domingo, 27 de dezembro de 2020

Eduardo Dâmaso fala-nos da operação Lex. Quando se provou que a Justiça Portuguesa estava toda corrupta

 

Operação Lex 
A Justiça e o fundo do poço

Por Eduardo Dâmaso“

 A Relação de Lisboa, ou pelo menos uma importante parte dela, funcionou demasiados anos numa lógica de puro gangsterismo judicial”

 A síntese sobre o estado de uma parte da Justiça simbolizada no caso que varreu a credibilidade do Tribunal da Relação de Lisboa está toda num discurso, muito mais do que em qualquer processo. Se bem que o que decorre da Operação Lex seja totalmente esclarecedor. Os factos são aqui demonstrados de forma objetiva e implacável na sua exuberante certeza, mas um juízo moral inatacável torna-se essencial. E, a esse propósito, António Joaquim Piçarra, presidente do Supremo Tribunal de Justiça e do Conselho Superior da Magistratura (CSM), não poupou nas palavras quando, a 21 de outubro, empossou a nova presidente da Relação, a juíza desembargadora Guilhermina Freitas: “Os factos que põem em causa esta Relação são de uma gravidade extrema e insofismável. Colocam-na no fundo do poço da honorabilidade.” E os factos quais são? Olhemos para a acusação da Operação Lex. O Ministério Público acusou 17 arguidos dos crimes de corrupção ativa e passiva para ato ilícito, recebimento indevido de vantagem, abuso de poder, usurpação de funções, falsificação de documento, fraude fiscal e branqueamento. Para o público em geral, as estrelas de um processo com tantos crimes são o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, e o empresário José Veiga. Mas para aquilo que é a essência de um regime democrático, uma Justiça séria, isenta e transparente, fortemente afeiçoada ao princípio da legalidade e da igualdade, estão lá três juízes – Rui Rangel, Fátima Galante e o ex-presidente da Relação Vaz das Neves –, que representam um verdadeiro atentado ao Estado de Direito Democrático. Sem esquecer que ficou de fora um outro ex-presidente deste tribunal, Orlando Nascimento, alvo de um processo disciplinar por suspeitas de abuso de poder. Tudo o que vai ser discutido neste julgamento, que se espera célere, independentemente dos juízos de culpa e dos graus de participação de cada um, nunca poderia ter acontecido num tribunal decente pelos padrões democráticos. A batota foi total na distribuição dos processos, na elaboração das sentenças, na proteção clientelar, nos interesses contemplados. Quando aqui chegamos, este é o fundo de qualquer poço, numa sociedade de qualquer latitude. Ofende os direitos humanos e, como tal, a democracia e a igualdade dos cidadãos perante a lei. A Relação de Lisboa, ou pelo menos uma importantíssima parte dela, funcionou, demasiados anos, numa lógica de puro gangsterismo judicial. E isso é um perigo abominável, criado por Rui Rangel e os seus amigos. Nunca poderá ser esquecido ou perdoado!



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