quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

SOUSA MARTINS, especialista em tuberculose, foi médico da família real e ganhou a devoção dos pobres pelo seu caráter humanista e caridoso

 Sousa Martins ao contrário da maioria dos médicos de hoje não olhava o exercício da medicina como um negócio para enriquecer rapidamente e comprar património e adquirir mansões e  quintas.


SOUSA MARTINS (1843-1897) Cobrar, só aos ricos
 «Ao abrir a porta da carruagem, para mais uma consulta domiciliária, Sousa Martins deparou com o doente à janela. Consciente dos mil e um afazeres do médico, sempre a correr de um lado para o outro, informou-o de que tinha a pulsação normal, mostrou-lhe a língua e disse-lhe para seguir viagem, que não se preocupasse que continuaria a tomar a medicação. O clínico deu meia-volta e fez-se ao caminho. Pouco tempo depois, tornaram-se compadres. Na segunda metade do século XIX, Sousa Martins estabeleceu com os pacientes uma relação de grande proximidade. Envolvido em múltiplas atividades, nunca recusava assistência a quem quer que o procurasse, deslocando-se muitas vezes a casa dos enfermos. Era já médico da família real, com um prestígio reconhecido pelos pares, e continuava a acudir aos mais desfavorecidos. No seu ofício, não fazia distinções. Com uma nuance: qual Robin dos Bosques da Medicina, cobrava somas elevadas aos pacientes abastados para, depois, nada cobrar aos pobres – e não era raro ainda lhes deixar dinheiro para os remédios. Nascido a 7 de março de 1843, em Alhandra, de pai carpinteiro e mãe doméstica, José Tomás de Sousa Martinsnunca enriqueceu. O dinheiro só servia para lhe dar uso, dizia. Por exemplo, em maços de tabaco, um vício de toda a vida. Aos 12 anos, já órfão de pai, a mãe mandou-o para Lisboa, onde passou a viver com um tio (irmão dela), proprietário da Farmácia Ultramarina, na Rua de São Paulo, no Cais do Sodré. Ali aprendeu a manipular medicamentos, durante os anos em que conciliou o trabalho na farmácia com os estudos no liceu. A experiência haveria de ajudá-lo a concluir com distinção o curso de Farmácia, aos 21 anos. Em simultâneo, inscreveu-se em Medicina e também neste saber se licenciou com notas altas, dois anos mais tarde. Já então dava explicações, forjando os dotes de professor que depressa aplicaria na Escola Médico-Cirúrgica, antecessora das faculdades de Medicina. Com o dom da palavra, facilmente cativava os alunos. Certo dia, o médico estagiário Tomás de Mello Breyner, avô da poetisa Sophia de Mello Breyner e bisavô do jornalista Miguel Sousa Tavares, ouviu dele a seguinte lição: “Quando entrares de noite num hospital e ouvires algum doente gemer, aproxima-te do seu leito, vê do que precisa o pobre enfermo e, se não tiveres mais nada para lhe dar, dá-lhe um sorriso.” Sábio a tratar os mais diferentes males, Sousa Martins ganhou fama por este humanismo caridoso. Com o tempo, os doentes começaram a olhá-lo como milagreiro e, após a sua morte, em agosto de 1897, cresceu à volta dele um culto popular que perdura até hoje. Na sua estátua no Campo dos Mártires da Pátria, em Lisboa, e no cemitério de Alhandra, onde foi sepultado ao lado da mãe, por desejo próprio, acumulam-se flores, velas e placas de mármore com agradecimentos ou pedidos. Os devotos elevaram-no a “santo”, apesar de ele nunca ter sido religioso (e, por isso, a igreja não admite a hipótese de o canonizar), e dedicam-lhe preces para ajudá-los a livrarem-se de doenças. Afinal, foi essa a sua maior virtude em 54 anos de vida. Solteiro e sem descendentes, o médico ribatejano serviu a causa pública no Hospital de São José e empenhou-se a fundo no tratamento da tuberculose, à época um flagelo nacional. Da sua influência junto da Coroa haveria de nascer o Sanatório Sousa Martins, na Guarda, uma década depois da sua morte (hoje dá nome ao hospital da cidade). Foi assim batizado por sugestão da rainha D. Amélia, com quem trabalhara na criação da Associação Nacional da Tuberculose. A aposta em centros de cura na serra da Estrela tinha sido ideia sua, após ter estudado o clima da região que ele acreditava ser favorável ao combate a esta doença infecciosa. Sousa Martins representou o País em conferências internacionais relacionadas com epidemias e saúde pública e era considerado um dos maiores especialistas nesta área. À margem da Medicina, foi um dos fundadores do Jardim Zoológico de Lisboa, da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses. Admirava Camões, privou com Antero de Quental e Eça de Queirós. O escritor e político Guerra Junqueiro, também contemporâneo, descreveu-o como “um homem que radiou amor, encanto, esperança, alegria e generosidade”. A morte de Sousa Martins – suicidou-se quando a tuberculose avançava no seu corpo sem travão – foi notícia de primeira página nos jornais. Pesaroso, escreveu o rei D. Carlos: “Apagou-se a mais brilhante luz do meu reinado.”» VISÃO


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