O rei deposto da Tabanca
«Tanto o Bokassa como o cabeça-de-bigorna são seres deformados. São feios, parecem o homem de Neanderthal.»
Na velha Tabanca viveu, durante muitos anos, um homem chamado Alberto. Autoproclamava-se o maior génio político que aquelas paragens alguma vez tinham conhecido. Se alguém ousasse discordar, era logo catalogado como ignorante, invejoso ou conspirador. Para Alberto, o único erro possível era o dos outros.
Enquanto reinou, distribuiu favores pelos amigos e benesses pelos companheiros mais obedientes. A corte prosperava e os seus fiéis garantiam-lhe aplausos permanentes. Convencido de que era insubstituível, nunca percebeu que eram precisamente esses aduladores que lhe iam cavando a sepultura política.
Com o passar dos anos, Alberto começou a perder o norte. Via conspirações em toda a parte, imaginava perseguições constantes e desconfiava até da própria sombra. Na Tabanca comentava-se que o velho rei já confundia a realidade com os delírios que lhe enchiam a cabeça. Ainda assim, continuava a proclamar que era o único capaz de salvar o reino.
O mais cómico era que o alegado génio nunca percebeu quem realmente lhe fez a folha. Enquanto discursava sobre a sua inteligência incomparável, os seus próprios correligionários tratavam de lhe retirar o trono. Quando finalmente abriu os olhos, já era tarde. Foi corrido pelos mesmos que durante anos lhe chamaram líder, mestre e visionário.
Antes de abandonar o poder, decidiu deixar a Tabanca num caos absoluto. Se ele já não podia mandar, então ninguém governaria em paz. Deixou problemas por resolver, confusão instalada e um reino abandonado à própria sorte. Pouco lhe importava. Afinal, os seus comparsas já tinham lucrado o suficiente para nunca mais se preocuparem com o futuro da Tabanca.
Hoje, Alberto vive refugiado na Rua do Rebenta Costas, onde passa os dias mergulhado nas recordações de uma grandeza que só existe na sua imaginação. Continua convencido de que foi vítima da maior injustiça da história e repete, vezes sem conta, que todos lhe roubaram o lugar que lhe pertencia por direito divino.
Mas é na velhice que se revela a sua maior transformação. Durante décadas insultou jornalistas, atacou televisões e acusou os comentadores de serem o pior mal da Tabanca. Agora faz precisamente o contrário. Anda de porta em porta a oferecer-se para entrevistas, aceita qualquer convite para televisão e comenta tudo o que mexe, mesmo quando nada sabe sobre o assunto.
Tornou-se o mais fervoroso defensor daquilo que antes combatia com fúria. Cada aparição pública é uma nova cambalhota. Cada declaração desmente a anterior. Cada intervenção confirma que a coerência abandonou a Rua do Quebra Costas muito antes dele.
Na reta final da vida, já à beira de bater as botas, Alberto acabou por deixar a única herança verdadeiramente incontestável. Não foi a de um estadista nem a de um génio político. Foi a de um homem consumido pela vaidade, derrotado pela própria arrogância e recordado como o maior hipócrita que a Tabanca alguma vez conheceu. No fim, o antigo rei não passava de um velho em delírio.