, a velha tradição do povo laranja subir à serra e celebrar os grandes líderes e as grandes conquistas do Povo Superior também está a mingar.
Para as pessoas que gostam de preservar as tradições, as crenças e as memórias, não há lembrança de um mês tão negro e tão deprimente como este mês de julho. Foi desesperante ver o grande Líder da Barbicha, rodeado da sua corte de janízaros(1), a discursar para meia dúzia de gatos pingados (mas estavam mesmo pingados!) no meio daquele imenso campo escalvado, bordejado por feiteira e carqueja.
Os entusiastas tradicionalistas da nossa Nuremberg madeirense nem queriam acreditar que os velhos discursos inflamados do Grande Líder com os seus notáveis perfilados no palco, os silêncios, as luzes, a música a toque marcial a acompanhar o grande ataque aos colonialistas de Lisboa, e depois, a explosão, os aplausos, a algazarra popular que acabava em rondas entusiastas pelas barracas de petiscos; de sandes de gata, dentinhos de gaiado, chicharros fritos afogados em litros de grogues e em barricas de vinho seco, tudo isso se esfumou num ápice, uma apagamento quase irreversível neste mês de julho, o que é extremamente desagradável para a nossa cultura e memória etnográfica.
Os estudiosos mais puristas defendem que para se manter viva a velha tradição do Grande Comício Festa na serra, seria de bom estudar novamente as ideias do Doutor Joseph Goebbels, aprofundar os ensinamentos da raça superior de Alfred Rosemberg, convidar jornalistas para pequenos estágios sobre o trabalho cinematográfico de Leni Riefenstahl, e se possível, voltar à antiga coreografia do arquiteto Albert Speer, porque com o nosso Barbicha isso não vai lá!
(1)Os janízaros (do turco Yeniçeri, "nova força") eram a temida infantaria de elite do Império Otomano, leais diretamente ao sultão. Formados nos séculos XIV, estes soldados eram originalmente rapazes cristãos capturados nos Balcãs, convertidos ao Islão e treinados com extrema disciplina, servindo como base militar do império até serem extintos em 1826.