O DEUS MAMOM NO TRONO DO ALTAR:
A PROFANAÇÃO DAS “FESTAS RELIGIOSAS”
«As festividades que anualmente são organizadas em honra dos santos e da Virgem Maria são momentos, para muitos, marcantes na vida das comunidades. No entanto, quem olha com atenção e serenidade para a forma como muitas destas celebrações se desenrolam não pode deixar de sentir uma profunda inquietação. O que deveria ser um ato de fé e de louvor transformou-se, em muitos casos, num arraial profano onde o sagrado serve apenas de pretexto para o excesso.
É doloroso constatar que aquilo que se promove em nome do Evangelho é, tantas vezes, o oposto dos seus ensinamentos. Gastam-se quantias exorbitantes de dinheiro em conjuntos musicais e fogos-de-artifício, alimentando uma vaidade patética e um bairrismo sem sentido, cujo único objetivo é mostrar que uma terra faz "mais e melhor" do que a vizinha. Esquece-se, assim, o princípio cristão de que a mão esquerda não deve saber o que faz a direita, trocando-se a discrição e a caridade pela ostentação pública.
Esta incoerência torna-se ainda mais evidente na conduta de quem assume a organização destas festas. Assiste-se ao desplante de ver pessoas que desprezam a Eucaristia dominical (o centro e o Santo dos Santos da vida cristã) a aparecerem nos dias do arraial a pavonearem-se como devotos exemplares. Carregam as imagens sagradas aos ombros com uma desfaçatez de que parecem nem ter consciência, transformando um ato de veneração num desfile de orgulho pessoal.
O cúmulo desta profanação vislumbra-se numa tradição particularmente ofensiva que teima em persistir em algumas zonas da diocese: a colocação de fitas nas imagens dos santos para que os fiéis ali prendam notas de dinheiro durante a procissão. Este ato, camuflado sob a capa de uma suposta promessa ou devoção popular, esconde uma distorção grave do sentido do sagrado. À medida que o cortejo avança pelas ruas, assiste-se a um espetáculo degradante onde a figura do santo vai sendo progressivamente sepultada sob camadas de papel-moeda. No final da procissão, a imagem que deveria inspirar recolhimento, oração e imitação das virtudes evangélicas desaparece por completo. O que fica exposto aos olhos de todos já não é o rosto de um servo de Deus ou da Virgem Maria, mas sim a exibição ostensiva e triunfal do deus Mamom, o ídolo do dinheiro e da riqueza material.
Esta inversão de valores assume contornos ainda mais graves pela indiferença generalizada que a rodeia. Ninguém parece incomodar-se com esta indecência pública, que ocorre em plena via solene e sob o olhar cúmplice ou passivo da comunidade. A anestesia espiritual é tamanha que a profanação foi normalizada, porque a verdadeira prioridade das comissões de festa já não é o louvor divino, mas sim a garantia de um lucro avultado. O dinheiro arrecadado serve objetivos bem mundanos: assegurar o pagamento generoso ao clero (garantindo o silêncio ou a complacência de quem deveria zelar pela pureza da fé) e acumular fundos para continuar a estourar em vaidades, como palcos cada vez maiores e pirotecnia ruidosa.
Os santos são, assim, instrumentalizados e trazidos à rua com o único propósito de servirem como agentes de angariação de fundos. A procissão deixa de ser um ato comunitário de caminhada na fé e passa a ser uma mera transação comercial ambulante, onde o sucesso é medido exclusivamente pelo saldo financeiro positivo. Ao cobrir as imagens sagradas com notas e ao focar a atenção do público na quantia ali exposta, adota-se uma postura de exibicionismo e mercantilização que atenta contra o pudor cristão. É uma dinâmica de espetáculo e apelo visual que, pela sua falta de respeito e pela mercantilização do corpo e da imagem, lembra tragicamente os modos e os critérios usados nos cabarés, rebaixando o que é santo ao nível do entretenimento profano mais rasteiro.
Aqueles que beneficiam com este sistema, os chamados moderados que muitas vezes comem à custa dos santos, apressam-se a defender estas tradições com o argumento de que as festas aproximam as pessoas, promovem o convívio e ajudam a descomprimir o dia a dia. O convívio e a confraternização são, sem dúvida, importantes e necessários na vida de qualquer comunidade. Contudo, impõe-se a pergunta: precisamos realmente de usar e profanar os santos para nos juntarmos? Não seríamos capazes de promover esses momentos de alegria e partilha sem fazer dos santos um mero pretexto ao ponto de os desrespeitar?
Criticar estes hábitos é, frequentemente, expor-se à incompreensão imediata e à revolta cega daqueles que não aceitam que se aponte o dedo às tradições vazias. Quem ousa questionar o sistema estabelecido é rapidamente rotulado como inimigo da festa ou da própria terra, pois a crítica mexe com o orgulho ferido e com interesses instalados. No entanto, o silêncio e a passividade perante a mercantilização e a profanação explícita do sagrado não são sinais de moderação ou respeito; são uma cumplicidade cobarde que desfigura e esvazia a nossa fé por dentro. Calar diante deste cenário é aceitar que a Igreja se transforme num mercado e os santos em mercadoria. É tempo de rasgar esta capa de hipocrisia e iniciar uma purificação corajosa das nossas festas, devolvendo-lhes de forma urgente a dignidade perdida, a sobriedade cristã e a verdadeira essência do Evangelho.»
(P. António Magalhães Sousa)


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